“A paisagem não é uma coisa visual, é o que acontece. A paisagem é cultural. É chegares ao Alentejo e comprares um enchido, um queijo e um pão específico. Isso tudo é paisagem. É uma fusão com o que acontece”, conta o arquitecto João do Carmo Simões. Olhando para estes alimentos, percebemos que há trigo plantado, podemos imaginar alguns dos animais que vivem naquele habitat, bem como determinado tipo de objectos e meios de subsistência da região. “Tudo isto vai criando um lastro cultural que gera construções”, continua o arquitecto. Neste caso, haverá, possivelmente, um fumeiro.

A casa é, então, paisagem. Portugal é um país pequeno e, predominantemente, rural. Abraçado pelo Atlântico e pelo Mediterrâneo, apresenta uma imensa diversidade, que também passa pelo clima, pelas matérias-primas, como o barro, que moldado sobre as pernas, afunilando nos joelhos, permite fazer as telhas, e pelas formas de habitar. A casa emerge de um diálogo ancestral, cujo início remonta à primeira comunidade que ali se fixou. A sabedoria, no que diz respeito às técnicas e aos materiais, foi sendo herdada. João do Carmo Simões refere o exemplo da barra colorida das casas alentejanas. Estas são caiadas anualmente e, com os salpicos da chuva, a partir do chão, acumula-se uma sujidade sobre aquela brancura. A pintura da barra limita-a e, no caso dos vãos, impede a entrada de insectos pelas janelas. Como o caso da caiação, realizada, maioritariamente, por mulheres, estas práticas são envolvidas num ritual.

Porém, a antropóloga Maria Filomena Silvano considera que não podemos tomar estes fenómenos como uma tradição. “Normalmente pensa-se que uma tradição é uma coisa que se repete, igual a si própria, de geração em geração. Mas, de facto, esse tipo de repetição não existe. Um saber, uma prática, um ritual transmite-se, repete-se e, nesse movimento, transforma-se. O discurso sobre a tradição é, por isso, na maior parte das vezes, um discurso ideológico, muitas vezes conservador – ou até reacionário -, que visa criar a ilusão da existência da permanência.” Por esta ordem de ideias, na sua opinião, também não existe uma forma tradicional de habitar. “Se nos situarmos num tempo concreto podemos falar da existência de constantes nas formas de habitar. Mas, essas constantes, referem-se sempre a universos restritos. Há, e sempre houve, diversidades espaciais – o mundo rural alentejano não tem nada que ver com o mundo rural transmontano -, diversidades de classe, dentro da mesma classe, diversidades de estilos de vida.”

“Podes fazer uma casa tradicional, mas não é uma coisa muito lógica. Se fosse fácil, ainda existisse a mão-de-obra específica e se toda a gente conseguisse construir dessa maneira e esta fosse eficaz para o habitar contemporâneo, para as exigências actuais, se calhar sim. Mas há exigências diferentes. Claro que, quando constróis em determinado território, tens de ter uma relação com este, mas não é por isso que vais fazer a técnica exactamente como era ou fazer uma coisa a imitar o tradicional,” nota o arquitecto. O mesmo se passa no que toca à decoração dos interiores, que entra neste movimento de perda, surgimento e transformação, indissociáveis do estar no mundo e, por isso, transversais a qualquer era. Há objectos que são substituídos, outros que vão desaparecendo, seja pelos gostos datados (lembremos o quadro do menino da lágrima, nos finais do século XX), pelo desaparecimento de actividades que passavam pela sua utilização (como o espadeladouro, referente ao trabalho do linho), de costumes (o caso da roca, uma oferta, quase inevitável, do namorado, com maior predominância na região de Trás-os-Montes), ou cujo processo de criação se perdeu, por motivos diversos, entre os quais as exigências da vida contemporânea.

A casa é uma história que nos conta. “A materialidade produz efeitos muito concretos sobre as nossas formas de viver. O nosso corpo constrói-se na relação que temos com os objectos que nos rodeiam. Dormir numa cama, numa rede ou numa esteira modela o corpo de forma diferente. Como a nossa subjectividade não é algo independente do nosso corpo, é óbvio que as nossas coisas constroem as nossas subjectividades”, reflecte a antropóloga.

Numa entrevista a 21 pessoas, de várias regiões do país, com idades compreendidas entre os 23 e 85 anos, várias casas foram contadas. A maioria não vive no campo, mas, ao imaginar uma casa portuguesa, é no contexto rural que a situa, embora seja transversal a sua relação com este, porque habita perto ou visita, com frequência, familiares que aí residem. Teresa Almeida (81 anos, Leiria) vive no centro de Lisboa, mas quando descreve a casa portuguesa, é a da infância que surge, onde viveu até aos 9 anos: “é uma casa de aldeia, arranjadinha, com os requisitos necessários, sem luxo, com um sítio para se passear, muitos arvoredos”. Também Ana Vaz (25 anos, Fátima), residente num pequeno apartamento em Lisboa, pincela a casa do seu país assim: “Uma casa térrea, paredes caiadas de branco, telhado baixo em cor de tijoleira. (…) É o azul que geralmente vinga na faixa de rodapé. Há um pátio ou um telheiro, pode haver um forno a lenha, uma horta ou um pequeno pomar ou olival. As janelas são brancas ou cor de madeira, e, no seu interior, conseguimos ver umas pequenas cortinas de linho com rendas ou bordados junto ao vidro da janela.” Curiosamente, a imagem de Ana corresponde à da sua avó, Florinda Vaz (80 anos, Fátima). Há quem nos fale, como Inês Vasconcelos (23 anos, Marco de Canaveses) da “porta de entrada sempre aberta” e, antes dela, o “portão que não tem força suficiente para impedir alguém de entrar”. A hospitalidade concretiza-se na “mesa grande e farta, onde se junta a família e os amigos para festejar a vida”, conta-nos Daniela Gomes (27 anos, Famalicão). A lareira é o foco de calor, inseparável da cozinha, o centro pulsátil, que nos fala que o afecto se oferece nos sabores. A casa é também “o azeite, o alho, o feijão, o chícharo, as couves, a broa, o pão, os queijos e enchidos, as caldeiradas, os estufados, os fritos, os refogados”, lembra Ana, e alguns acrescentam o “vinho”. As relações afectivas, que são a arquitectura da existência, estendem-se ao brilho dos objectos herdados, que, investidos de uma aura, oferecem “alento e conforto”, diz Sónia Felicidade (48 anos, Lagos). “Como a materialidade incorpora em si a memória das vidas dos seres com que conviveu, permite aos humanos fazer essa ligação, que não é apenas simbólica, mas também material, com os antepassados”, comenta a antropóloga.

As casas encontraram-se no texto, mas, na verdade, estão dispersas. António Luís (84 anos, Santarém) e Flávia Garcia (85 anos, São Pedro da Silva, Miranda do Douro), coincidem ao dizer que uma casa portuguesa é “uma casa construída em Portugal”. Não é preciso apontar as diferenças entre as regiões, as classes sociais, a residência no campo ou na cidade, para concluir que não há uma casa portuguesa. A casa foi aparecendo como uma constelação imaginária e secreta, desenhada pelas infinitas relações que são a própria substância da vida, onde a infância parece conferir a luz. Habitar é uma experiência donde tudo sai impuro, porque, quando tocamos, somos tocados. No início era a casa ou era eu?

Durante esta semana as casas portuguesasinvadem o Gerador, de dia 17 a 21 de agosto, num conjunto de artigos que interrogam a expressão “casa portuguesa” e o conceito de tradição. Fica atento para poderes acompanhar o desenrolar desta narrativa.

Artigo escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945

Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Fotografia disponível via Unsplash
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