O relógio marcava as 18h30. Fora do portão da Casa Fez já aguardavam cerca de 150 pessoas que conseguiram agarrar bilhetes gratuitos disponíveis na bilheteira da Casa da Música, e que em poucas horas haviam esgotado. Os portões cinzentos da casa-atelier do arquiteto português Álvaro Leite Siza Vieira abriram, dando início à Obra em Casa, a primeira iniciativa da A Minha Casa é a tua Casa , em que, durante o mês de Julho, a Casa da Música oferece três iniciativas que fazem a música entrar por portas inesperadas.

Os convidados vão ocupando o espaço exterior da Casa Fez enquanto esperam para entrar na aventura da visita guiada à casa do arquiteto. O tempo de espera é preenchido por clicks de máquinas fotográficas, com comentários de admiração à Casa e com perguntas como, “Mas o Álvaro vive mesmo aqui?”, ou “Ele está cá agora?”. Vive na Casa Fez, estava pela Casa naquele momento e não tarda juntar-se-ia à festa e àqueles que tivessem vontade de falar com ele.

Fila no momento antes da visita guiada começar

A Casa Fez é a concretização de um ideal e sonho de Álvaro Leite Siza Vieira, que começou em 2004 e terminou em 2010, embora o arquiteto admita que os seus sonhos para esta Casa ainda não estão todos concretizados. O projeto da casa-atelier tem presentes figuras tocantes na sua atmosfera, exalta obras, personalidades e não tem uma intenção previamente definida, aparecendo no seio de uma entrega a um crer que vai além do que se pretende. Álvaro ambiciona o desenvolvimento desta ideia de acessibilidade e abertura da Casa Fez com a possibilidade de receber mais pessoas em sua casa, quer artistas quer curiosos pelo seu trabalho, sendo esta associação à Casa da Música o primeiro passo para fundir artes e gerar novas inspirações.

Casa Fez

O primeiro de três grupos entrou pela garagem e começou o percurso pela casa. A primeira paragem foi numa sala colorida por desenhos abstratos de corpos femininos, que o próprio Álvaro Leite Siza assinara. As pessoas começam a agrupar-se em frente a um sofá padronizado com rosas elegantes e franjas castanhas. A música começa e eis que vemos uns pés que surgem do seu lado esquerdo. Começa, então, a primeira performance com curadoria do Gerador, da bailarina Rosana Ribeiro, Nas-ser. Por entre movimentos lentos e elegantes, Rosana não se revela de mediato. Depois dos pés, mostra-nos as pernas, depois o torso, depois o corpo de perfil encostado à parede. Os seus movimentos fundem-se com os traços dos quadros da sala, que experimentam impulsos e sensações. De repente, o corpo ganha vida, liberdade e velocidade. Em conversa com Rosana, esta admite que o espaço foi muito inspirador para a sua criação. “Há imensas pinturas aqui à volta e elas têm, sem dúvida, inspiração no corpo. Há muito corpo feminino aqui à volta, muitas pernas, muitos pés. Sendo uma casa com linhas tão interessantes, foquei-me um bocado nisso, nas linhas do corpo, linhas de pés e um bocado na ideia destes quadros. É a ideia que estas peças estão presas num quadro. Foi um bocado isso a inspiração. Dá mesmo essa sensação de quase não te conseguires mexer e, de repente, há uma certa liberdade e és humano outra vez. É aquela coisa de quando tu entras elas estão aqui perdidas, ninguém está a olhar para elas, mas quando alguém vem e olha para uma pintura a imaginação transforma, mas depois as pessoas saem e a pintura fica outra vez parada”. Por fim, Rosana senta-se no sofá e fita o público, imóvel. É altura de seguir para a próxima performance.

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Passando por uma sala repleta de maquetes de Álvaro que suscitaram muitos ahs de contemplação, passaram por corredores brancos que desaguaram numa sala com uma piscina vazia. As pessoas foram convidadas para entrar nesta piscina, sem perceberem o que estava a acontecer. De súbito, por entre os visitantes ergue-se uma voz, a do poeta José Anjos. Em Cinco poemas para uma piscina vazia, José fez uma leitura performática de cinco poemas seus, num local onde não há perigo de alguém se afogar, mas onde também não é possível nadar. “Há essa luta em que nascem os poemas, na procura de uma superfície que não seja apenas o chão e as paredes que o cobrem. Temos de ir para além disso e, às vezes, não há água por onde nadar”, diz José ao Gerador. José começa por refletir sobre a condição de poeta, que descreve como sendo uma figura itinerante. “O poeta está completamente lixado”, diz a certo ponto do espetáculo. O poeta acrescenta que “a cultura que existe não é só aquela que está à superfície uma vez que, com todo o mérito que tem, as pessoas já lhe conseguem aceder facilmente. Às vezes, é preciso escavar um pouco e reconhecer aquilo que se faz”.

Para a sua performance recolheu cinco poemas que já tinha escrito e pensou numa forma nova de os ligar numa só narrativa, “como se fossem eles próprios diferentes divisões da mesma casa e, no fundo, o que eu escrevi de propósito para aqui foram esses corredores que os ligaram e que me permitiram, como numa matrioska, que os poemas encaixem uns nos noutros, encaixem em mim, encaixem dentro desta piscina, que encaixa nesta divisão, a divisão encaixa dentro da casa e assim sucessivamente até aos limites exteriores do pensamento, da cidade e do espaço”. Sendo esta uma iniciativa da Casa da Música, o ponto de partida de José foi a ideia subjacente a esta iniciativa de “a minha casa é a tua casa, a Casa da Música como a Música sendo o nome próprio, como se a Música nos convidasse para casa dela, sendo que aqui é a casa de um privado. É essa ideia de casa que tem divisões, e que cada divisão tem a sua memória, função e história”.

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Para além de poeta, José também é baterista, nomeadamente no projeto Não Simão. Aliando isso à presença da Casa da Música na Casa Fez, houve a preocupação de incorporar elementos musicais na performance, fundindo a música com o poema, designadamente quando este apresenta um momento de precursão, ao bater no seu peito, enquanto continua a declamar um dos seus poemas, numa sintonia perfeita. “Eu fiz esta performance sem um músico, então achei que podia introduzir alguns elementos musicais. Não só neste exemplo de percussão que referiste, mas também na própria forma como isso teve importância nos textos que eu escolhi. Há textos que são mais ritmados, as próprias palavras e forma de as dizer são um instrumento. Mais do que o seu sentido, têm um alcance rítmico que vai para além da sua semântica. Portanto, tentei mostrar que, mesmo na contemporaneidade, a poesia dita também é música. Sendo que se considerarmos que a poesia nasceu na Grécia Antiga, a poesia estava sempre ligada à música, não havia uma dissociação”.

Chegada dos convidados ao jardim, após performance de José Anjos

“Para quando o horizonte?”, pergunta José ainda na piscina vazia. Talvez para o momento final deste encontro em que o poeta sobe as escadas da piscina e abre a porta que vai dar ao jardim da Casa Fez, onde decorrerá a última surpresa do dia, um concerto do duo Paisiel, com curadoria da Casa da Música. O concerto começa quando os três grupos acabam a visita guiada e o pôr-do-sol visita este enorme jardim com uma piscina com água, espreguiçadeiras, as volumetrias com secções verticais e horizontais da Casa Fez como pano de fundo, e espaço de sobra para se juntarem com os amigos e desfrutarem de um concerto que traz um impulso de sistematização de referências sem correspondências nem afinidades óbvias. Em conversa com o Gerador os elementos dos Paisiel, João Pais Filipe na percussão e Julius Gabriel no saxofone, admitem que, embora já tenham atuado na Casa da Música por duas vezes, nunca o fizeram numa iniciativa deste género em que a Casa da Música os leva até outra Casa. Concentrados essencialmente na liberdade do improviso, João diz que a única coisa que está planeada é um pôr-do-sol especial. Julius acrescenta que a banda é especial pelo seu drama, ideia que João complementa dizendo que não se inserem em nenhuma categoria musical, deixando que as pessoas decidam isso para se concentrarem apenas na sua música.

Paisiel começam o concerto

À parte final da festa juntam-se mais pessoas e ninguém é deixado da parte de fora do portão da Casa Fez. Os jardins são ocupados por cerca de 280 pessoas que se sentam em mantas vermelhas na relva, riem, partilham histórias e se deixam envolver pela música dos Paisiel. Dia 12 de julho foi o dia em que a Casa Fez se fundiu com a Casa da Música, e juntas se tornaram na casa de todos, com um abraço apertado a várias artes e artistas, que também se juntaram à festa naquele final de tarde.

Texto e fotografias por Andreia Monteiro
O Gerador é parceiro da Casa da Música