No passado dia 1 de dezembro, foi apresentado, no Convento de São Francisco, o bid book da candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura 2027 (CEC 2027). À medida que o público se sentava na grande sala pintada com luz em tons de rosa e azul, ouviam-se ecoar nas paredes as palavras de Zeca Afonso, figura emblemática de Coimbra, cidade onde o artista viveu, cantou e lutou. A antiga capital de Portugal tenciona voltar a assumir a sua centralidade no país, tendo sido a primeira cidade a oficializar a entrada no processo que vai culminar na eleição da CEC 2027. Para além de Coimbra, outras onze localidades portuguesas mostraram a intenção de se afirmar enquanto polos culturais e criativos através deste concurso europeu, como, por exemplo, Braga, Viana do Castelo, Funchal ou Faro.

O livro, que foi entregue para ser avaliado pelo júri internacional, é composto por sessenta páginas concentradas numa só folha que, ao ser desdobrada, vai revelando problemas históricos, desafios e potencialidades, ou seja, Correntes de Mudança. No evento, foram expostas as cinco áreas que estruturam o programa de Coimbra CEC 2027, entre as quais podemos destacar a “invenção de um rio”, que pretende resgatar a importância do Mondego no desenho da cidade, ou o “cheiro do café”, que procura estimular o espírito do encontro, das ideias e da dialética. As linhas expostas pretendem dar vida e corpo à candidatura, renovando a energia de Coimbra em todas as vertentes criativas.

Os eixos deste projeto são o culminar de um processo de três anos e meio, em que uma equipa, liderada e constituída pelo ilusionista Luís de Matos, escutou e dialogou com diferentes agentes culturais e setores da cidade. “O que conseguimos foi iniciar uma conversa que, agora, se consuma neste livro. Não queremos fazer uma candidatura para as pessoas, queremos fazer uma candidatura com as pessoas”, afirmou, em entrevista ao Gerador, o coordenador do grupo de trabalho. Já o atual presidente da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), José Manuel Silva, que assumiu também a pasta da vereação da cultura, refere que o bid book “definiu um caminho que tem de ser cumprido independentemente do resultado”.

Coimbra: provinciana ou cosmopolita?

Ao longo do evento, repetiram-se os adjetivos universalista, europeísta, multicultural e cosmopolita. Parece existir uma vontade subjacente a esta candidatura de abrir Coimbra ao mundo, afastando a ideia de que o município sofre de um espírito provinciano, de uma personalidade acanhada ou de tiques de aldeia. Ao nível do número de habitantes, a maior cidade do centro de Portugal figura atrás de Braga e Guimarães, ambas com mais população. Enquanto Guimarães já foi CEC, em 2012, Braga concorre, agora, ao lado de Coimbra, tendo entregue, a 19 de novembro, o dossiê para a fase de pré-seleção. No entanto, os intervenientes da noite expressam confiança com a candidatura conimbricense, casa da mais antiga universidade do país. Com um certo saudosismo na voz, José Manuel Silva, refere que Coimbra “já foi uma grande cidade e quer voltar a sê-lo”.

A sessão de apresentação do bid book teve ligações a vários pontos do mundo, onde membros do grupo de trabalho falaram a partir de diferentes geografias e entrevistaram personalidades distintas, de forma a pôr em evidência e a celebrar a multiplicidade de pessoas que espalham a cultura coimbrã pelo mundo. O antigo diretor do Conservatório de Música de Coimbra, Manuel Rocha, esteve à conversa com o ministro da Cultura de Cabo Verde, que mencionou os altos quadros cabo-verdianos formados em Coimbra. Para além da Cidade da Praia, o evento passou por São Paulo, Dubai, Bruxelas e Esch. Nas palavras do ilusionista Luís de Matos, “abriram-se portas e retomaram-se pontes que já existiam, mas que, de alguma forma, têm sido pouco utilizadas”.

No resumo do livro que foi entregue à imprensa consta que Coimbra acolhe 125 nacionalidades diferentes, dos cinco continentes, o que faz com que, proporcionalmente, seja a cidade mais cosmopolita do país. Muitas destas pessoas são seduzidas precisamente pela universidade, vindo para estudar ou fazer investigação antes de seguir para outras paragens. Contudo, com a presente candidatura, Coimbra quer tornar-se também atrativa pelo seu setor cultural. Segundo a curadora e organizadora do Festival de Artes Performativas Linha de Fuga, Catarina Saraiva, “existem imensos artistas que nasceram e cresceram em Coimbra, mas a maior parte não vive aqui. Isto é sintomático de algo, da falta de oportunidades que existem nesta cidade”. Assim, considera que “Coimbra pode beneficiar [da CEC] se se empenhar naquilo que é o significado de ser um polo criativo”.

Bandeira hasteia o logótipo de Coimbra Capital Europeia da Cultura 2027

Enquanto não se sabe a decisão do júri e que cidades passam à fase de seleção seguinte, estima-se que o valor desta candidatura reside também no processo de construção da mesma, que, para o coordenador do grupo de trabalho, já deu frutos. Quando inquirido acerca dos resultados palpáveis dos últimos três anos de conversações, Luís de Matos refere “a criação do Conselho Municipal de Cultura, algo que era um anseio de mais de cinquenta anos, em que os agentes culturais podem finalmente falar uns com os outros e serem ouvidos pelo poder político”. A curadora, Catarina Saraiva, salienta que, até ao momento, o Conselho Municipal da Cultura reuniu apenas duas vezes, sendo importante que este não se transforme numa “ferramenta demagógica para aquilo que é uma CEC”.

A necessidade de um momento de transformação é uma preocupação transversal a todos os agentes culturais e ao novo executivo municipal, que se estende para lá das fronteiras que contêm a cidade. Também o distrito e a região participaram ativamente na candidatura a CEC 2027, recordando que o anel verde que rodeia a cidade e se estende da serra da Estrela ao mar faz parte da identidade de Coimbra. O presidente da Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra, Emílio Torrão, esteve presente na noite de apresentação do bid book, lembrando que a cultura pode servir, tal como o rio Mondego, para unir os dezanove municípios que integram a zona administrativa.

Cultura com investimento

A Capital Europeia da Cultura 2027 vai receber um grande investimento por parte da União Europeia, com vista a erigir infraestruturas e plataformas que enalteçam a riqueza cultural das metrópoles selecionadas, uma em Portugal e outra na Letónia. Entrementes, as próprias cidades concorrentes devem suportar os custos dos respetivos processos, esperando um eventual retorno económico. Ao todo, o grupo de trabalho de Coimbra prevê um investimento total de 60 milhões de euros na CEC 2027, incluindo o apoio do Governo e dos vários municípios que constituem a Comunidade Intermunicipal da Região. Deste modo, preveem-se projetos de grande envergadura, alguns dos quais foram referidos durante a apresentação do bid book.

O presidente da CMC, José Manuel Santos, mencionou a criação da Mondego Arena, através da requalificação da Praça da Canção, local ribeirinho onde as grandes festas de estudantes, tal como a Queima das Fitas, acontecem todos os anos. Este pavilhão teria capacidade “para espetáculos de audiências até 5000 pessoas, eventos desportivos, feiras e congressos, salas de ensaio, salas de recursos técnicos e de produção partilhada”. O vereador da cultura afirma que são necessários “novos espaços que tragam e acrescentem algo diferente à cidade de Coimbra”. Para além disso, o executivo quer acolher o Polo Europeu do Museu de Língua Portuguesa, situando-o na Rua da Sofia, num dos velhos colégios do Polo 0 da Universidade. Outro grande empreendimento seria a refuncionalização da penitenciária, localizada no coração da cidade e ainda em funcionamento, projeto com um custo estimado de 15 milhões de euros.

De forma a equilibrar as duas margens do rio Mondego, equaciona-se, ainda, a recuperação do Museu de Santa Clara-a-Nova, em conjunto com a Bienal de Arte Contemporânea Anozero, “ligando aquele enorme espaço de várias dezenas de hectares e de um legado histórico único, à cultura, à tecnologia e aos eventos”, tal como refere o presidente da CMC. O espaço está nas proximidades do Convento de São Francisco, que recebeu a noite de apresentação do livro, edifício recuperado em 2016 e transformado em centro de congressos com inúmeras salas de espetáculos. Assim, Coimbra passaria a ter um grande polo de eventos, potencializando o turismo em torno das atividades culturais e corporativas. Contudo, uma questão impõe-se face aos projetos assinalados: será que estes investimentos chegam para fazer face aos problemas estruturais que assolam o setor cultural em Coimbra?

Coimbra e o Rio Mondego, a partir da ponte pedonal Pedro e Inês

Um estudo sobre práticas de participação cultural no município de Coimbra, realizado pelo Centro de Estudos Sociais, por encomenda da CMC, revelou, por exemplo, as diferenças no acesso à cultura. Existe uma divisão explícita entre o envolvimento cultural dos públicos com escolaridade mais avançada e daqueles com menor, bem como entre as pessoas que vivem no centro da cidade e as que habitam a periferia. Para além disso, é lugar comum afirmar que há uma falta de ação concertada entre os diferentes atores que estruturam a vida cultural e artística em Coimbra. Para o mágico e produtor, Luís de Matos, “esta ideia de que Coimbra é feita de instituições voltadas de costas umas para as outras faz a cidade parar no tempo”.

Um dos exemplos passíveis de ilustrar a falta de coordenação mencionada é o desejo expresso na candidatura de criar uma bienal de artes performativas. “Acho ótimo, mas quando já existe uma bienal de artes visuais como é a Anozero e o Linha de Fuga, enquanto estrutura independente, que está precisamente a fazer uma bienal de artes performativas, vai a câmara fazer concorrência?”, questiona a organizadora do Festival de Artes Performativas Linha de Fuga, que acontece a cada dois anos. No ano passado, o Linha de Fuga explorou a relação entre as artes e a democracia, apesar das restrições impostas pela pandemia, num exercício que quis provar que a cultura é segura. Já a Bienal Anozero, organizada com o apoio da CMC e da Universidade, parte, este ano, da observação da noite enquanto espaço “de fluidez e quebra de normas”, com uma programação em dois momentos que dura até junho de 2022.

De forma a fomentar uma ação mais coordenada e estruturada por parte dos diferentes agentes culturais e governativos, o presidente da CMC menciona a importância de desenvolver uma agenda cultural comum. “A agenda cultural comum é um dos principais objetivos desta nossa governação de Coimbra e, sobretudo, desta nova relação de cordialidade e de trabalho conjunto com a Universidade e com as outras estruturas da cidade. Nós temos de projetar o nome da cidade de Coimbra, congregando os nossos esforços, as nossas atividades, as nossas ideias e projetos”, salienta.

Para que todos estes projetos possam ser consultados pela população, o bid book está disponível para ser descarregado de forma gratuita na página de Coimbra CEC 2027, iniciativa que o coordenador do grupo de trabalho afirmou ser inédita e que pretende demonstrar o caráter participativo, inclusivo e dialógico desta candidatura. O bid book põe em evidência alguns dos mecanismos que foram utilizados para estimular o envolvimento da sociedade civil no processo de criação das Correntes de Mudança, nomeadamente quatro sessões públicas e diferentes momentos de diálogo abertos à cidade. No entanto, para que os problemas estruturais que assolam o setor cultural em Coimbra possam ser resolvidos, revela-se importante continuar a fomentar estes espaços de partilha e de construção coletiva.

Correntes de Mudança: Bid book da candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura 20207

Entre duas temporalidades

Durante o evento, foi referido que a cultura em Coimbra funciona em torno de duas temporalidades, cristalizadas pelas antigas muralhas da cidade que separavam a Universidade e a elite que aí podia estudar, do resto do povo. Uma, mais constante, relacionada com o Património e a História (merecedores de letra maiúscula) e outra, marcada por erupções de espontaneidade e audácia. A candidatura de Coimbra a CEC quer fazer diluir esta fronteira, estimulando relações entre as diferentes instituições, espaços e atores que já existem na cidade. “Existe uma intermitência na genialidade em Coimbra, por isso, devem criar-se condições para que esta seja mais constante e mais presente e, nessa altura, essas duas temporalidades vão também misturar-se e vão ser sinérgicas, porque uma precisa da outra”, afirma o coordenador do grupo de trabalho, Luís de Matos.

A Universidade de Coimbra foi instalada de forma permanente em 1537 e é o epicentro do município, localizada no alto de uma das colinas, com a torre da cabra a erguer-se altivamente. A mais antiga instituição de ensino superior do país, bem como as zonas envolventes, Alta e Sofia, integram, desde 2013, a lista de locais reconhecidos como Património Mundial da Humanidade da UNESCO. Por este motivo, o turismo tem crescido, o que provoca tensões entre a cidade que se quer museu, limpa, ordenada e intemporal; e o espaço vivido pela população, marcado, orgânico e carregado de memória. Desta forma, torna-se necessário redescobrir a identidade coletiva da cidade, que revela que Coimbra não é só do Património e da História (com letra grande, singular), mas também das pessoas que, no dia a dia, escrevem as suas histórias pelos muros e através deles, constroem projetos, usufruem das ruas.

Poema escrito nos arcos do Aqueduto de São Sebastião, em Coimbra

Neste ponto, as opiniões divergem em relação à Coimbra que a candidatura revela e procura pôr em evidência. A curadora, Catarina Saraiva, refere que, durante a apresentação do bid book, não houve um impulso sobre a questão das práticas artísticas e sobre o desenvolvimento da arte em Coimbra, “está tudo muito conectado com a Universidade, com o conhecimento, com estruturas mais institucionais”, acrescenta. Já José Manuel Silva garante que a câmara tenciona apoiar todas as formas de expressão cultural. “Para além de continuarmos a apoiar as associações culturais do concelho, não só da chamada cultura erudita, como também da cultura dita popular, queremos dinamizar toda esta atividade e congregá-la, torná-la acessível”, afirma em entrevista ao Gerador.

A candidatura de Coimbra a CEC, exposta no livro apresentado no passado dia 1 de dezembro, procura conciliar as diferentes camadas que compõem a cidade, os diversos mundos que coabitam o mesmo espaço. No final do evento, voltam a soar as palavras de Zeca Afonso, desta vez pela voz do cantor José Pedro Gil: “não me obriguem a vir para a rua gritar, que é já tempo de embalar a trouxa e zarpar”. Para que estes versos não representem a vida dos estudantes que passam pela Universidade de Coimbra, sem ficar por estas paragens, sem participar na construção da cidade porvir, “falta precisamente puxar a autoestima das pessoas que estão aqui [Coimbra], falta fazer com que elas tenham as condições de fazer funcionar, aqui, tudo aquilo que fazem”, salienta a conimbricense, Catarina Saraiva.

Para o coordenador do grupo de trabalho, Luís de Matos, esta “é uma oportunidade para pegar na cultura enquanto eixo fundamental que se cruza com todas as áreas da sociedade”. O facto de o presidente da CMC ter assumido a pasta da vereação da cultura parece selar este compromisso. Para lá dos projetos de índole artística, o bid book estipula a necessidade de melhorar uma série de áreas que interagem com a questão do acesso à cultura, nomeadamente a importância de criar uma melhor rede de transportes urbanos que funcionem também durante o período noturno, a adequação das habitações aos padrões de vida atual, e a renaturalização das margens do rio para efeitos de fruição. O livro apresenta ainda algumas medidas concretas, tais como a criação de um “cartão de amigo” que facilite, em termos económicos, os acessos aos eventos culturais, e que deverá começar a funcionar a partir de 2022.

A ambição subjacente à candidatura de Coimbra a CEC 2027 é grande, passando pela revitalização da autoestima de quem habita a cidade, pela facilitação do acesso à cultura, por uma agenda de programação concertada e diversa, pela criação de condições e oportunidades que possam seduzir artistas e trabalhadores da cultura e pelo apoio a um ecossistema artístico em efervescência. Resta saber se a capital da região centro vai conseguir fazer face às dificuldades históricas que enfrenta e, caso ganhe efetivamente o título, se os fundos da União Europeia vão ser investidos em projetos e iniciativas que façam sentido para as pessoas que vivem (n)a cidade. Os resultados desta fase do concurso vão ser conhecidos em março do próximo ano, sendo que três cidades vão passar à short list. A partir daí, cada uma das concorrentes vai começar a construir um programa que será avaliado para que a decisão final seja conhecida no final de 2022.

Texto de Catarina Silva
Fotografias de Nuno Vieira
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