“Irreverência, ousadia e persistência fazem parte do ADN Emergente”, lê-se na descrição do festival que decorre no dia 29 de novembro no Capitólio. Nesta que é a segunda edição do festival Emergente, o cartaz compõe-se por Dream People, Hause Plants, Meta, Fugue., Rui Rosa, Cíntia, Cri the Coeur, e Lana Gasparotti. As sonoridades são diversas, e a geografia das bandas que as trazem também — essa foi, na verdade, uma decisão consciente tomada pelos programadores.

Depois de ver cancelada, por três vezes, a data em que decorreria, de mudar a localização e ter de passar a um dia, em vez de dois, de festival, o Emergente persistiu e mostra-se como um evento de resistência às dificuldades que tomaram de assalto o setor cultural com a pandemia. Ainda assim, Carlos Gomes, o diretor artístico e de produção, sublinha que “esta é a edição do Emergente 2020, não é a edição covid-19”. Encara, juntamente com a sua equipa, a pandemia como um desafio e não como um elemento definidor desta edição.

Com uma equipa muito jovem, a quem não se cansa de tecer elogios, Carlos está a montar um festival que é um elogio à música emergente que se faz pelo país e que apenas em dois anos, sob a chancela da Transiberia, se tornou um lugar onde quem está a começar quer estar. O Gerador conversou com Carlos Gomes semanas antes desta celebração à música e à cultura, que fará do Capitólio a sua casa.

Gerador (G.) - Desde o começo que assumem que o vosso foco são os artistas emergentes. Foi também por eles que decidiram não cancelar a edição deste ano?
Carlos Gomes (C.G.) - Nós decidimos não cancelar a edição deste ano sobretudo porque temos como missão apoiar esta nova geração, e também porque temos a consciência de que neste momento as oportunidades são ainda menos, e sobretudo para este género de bandas, que estão no início do seu percurso e que tinham uma rede de salas, que alimentavam muito este circuito de música independente e da música jovem, e que neste momento estão fechadas. Portanto, se há momento em que o caráter e a missão do nosso festival faz particular sentido, é precisamente este. O que nós sentimos é que estamos, de facto, a trabalhar numa espécie de missão urgente, de pelo menos podermos incentivar com este nosso esforço esta malta nova a perseguir os seus sonhos e a sua vontade de fazerem música porque isso é, de facto, importante: conseguirmos dar apoio neste momento. Isso é o que nos motiva, acima de tudo. Por outro lado, também temos refletido bastante com esta questão da covid e a forma como isto também interferiu na dinâmica do festival, com aspetos positivos e negativos. Para todos os efeitos, esta é a edição do Emergente 2020, não é a edição covid-19. Condicionantes existem sempre, queremos integrar esta só como mais uma e não dar especial relevância, porque também sentimos que estamos num momento do Mundo em que estas coisas estão mais profundas. Fazer ou não fazer um festival mexe com muitas outras coisas: mexe com a nossa capacidade de resistência, com a nossa resiliência, com a nossa capacidade de superar dificuldades. E a nossa mensagem é sobretudo essa, para as pessoas que estão agora a começar a realizar os seus sonhos: juntos podemos superar as adversidades que nos apresentam neste tempo tão específico para a música e para as nossas vidas em geral. Acho que é o mais importante. A nós, equipa do Emergente, o que nos motiva é sobretudo querermos viver e continuar a fazer as coisas de que gostamos, sobretudo com e para os outros. As coisas fazem muito pouco sentido quando as fazes para ti próprio e somente com esse tipo de objetivos. Se há coisa que neste momento me faz sentir bem é a capacidade de nos entendermos uns aos outros e procurarmos estar juntos, enfrentando as dificuldades que temos, que de maneira nenhuma vão determinar o que faremos.  

G. - Muito se tem falado de como a pandemia veio expor as fragilidades do setor cultural, e os técnicos têm-se queixado por não serem contemplados por nenhum apoio. Por muito que esta não seja a edição covid-19, fazer o festival também é uma forma de pensar não só nos músicos, mas também nos técnicos e todas as pessoas que estão envolvidas na concepção do festival?
C.G. - Sem dúvida. Aliás, uma das coisas que de certa forma também nos traz alguma alegria neste momento, pela forma como estamos a trabalhar, é também sentir esse apoio das equipas técnicas, nomeadamente o Capitólio, que tem sido incrível. Há aqui uma conjugação de vontades que não são só as nossas; nós sozinhos não conseguiríamos fazer isto, seria impossível. Aliás, o festival teve de mudar de sítio, era suposto ser em Marvila mas tornou-se impossível pelas circunstâncias atuais. Era suposto também ser três dias, e ficamos reduzidos a um. Queríamos ter crescido um bocadinho relativamente ao ano passado, queríamos ter tido outras atividades à volta dos concertos e tudo isso se tornou inviável. Estamos a trabalhar com um orçamento muito curto, e também há muitas limitações à volta porque há a possibilidade de as pessoas estarem juntas e poderem usufruir deste tipo de eventos com uma certa liberdade. Há uma liberdade condicionada, mas todas estas dificuldades que temos vindo a superar, têm acontecido muito graças ao apoio das equipas técnicas — tanto do Capitólio, como de outras pessoas que trabalham connosco. Este é um momento muito difícil, e devo dizer que a própria Transiberia, dada a sua estrutura, não foi apoiada em nada desde o início, e, de facto, o único apoio que nós temos é o apoio financeiro da Câmara Municipal de Lisboa, que já o ano passado existiu, e é com base nesse apoio que temos a possibilidade de fazer a segunda edição do festival.

Hause Plants, banda que junta Guilherme Correia, António Nobre e João Silva, foi selecionada na Open Call

G. - Este ano também são parceiros do Rodellus — o que também mostra uma certa união entre eventos que acabam por ter um propósito mais ou menos semelhante — e que foram, inclusive, parte do júri da vossa Open Call. Que fatores tiveram em conta para decidir quem ia entrar, o que é que procuravam? 
C.V. - Primeiro de tudo queria dizer que a parceira com o Rodellus, assim como a do Camaleão, orgulha-nos muito.  Uma coisa que sentimos que também caracteriza esta geração, que é a posterior à minha, é esta capacidade de entreajuda enorme. Temos este orgulho de podermos ter tido também esta participação, e termos aberto a participação a estas pessoas incríveis. O Rodellus é um festival que já está consolidado, e este ano teriam feito a sexta edição. É malta que admiramos muito, que nos inspira, e são pessoas fantásticas. Com o João Araújo, do Rodellus, mas também com o Francisco da Camaleão, tivemos sempre uma grande proximidade nas escolhas e nas decisões que tivemos de tomar, naturalmente, neste processo. E, de facto, eu estou-lhes muito agradecido por essa colaboração fantástica que eles tiveram. Mas não é muito comum teres festivais que se unem em parceria a propósito de um festival em concreto, e a abertura do pessoal do Rodellus, para esta proposta que lhes fiz, foi incrível. Foi quase um desejo simultâneo, que surgiu das conversas que já tínhamos entre nós, e a vontade de aproximar Norte e Sul, já que no Norte há um movimento de música independente muito interessante e do qual o Rodellus é um dos responsáveis. 

Quanto aos fatores que tivemos em conta, é curioso porque houve algumas pessoas que não perceberam como é que este concurso está montado. Nós fizemos um open call aberto a todas as bandas que se quiseram inscrever, e inscreveram-se 49, mas só resultava a escolha de duas bandas. O line up seria montado da seguinte forma: duas bandas por escolha do público,  três bandas por votação do júri do Emergente, e depois o restante line up seria uma das convidadas da organização do festival — inclusive nós tínhamos pensado em convidar bandas que gostaríamos que estivessem no festival e que não estivessem necessariamente no open call. A qualidade do open call foi tão grande que se tornou extremamente difícil esta ideia de estarem apenas oito bandas, porque por nós estaria o dobro. Temos muita pena de não ter tido dois dias de festival, mas estas coisas que nos transcendem implicam sempre escolhas. Para fazer essas escolhas, importava-nos a diversidade de sonoridades, não só para o interesse do line up como pela representatividade das bandas, outro dos critérios foi esta tentativa de um equilíbrio entre elementos masculinos e femininos. Se olhares para o concurso do Emergente, notas que há mais homens do que mulheres, mas nós podemos ter essa preocupação e, em circunstâncias iguais, procurar ter esse equilíbrio. Outro dos critérios foi tentar abranger, o mais possível, o território nacional: perante situações em que a qualidade era a mesma, optámos por bandas que não eram de Lisboa para não acontecer termos um festival só com bandas daqui. Temos quatro projetos de Lisboa e quatro projetos de fora de Lisboa, e acho que isso é importante. A música emergente não existe só em Lisboa. 

G. - Achas que essa questão territorial acaba por influenciar as sonoridades? Lembro-me, por exemplo, da Meta, que tem uma relação muito próxima com as suas origens, e que a transporta para a música. Essa diversidade territorial convoca a diversidade de sonoridades, ou as coisas nem sempre estão diretamente ligadas?
C.G. - Sim, acho que as coisas estão relacionadas… mas no momento da escolha acho que essa relação entre o lugar geográfico e a sua sonoridade não esteve assim tão presente. A escolha da Meta, por exemplo, além de ter sido praticamente unânime, posso dizer que teve muito que ver com isso; não teve que ver com aspetos que nela são muito evidentes, como trabalhar a música popular, ou a relação do lugar em que ela nasceu ou cresceu, mas teve que ver com a qualidade musical com que a Meta se apresenta. O que quero dizer com isto é que estes fatores de território e diversidade acabam por ser mais fatores de confirmação do que de decisão. A escolha não foi feita propriamente em função desses fatores. Mas há casos em que é evidente que existe uma relação entre a sonoridade e as origens, como é o caso da Meta. Isso é uma coisa que eu creio que é uma questão de atualidade: hoje em dia, muitos artistas procuram a sua identidade através da sua música. E no caso da Meta, é uma unidade indissociável. Mas também no caso do Rui Rosa, que é um jovem cantautor muito interessante, cujas letras refletem muito a vivência urbana na cidade de Lisboa, com uma poesia muito particular e bem articulada. E a atualidade também foi um dos fatores que tivemos em conta; a música falar pelos tempos que vivemos hoje. 

Meta lançou há um ano o EP Mónada, sobre o qual já conversou com o Gerador

G. - E além do que estivemos a falar até agora, o que é que torna esta edição tão distintiva?
C.G. - Eu acho que o maior destaque desta edição do Emergente é mesmo a imensa qualidade das propostas que vão estar no palco. Pessoalmente, estou com imensa expectativa para todas as propostas que foram selecionadas no festival, temos mesmo muita curiosidade de os ver em palco. Que me lembre, nunca tinha visto nenhuma em palco, ainda — apesar de já conhecer um pouco de Dream People e dos Hause Plants, que foram escolhas do júri. Mas, de facto, o maior destaque é a qualidade geral do cartaz, e é também dar boas condições técnicas aos músicos para eles se revelarem. Isso é uma coisa que o Emergente faz questão: fazer o festival num sítio em que os músicos tenham as melhores condições possíveis. Para muitos destes músicos que vão estar no Capitólio, vai ser um salto gigante. Bons músicos nessas circunstâncias tornam-se ainda melhores músicos, e isso é um incentivo muito grande. Não parece, mas é. Vimos isso a acontecer no Lisboa ao Vivo (LAV) no ano passado, porque é uma espécie de campo ideal para o cultivo. E claro, destacaria também o próprio palco do Capitólio, que tem umas condições brutais, e o apoio da equipa que tem sido muito grande. Estamos super contentes por estar a fazer o Emergente 2020 no Capitólio, tenho dificuldade em pensar num lugar que seria melhor do que ali. 

G.- E é importante que haja esse entusiasmo mesmo quando os tempos que vivemos são incertos.
C.G. - Tivemos três datas possíveis, que não chegaram a ser anunciadas porque acontecia sempre alguma coisa antes de o fazermos. O Emergente era para ser em setembro e não chegou a ser por causa de não se poderem fazer festivais, e nós, pequeninos como somos, pensámos que se os grandes não iam poder fazê-lo, não íamos nós meter-nos neste filme. Mas este entusiasmo tem muito que ver com o espírito com que estamos a fazer isto. Temos uma equipa muito jovem, e isso é algo que influencia o meu entusiasmo, porque também é ótimo estar a trabalhar com gente tão nova, tão cheia de qualidade, e perceber que eles próprios acabam por vestir a camisola e querer levar isto para a frente, com todos os sacrifícios que estamos a fazer neste momento. E não é que não estejamos a viver estes dias de uma forma preocupada e difícil, por vezes, mas sentimos que é importante também podermos, no meio desta dificuldade toda, encarar o que queremos fazer com o entusiasmo que elas merecem. 

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Texto de Carolina Franco
Fotografia da cortesia de Carlos Gomes
O Gerador e o Emergemte são parceiros

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