Foram entrevistadas 21 pessoas, de várias regiões do país, com idades compreendidas entre os 23 e 85 anos. Deste universo, três consideram inserir-se na classe socioeconómica média alta, 11, na classe média, seis na classe média baixa, e uma na classe baixa.

Várias casas foram contadas, isto é, relações, paredes a caírem.

A herança das imagens

Em grande parte das partilhas, há reminiscências de um país rural, embora seja reduzido o número de habitantes que neste contexto reside. Contudo, é transversal um deslocamento até ao campo, seja para visitar familiares, memórias da infância ou mesmo outros imaginários. “Quando penso numa casa portuguesa, imediata e inevitavelmente penso num estilo de casa mais antiga, simples, ligada ao campo e à ruralidade. Uma casa térrea, paredes caiadas de branco, telhado baixo em cor de tijoleira. Por vezes, pode ter uma cor associada, como verde, castanho, amarelo torrado ou azul, cor esta que, geralmente, vinga numa faixa rodapé em todo o exterior da casa. As janelas são brancas ou cor de madeira, e, no seu interior, conseguimos ver umas pequenas cortinas de linho com rendas ou bordados junto ao vidro da janela. No exterior da casa, há um pátio ou um telheiro, pode haver um forno a lenha, e onde têm lugar algumas actividades, como cuidar de uma horta ou de um pequeno pomar ou olival”, responde Ana Margarida Vaz, de 26 anos de idade, natural de Fátima. A sua família cresceu em aldeias ao redor desta cidade, mas Ana sempre habitou no centro desta, num apartamento. Curiosamente, a descrição da sua avó, Florinda Vaz, com 80 anos de idade, é muito semelhante. Porém, ao contrário da neta, experienciou materialmente o ambiente que descreve: “casa térrea, com telhado com duas águas, entre duas a três divisões (quarto, cozinha/sala, casa de banho), lareira, anexo para arrumação de lenha e ferramentas necessárias para trabalhar no quintal, forno para cozer pão... Tem também um quintal com gado, plantas, legumes, árvores…”

Uma vez que Ana vive em Lisboa, desde os 18 anos, aquando do ingresso no ensino superior, acrescenta: “Por outro lado, pela minha vivência em Lisboa, e também pelo que aí respirei, não consigo dissociar a casa portuguesa das varandas lisboetas viradas para o Tejo, as janelas abertas em tempo de Verão, as portas semiabertas dos bairros lisboetas (infelizmente, agora, cada vez mais descaracterizadas em prole do consumo turístico), os estendais de roupa nas varandas, as vizinhas à janela, os convívios nos pátios…” Não muito longe, num terceiro andar, na Parede, em Cascais, vive José Gomes, de 64 anos de idade. É natural da Guarda, donde migrou para a capital, com 8 anos, onde já vivia o irmão, procurando fugir à pobreza. Viveu no coração desta cidade durante algum tempo, e, mais tarde, com a família que gerou, antes de se aproximar do mar. Tem uma casa de férias no campo, em Rio de Moinhos, uma aldeia que pertence a Abrantes, onde também aproveita alguns fins-de-semana. Porém, quando interrogado acerca da localidade onde vive, diz ser esta última a que coincide com a ideia que tem de casa portuguesa. “É uma casa tradicional. Fisicamente, é uma casa normalmente térrea, com lareira, uma família constituída - antigamente eram casas pequeniníssimas com 8 filhos. Hoje, já não é tanto assim. E sempre com um quintalzinho ou umas hortas, para ajudar na alimentação da família.” Reparemos que se trata de uma casa do passado, deixada muito cedo. Talvez, noutras sementes experimentou um reencontro, e é lá que diz habitar e projecta o seu futuro, para quando a reforma chegar. Teresa Almeida, de 81 anos de idade, também reside em Lisboa, contudo é natural de Leiria, onde viveu até aos nove anos de idade, mas é a casa dessa região que nos abre a sua “casa portuguesa”: “É uma casa de aldeia, arranjadinha, com os requisitos necessários (sem luxo), com uma lareira e um sítio para se passear, muitos arvoredos (o verde dá descanso às pessoas)…”

António Luís, de 84 anos, natural de Santarém, descreve a casa portuguesa como uma casa que já não está, mas que foi estando. Enumera objectos de diferentes momentos da sua vida, inseparável da do país: telefonia, candeeiro a petróleo, máquina de costura, fogareiro a petróleo. Recorda: “Não tínhamos casa de banho, tínhamos uma pia. Não havia electricidade. Tomávamos banho num alguidar.” Se a casa é origem, foi-lhe pobreza. Se a casa é construção, pode ser evolução. Todos/as entrevistados/as com mais de 50 anos de idade, sentiram a casa a procurar o conforto e, hoje, sentem-no em casa.

As casas, onde se come o coração

“Uma casa portuguesa é uma casa com muita luz, muito sol, logo muitas janelas e persianas que protegem do sol quente e do inverno rigoroso. Uma casa portuguesa tem uma peça central e fundamental que é a cozinha, a alma da casa. Passa-se mais ou menos tudo na cozinha”, pinta Elisa Bogalheiro, de 41 anos de idade, da Covilhã. Reparemos como, do sol, Elisa chega ao lume. Tudo isso é corpo. “Para mim, os cheiros são as artérias da casa, são eles que marcam os ritmos. Por exemplo, na casa da minha avó, todas as manhãs cheirava a café, um cheiro intenso que atravessava toda a casa. Eu ainda nem bebia café, mas sabia que aquele era o cheiro de um dia novo. Por muito tonto que pareça, aquele cheiro a café, misturado com o cheiro da lareira, era a forma de habitar naquela casa. Sem aquele cheiro, aquela casa não era a mesma. São os cheiros que nos ajudam a suavizar as memórias. Se não, de que forma poderíamos regressar lá, onde os nossos ficaram e já só os vemos pelas janelas da memória?”, continua a partilhar. O sabor chega ao saber.

Saber-se parte, repartir-se. No centro das palavras, a casa. A mesa, no centro da vida. O cuidado e o calor. Alimentar(-se). De repente, as paredes caem e são braços. “Associo muito uma casa portuguesa às refeições partilhadas entre gerações da família (avós, filhos, netos, primos, irmãos) e/ou amigos que se reúnem, muitas vezes, em torno de uma mesa para almoçar ou jantar, onde a necessidade de refeição acompanha, e é pretexto, para momentos de convívio. Numa casa portuguesa, há sempre uma mesa pronta a acolher (Há sempre lugar para mais um!). Associo às comidas saborosas, consistentes, os produtos locais, o azeite, o alho, o feijão, o chícharo, as couves, a broa, o pão, os cereais, os queijos e enchidos, as caldeiradas, os estufados, os fritos, o refogado. A gastronomia é importante e é um elemento que une e reúne. O cheiro dos cozinhados espreita sempre à porta”, descreve Ana.  Por isso, “são casas de muita gente, muito vividas”, acrescenta Francisca Faria, de 20 anos, residente em Lagos, com “uma mesa grande, onde se junta a família e os amigos para festejar a vida, sempre com muita comida, muitos sorrisos e com muitos abraços”, diz Daniela Gomes, de 27 anos, natural de Famalicão, residente em Coimbra.  Florinda conta que este lugar e não lugar, apesar de ser atravessado pelo tempo, tem permanecido. “Numa casa portuguesa, antigamente, era típico a família reunir-se em volta da lareira para jantar, contar histórias, rezar o terço. Hoje em dia, muitas dessas tradições já se perderam, mas ainda é muito usual juntar-se à lareira e passar o serão.”

Assim, muitos objectos são vistos em relação, pensados com, e para, os/as outros/as. Por isso, para além  de “uma lareira onde dá para fazer torradas, um quintal com uma horta biológica”, Joana Gregório, de 24 anos de idade, natural de São Luís, Odemira, residente em Lisboa, deixa “uma garrafa de vinho à espera de um bom convívio entre vizinhos”, porque, “se à porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa com a gente!”, cantarola Susana Aires, de 25 anos, natural de Lisboa e residente em Bruxelas, recordando o fado “Casa Portuguesa” (1953), de Amália Rodrigues, que tem vindo a ecoar no imaginário de outros/as entrevistados/as. Em muitas casas a abertura é a do portão, “que, fisicamente, não tem força suficiente para impedir alguém de entrar porque, de facto, faz parte da «casa portuguesa» querer ser aberta à rua e à vizinhança. Tal como Álvaro Siza escreve: «A coisa principal da casa é a porta, mais do que a janela porque não tem peitoril: só um degrau de poucos centímetros para o mundo ou para fugir do mundo (sempre se pode fechar a porta ou não a abrir ou escancarar as folhas da porta.)»”, cita Inês Vasconcelos, de 23 anos de idade, de Marco de Canavezes, residente em Praga.

Emília Macedo, de 57 anos, da aldeia de Avidos, uma freguesia de Famalicão, é mãe de Daniela, e refere que a característica transversal aos habitantes da sua região é a “união”, e que a paisagem influenciou a sua “humildade, espírito de partilha e o hábito de convívio com os outros,” mesmo que de classes sociais diferentes. Contudo, o caso de Emília é excepção.

A partir das cidades, Ana Cristina Luís, de 57 anos, de Santarém, aponta que há zonas específicas para cada classe social, e Susana, olha para a Parede e descreve: “As classes altas tendem a habitar espaços mais extensos, mais isolados e que obrigam a ter um modo de transporte próprio. Pelo contrário, as classes mais baixas vivem em aglomerados mais densos, como os prédios, o bairro, e, talvez por isso, estabeleçam mais contacto com os outros.” Francisca Faria também situa as diferenças socioeconómicas na cidade de Lagos: “As pessoas mais ricas vivem em urbanizações mais perto do mar, ou com vista para o mar. As de classes mais baixas vivem em lugares mais concentrados em algumas áreas da cidade, e muitas em habitação social.”

O acolhimento, de que se tem vindo a falar acontece, geralmente, nas classes baixas e médias, numa grande “simplicidade”, termo que é recorrente na caracterização de um habitar português. Porém, notemos que quem o tem vindo a referir habita no meio rural ou já o habitou, já passou da porta das casas em volta, com as quais, e nas quais, viu o tempo passar. Há, então, uma comunidade. É o sentido comunitário que gera subjectividades “mais extrovertidas e interventivas”, expressões de Américo Pereira, de 73 anos, natural de Sagres, que nos chegam a partir do campo.

Susana nunca esteve aí e, por isso, comenta: “Talvez a cidade me tenha tornado mais virada para mim própria, no sentido em que quase sempre vivi com uma certa ansiedade de regressar a casa, de saber que chega uma altura em que volto a casa, mesmo estando em contextos felizes, entrando novamente num espaço, maioritariamente, meu.”

As gerações mais novas, que floresceram no primeiro contexto, já não estão nessas ruas, mas nas das grandes cidades deste ou de outros países. Já é outra a relação, a da breve passagem por elas, mas é aí que continuam a encontrar-se com o que consideram ser a vivência portuguesa da casa. A memória é a experiência do regresso, aproxima-se de um início. Não serão elas, as nossas narrativas, que nos abrigam?

“Penso que a casa é, acima de tudo, um eixo sobre o qual o nosso dia, e talvez a própria vida, gira: é uma referência quando saímos pela manhã, e é também o lugar onde queremos voltar todas as noites. É o espaço que alberga as nossas memórias mais tenras e onde expressamos as nossas emoções, mais em bruto, precisamente porque ela confina o mundo. Creio que a minha forma de habitar a casa seja, acima de tudo, enquanto complemento fundamental da minha existência, do que sou, do que penso, do que sinto, de como me elaboro”, reflecte Susana, que já viveu noutras casas, no Reino Único e na Bélgica.

Os movimentos exteriores desencadearam interiores, indissociáveis da experiência da casa natal, porque lhe falaram e ela respondeu: “Houve um certo período em que a casa natal e, em particular, o quarto, parecia de um eu anterior e que já não habitava em mim. Isto não aconteceu sempre, mas sim num momento muito particular e isolado da minha vida. Se, por um lado, a permanência mais prolongada nesse quarto natal me fazia redescobrir esse eu que, apesar de tudo, ainda habitava em mim, por outro, esse quarto foi muitas vezes redesenhado e os seus detalhes, a sua composição, redefinidos, de forma a ser novamente meu.” Como a realidade não se divide, o “dentro” e o “fora” dialogam, logo transformam-se. Esse lugar da transformação não é senão o sujeito, constituído em relação com o mundo, os/as outros/as e as coisas. Quando Cátia Tenrica, de 29 anos, natural de Lisboa, residente em Elvas, regressou de Madrid, onde estudou, e a casa também foi o espelho do que não se encontra. “Quando voltei senti que já não pertencia à minha casa, porque tinha construído um conceito de lar, naquele primeiro tempo distante da casa dos pais, que me distanciava e me distinguia daquela casa. Passei a senti-la como 'a casa onde cresci' e precisei de procurar um lugar onde erguer o meu lar.”

Há objectos que não mudam, talvez apenas de lugar. Não porque outros, mais confortáveis ou com novas funcionalidades, surgiram, nem porque se tornaram “inúteis”, mas porque carregam uma presença que transcende esses critérios, a dádiva, o afecto. Todos/as os/as entrevistados/as consideram que os objectos herdados têm maior valor, “valor sentimental”, “valor afectivo” e a sua casa guarda-os, ou é por eles guardada. Quatro compuseram-na, maioritariamente, com o que já eram histórias, querendo acrescentar-se à sua.

Cláudia Sousa, de 27 anos, de Câmara de Lobos, na Madeira, ilumina a possibilidade dos objectos, a de ir “além da vida humana”, o que, na verdade, é a capacidade humana de, através da recriação destes, com a matéria afectiva, ir além da morte. “O facto de saber que certos objectos pertenceram a outros que nos eram/são queridos, dá-lhes uma aura e acarreta um certo dever de guardar, de estimar para voltar a olhar no futuro. Talvez esta seja uma forma de reimaginar a relação com o outro, o vivido em conjunto, através da fisicalidade dos objectos”, reflecte Susana.

Contudo, Ana, ao contrário da maioria dos/as entrevistados/as, não reencaminha, imediatamente, esta questão para a afectividade, da qual, a herança não é sinónimo. “Alguns objectos herdados podem ter mais valor, relativamente a outros, mas não necessariamente, pois não se aplica a todo e qualquer objecto, só pelo facto de ser herdado. Compreendo que os objectos herdados de outras gerações tenham valor, pois remetem para uma história e um modo de vida, ou para pessoas que já partiram, e são memória e testemunho de um tempo que já passou (e talvez por não termos vivido nesse tempo, podemos aceder a fragmentos dele através desses objectos). Também depende se o objecto tem, ou não, uma memória boa associada, ou se há um valor sentimental subjacente”.

Quando fala deste valor, Cátia coloca-o no objecto que entra na primeira cena da história. “O objecto a que dou mais valor foi uma mesa de cabeceira que comprei com o meu actual marido, mas ainda éramos namorados, e foi a primeira compra para casa que fizemos os dois.” Por outro lado, o que se lhe acrescenta num objecto é não começar consigo, ter uma espécie de sombra, uma parte que desconhece, o que também poder-nos-á levar a questionar o conceito de posse. “Mas gosto muito da sensação de não ter objectos 'novos', gosto de sentir que eles 'vêm de longe' e que já muita gente se sentou e divertiu no sofá, que veio de casa de amigos, já foram guardados tesouros no baú da Avó Margarida, que tenho loiças que foram compradas pelo meu avô Albertino quando chegou a Portugal. Também é uma forma de falar de mim a quem me visita.”

Se as paredes falassem, as de Joana Gregório, poderiam contar os segredos do tempo na família. É a única entrevistada que, apesar de se encontrar neste momento em Lisboa, vive em casa dos pais, que era a casa dos avós. Não sabe se quer regressar definitivamente, mas vai regressando. “Regresso sempre que possível. Em certas alturas, conto os dias para chegar sexta-feira, pegar no carro e descer até às minhas planícies.”

“Existem lugares onde criamos relações fortes, esses são os lugares onde queremos sempre regressar”, diz Joana. Já é noutra casa que estamos. Portuguesa, é a língua em que não a conseguimos dizer. Mas é com ela que procuramos, criamos e restauramos casas.

Durante esta semana as casas portuguesas invadem o Gerador, de dia 17 a 21 de agosto, num conjunto de artigos que interrogam a expressão “casa portuguesa” e o conceito de tradição. Fica atento para poderes acompanhar o desenrolar desta narrativa.

Este artigo encontra-se ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico

Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Fotografia de Bruno Americano, via Unsplash
gerador-casas-portuguesas