Encontrámo-nos numa manhã de Outono, na esplanada da Faculdade de Letras. Conversámos num banco de pedra, debaixo de folhas ainda verdes, donde iam escorregando gotas da primeira chuva da manhã. Enquanto me preparava, ligava o gravador, procurava os apontamentos, lembrei-me da expressão de Hemingway e alterei-a um pouco. Em vez de “os nomes penetram-nos até aos ossos”, disse, pensando que citava correctamente, “há nomes que nos penetram até aos ossos.”

Leopoldina, Noé, Simão, Manuel, Valentim, Clemente, Ricardo, Jaime

Este “nos” é arqueológico. É o que está debaixo do corpo que é a sociedade, o que é tapado pela pele, o que, para a maioria, é invisível, mas que, simultaneamente, é o último visível. Talvez estes nomes permitiam chamar os tempos, que, no fundo, são corpos, são ossos. Catarina Gomes revolveu. Revolver é tocar, mexer, dar movimento ao imóvel, que, nalgum tempo, não o foi. Na apresentação da sua mais recente obra Coisas de Loucos: o que eles deixaram no manicómio, no dia 6 de Setembro, na Feira do Livro de Lisboa, disse que o que lhe interessa é a “arqueologia dos espaços”. Interessa-lhe, de alguma forma, as ausências, os restos, os rastos. Escolheu, para epígrafe, uma expressão de Patrick Modiano, em Dora Bruder:

«Pensamos que os lugares conservam pelo menos um leve sinal das pessoas que os habitaram.»

Aquando jornalista no jornal Público, acompanhou o encerramento, em 2011, do primeiro hospital psiquiátrico português. Ao longo de 163 anos, recebeu, primeiramente, a designação de “manicómio”, mais tarde de “asilo” e, depois de 100 anos, de Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, que, a partir de 2007, se tornou um pólo do Centro Hospital de Lisboa Central. Com este caminho de encontro com os últimos vinte e quatro residentes, “que ali viveram quase meio século”, escreveu “Eles fecham o último capítulo do Bombarda”.

“O jornalismo precisa de mais empatia. A certa altura, quando saí da redacção, escrevi um texto, que fui apresentar ao congresso dos jornalistas. O título era «Redaccções inimigas da compaixão». Era o que me acontecia. Estava tornada numa funcionária pública. Em inglês, há a expressão ‘compassion fatigue’. É um ritmo tão frenético, em que já não te ligas com as pessoas e, se não te ligas com as pessoas, o teu texto sai uma pasta inócua, que não diz nada. Sentia que já não me interessavam as pessoas… (…) Tens de ser rápida e, de preferência, pelo telefone. Tens de passar muito pouco tempo com as pessoas, para teres tempo de escrever, para casar com os números. E eu senti que isso não faz justiça ao jornalismo. Queria dar tempo às pessoas e não tinha. (…) A minha capacidade de ser empática estava a secar. A forma de fazer jornalismo, de alimentar o site, do ‘refresh‘ estava a secar-me, não me estava a fazer sentir bem. Depois, o que chega ao leitor, também, é mais pobre, porque não estás a sentir. Estás a falar sobre um bairro social, mas nunca foste a um bairro social. Estás a escrever sobre depressão, mas nunca estiveste com uma pessoa em sofrimento. O que resulta desse teu texto é uma coisa burocrática. Jornalismo burocrático, de rabo sentado na cadeira, jornalismo sem ter tempo para sair. Dantes, as pessoas vinham ter connosco e, até nisso, as redacções afastaram-se do centro. E nem sequer nós podemos sair…”

Catarina saiu, depois de 20 anos a trabalhar no jornal, para sentir as histórias. Com a bolsa de investigação jornalística, atribuída pela Fundação Calouste Gulbenkian, intensificou a sua pesquisa, que já procurava pelos passos do espaço, há oito anos. Antes disso, dedicava-se-lhe nas folgas. Chegou-lhe o tempo, “sinónimo de dignidade e respeito”, como Inês Espada Viera escreve no artigo, “No sótão de Rilhafoles”, no Ponto SJ.

Foi no sótão desse hospital já deserto de doentes que, durante as pesquisas, vi pousada no chão uma banal caixa de papelão que, pelo aspecto velho e mal cuidado, bem podia conter apenas lixo. Estava coberta de poeira. (p.23)

Ao ser aberta, a poeira espalhou-se pelo ar. Ocorreu-me como pó, parecendo apenas sujidade, é também testemunha de vida, excrementos de ácaros, fibras de tecidos, pele morta. O que encontrei dentro da caixa nunca mais me abandonou. Lá dentro, entre outros, havia (p.25)

o bilhete de identidade, cosido à mão, os óculos, o carimbo para marcar o primeiro, que inscrevia “modista”, um crucifixo, e “vários papéis”, lê-se no depósito nº 139, “ como se fossem apenas isso, papéis, e neles não estivesse desenhado um roteiro”, de Leopoldina d’Almeida; uma caixinha metálica com 12 tipos de ponteiros de relógio e a carteira, em cujo interior de encontra um bilhete de identidade e imagens a preto e branco, de Noé Galvão; a carteira, com fotografias e um desdobrável com os horários da linha Lisboa-Sintra, um “«Bilhete de assinatura trimestral para viagens de ida e volta entre Lisboa e Queluz», válido até 30 de Setembro de 1944, e um outro até Junho de 1945” e um poema, «Salve Simão», de Simão de Carvalho Proença; cartas, o cartão de um alfaiate, recortes de imprensa, um desenho e um bilhete de volta, do Brasil para Portugal, de Manuel de Avelar Rodrigues; a agenda, em branco, um calendário, dois bilhetes de eléctrico, cinco cartões de visita e o cartão de estudante da Faculdade de Sciências, de Clemente da Costa Santos; uma caderneta bancária da Caixa Geral de Depósitos e cartas, numa das quais se lê a notícia da morte de um familiar, de Ricardo Vinte e Um; e desenhos, de Jaime Fernandes. Catarina também andou entre os objectos de Valentim de Barros, uma das figuras com maior destaque dentro do hospital, devido à sua aparência, bem como às suas criações, e que o foi ganhando, fora deste, na contemporaneidade. As mãos da jornalista seguiram outro caminho, neste caso, fora da caixa. Encontrou alguns pertences de Valentim em imagens e palavras, como nas fotografias, nomeadamente as tiradas pelo médico José Fontes, onde se pode observar os seus bordados e napperons, os quadros a óleo, um cenário que pintou para um espectáculo de Natal, um poema gravado, presente no Pavilhão de Segurança, cartas perdidas dentro do seu processo clínico, e obras vendidas ou oferecidas pelo artista, que o terapeuta ocupacional Sandro Resende recuperou para uma exposição que lhe fora, postumamente, dedicada, onde se podem, também, observar as suas bonecas. A maioria destas coisas eram-lhes retiradas, aquando da sua entrada no hospital. Procurava-se que as histórias, que a matéria desperta, algumas penduradas ao peito, outras, nos bolsos, das quais nos socorremos para saber quem somos, fossem levadas. Ficavam despidos com as suas próprias feridas, dentro de arquivos numerados.

Bilhete de identidade de Leopoldina. Fotografia de Paulo Porfírio
Óculos de Leopoldina. Fotografia de Paulo Porfírio
Passaporte de Manuel Avelar Rodrigues. Fotografia de Paulo Porfírio
Clemente. Fotografia de Paulo Porfírio

Continuando a entrar nos tempos encaixotados, diversos eram os objectos, que Catarina chamou de “órfãos”, como “uma medalhinha de dupla face em losango, daquelas de usar ao pescoço, com um homem de um lado e uma mulher de outro”, “quatro postais eróticos”, “um papel solto com a palavra MULHER em letras garrafais”, por exemplo. Durante o processo de escrita, sentiu, várias vezes, a necessidade de lhes regressar, de se lhes regressar, como que para activar a sua aura, reencontrar-lhes o calor. Para Catarina, o toque é “fazer laços, ligações”, sejam com as pessoas, aquando das entrevistas, seja com as suas passagens, com as coisas.

Experimentou a caixa sem fundo. Seguia as coisas, procurava pelas famílias, pelas moradas, batia a portas, abria inúmeros livros, conversava com vários médicos, participava nas reuniões de grupo de pessoas com perturbação mental, às quintas-feiras, atravessava corredores, arejava arquivos, processos, histórias clínicas, deslocava-se a várias regiões do país, e pensou, até, ir ao Brasil, deixou a sua impressão digital em muitas campainhas, entrava nos lugares, que foram pisados por quem queria encontrar, como a igreja da Baixa de Lisboa, onde foi o casamento de Leopoldina.

Sento-me tentando sintonizar-me em Leopoldina e Manuel. Terá Leopoldina usado vestido de noiva? Terá sido ela a fazê-lo? (…) Concentro-me no chão, concentro-me no passado. O soalho de madeira há-de ser o mesmo do dia de casamento. (p.48)

As perguntas, as perguntas, as perguntas, deixam-nos com o infinito da vida. Levanta-as como a poeira, que soltou ao abrir a caixa. Contudo, não quis ficar só no passado, porque precisava de o libertar com o presente. “Gosto muito de vivos e hesitei muito. Como vou escrever sobre pessoas, a quem não posso fazer perguntas, que não conheço, que nunca reconhecerei? Então, resolvi isso, falando com pessoas do presente. Imagina, se o Noé tem epilepsia e estado crepuscular, falo com o médico e pergunto se ainda existe isso e o medico diz ‘sim, hoje, chama-se de ausências’. Então, posso falar com uma pessoa que tenha ausências? Falei com o Fábio. Através do Fábio, senti o Noé. Por exemplo, a Leopoldina d’ Almeida, acabou na rua com problemas de saúde mental. Descobri que, no Júlio de Matos, há um grupo terapêutico de pessoas que vivem na rua e têm problemas de saúde mental. Então, fui a essa reunião e pensei que queria encontrar aqui uma Leopoldina, e encontrei a Ana Cristina e perguntei-lhe com que objectos anda, onde os transporta, e ela também andava com o espelho, com os óculos. Através da Ana Cristina, senti a Leopoldina… O Simão…. Entrevistei uma pessoa com esquizofrenia. Aproximei-me e distanciei-me, porque estou a fazer a ponte com essa pessoa, mas, ao mesmo tempo, estou a dizer que, hoje, teria uma vida diferente. Uma pessoa, com esquizofrenia, hoje, não passa 40 anos internada.” Contudo, apesar de, na obra, a constante comparação entre a forma de tratamento praticada nos anos de Leopoldina, Noé, Simão, Manuel, Valentim, Clemente, Ricardo, Jaime, mostrar, de forma muito clara, a melhoria das condições de vida, de quem atravessa estes corredores, desenhando uma espécie de cronologia da loucura, a jornalista reconhece que, muitas vezes se ria, imaginando o leitor e a leitora do próximo século. “Pensava no que vai ser risível, daqui a cem anos. Achamos que a lobotomia é uma coisa anacrónica e primitiva. O que fazemos, hoje, em saúde mental, vai ser risível e ridículo. Os psiquiatras, que entrevistava, diziam, ‘pois, os meus colegas não sabiam mais’, mas, se calhar, daqui a sessenta anos, os colegas deles vão dizer ‘pois, não sabiam mais’. Daqui a cem anos, alguém vai ler o meu livro e dizer ‘que engraçado, ela pensou que isto era supermoderno’”.

Catarina ainda rasgou mais a caixa de papelão, para a habitar melhor, não só pelo exercício constante de tocar as suas coisas, de se imaginar, a partir delas, de lhes ouvir o silêncio das moradas, mas também peregrinando por outras regiões de si. Experimentou o que chama de “olhar zoológico”, no fim de uma das reuniões do grupo. Até então, pensou que não lhe seria desconfortável se, um dia, fosse confundida com uma das pessoas que neste participavam. Conta-o, assim, na obra:

Podia ter sido uma confusão anedótica. Mas foi mais do que isso. Foi um olhar sobre mim, a ver se consigo explicar: assim meio arrastado, que faz paradinhas, a expressão facial do observador mudou, ficou como que pasmado, os olhos fixaram-se em mim, como se peneirasse os movimentos, os olhares, os gestos, as palavras, à procura de algo – não seria preciso muito, eu estava, afinal, naquele local – que me confirmasse a doença que me enlouquecera.

Foi um olhar de alto a baixo que terminou num sorriso vidrado, um olhar zoológico. Senti vontade de dizer «eu não sou um deles, eu sou jornalista», como se a profissão me excluísse. (p.31)

A jornalista entra no texto, com a sua fragilidade, com o que, na maioria das vezes, é escondido. Isso é da ordem da empatia, do estar com, que se estende, também ao leitor. Partilha que o medo esteve no caminho:

Medo. Deles, de que nos façam mal, fisicamente, verbalmente, com o descontrolo que lhes atribuímos. Mas, sobretudo, medo de ficarmos como eles, de nos tornarmos um deles num futuro qualquer. Medo de sermos tratados e olhados como eles são. (p.30)

“Mas todos continuamos a ter medo… Hoje, fala-se muito que as pessoas dão a cara. Dão a cara pela depressão, mas não dão pela esquizofrenia. A doença mental grave, a que enclausurava na altura e, hoje, continua a tornar as pessoas disfuncionais e fora da vida, sobretudo a esquizofrenia e a doença bipolar…. Estão afastadas, têm dificuldade em arranjar trabalho, têm de esconder o que são. Mesmo com medicação, têm vidas difíceis. (…)  O olhar de um louco mais clássico não se alterou, assim tanto. Afastamo-nos na mesma. Mete medo, não sabes o que hás-de fazer.”

Num outro momento, desta vez voluntariamente, o seu corpo, ficou mais distante de si, do seu quotidiano, para chegar a Bruno e a Simão. Bruno tem 26 anos e também sofre de esquizofrenia. “Ele começou a ouvir vozes e desvalorizou. Depois, começou a pôr algodão nos ouvidos. Depois, música muito alta, até perceber que as vozes eram dele. ‘Mas como podem ser falsas?’”, perguntava Bruno no início. Catarina experimentou um simulador de esquizofrenia, online. “As vozes que ouvem são adaptadas ao seu contexto. São vozes, sobretudo, negativas. E tu teres esse zoar na cabeça o dia todo…. Usei um desses simuladores, e, aquilo, é horrível. É minar-te toda a confiança. Nem quando dormes te abandonam. Eu percebi, se é possível perceber, porque a empatia tem limites, o sofrimento de não conseguires desligar, teres um gravador na mente, que diz coisas horríveis sobre ti e que os outros só te querem mal. Isto, vinte e quatro horas por dia. É infernal. Isso é que é colocares-te no lugar do outro… E não ‘aquele é maluquinho ouve vozes.’”

Ainda sentido a forma como Catarina está e vive no texto, notamos a apresentação da falha, agora, enquanto investigadora, que se salva, precisamente por isso. “Fui falar com as filhas do Jaime e elas não me receberam. Mas passei lá um dia inteiro a bater à porta…. Sentei-me num banquinho, numa aldeia. Transformei esse dia inteiro, à espera delas, num bloco narrativo, esse meu insucesso…. Esse livro também é feito de vazios. A única coisa, do Clemente, que sei foi que ele tomou banho um mês antes de morrer. No Noé… gostava de saber o que aconteceu ao pai… Esta história é mais buracos. É um esqueleto, onde montei uma vida, mas não tenho a ilusão de pensar que condensei uma vida. São pistas. Por isso é que colei com a minha especulação, a minha imaginação, o meu sentimento. Assumidamente sou eu que colo, o que senti, o que soube…. “

Porém, ao longo destas leituras de corpo inteiro, que não é preciso falar com Catarina para perceber que foram amorosas, questões éticas iam-se colocando. Há um cuidado com estes nomes e a jornalista também, neste aspecto, senta-se com o leitor e confessa:

Resgatar vidas não acontecesse sem apreensão. (p.31)

“Trabalhava no jornal, mas nunca tinha ido a uma gráfica. E, quando, imprimi o livro, fui vê-lo a ser impresso. Quando estava a sê-lo, vi a cara da Leopoldina a sair na rotativa. Até certa altura, era só eu que a conhecia. A cara dela a rolar…. Não estarei eu a devassar esta vida? No fundo, a apresentá-la ao mundo, quando estava lá, tão sossegadinha? Confrontei-me muito com esse dilema, de que estou a ressuscitá-la como louca, e isso não é uma coisa honrosa. Não estou a dizer que fez grandes feitos e que deixou uma obra inacabada. Estou a ressuscitá-la como uma pessoa doente. Como vais para além disso? Porque isso não vale nada…. ‘Ah encontrei estas coisas destes maluquinhos’. De que é que isto serve? Encontrei aqueles objectos, como trazia na minha mala, e eles devolviam-me a normalidade. Quis saber, também, como eles viviam, então. No início, queria saber como eles enlouqueciam. Há aquela coisa do ‘tentar decifrar’… Depois, percebi que isso não era o que queria, não sou psiquiatra e não quero sê-lo. Não existe um factor que enlouquece, existe uma constelação deles, e alguns podem ser genéticos, outros sociais. O que tentei foi dar pistas, mas, sobretudo, devolver a vida que estas pessoas perderam e fazer-lhes justiça. Com o Clemente, muitas vezes, tinha diálogos: ‘não quero que ninguém saiba da minha vida, a minha vida foi triste.’ Tentei dignificá-los, que não fosse um exercício de voyeurismo, ‘olha maluquinho, maluquinho’. Tentei que fosse o contrário, ressuscitá-los, de forma digna, com as suas vidas banais, como são as nossas, a quem aconteceu enlouquecer num tempo em que, quem enlouquecia, tinha este destino triste, era enclausurado, longe da vista, longe do coração.”

Catarina reparou, recuperou, consertou, mantendo o desconcerto, e parou, no toque, no som, nas imagens. Tarde, mas chegaram, perto da vista e de um coração. O destino em despiste. Durante quase uma década, foi envolvida por objectos que entraram pela sua casa adentro e, lá, transformaram-se em nomes. Tocados, eram pessoas, que falaram às coisas de quem deles falava.

“O mundo divide-se entre aqueles que não deitam nada foram e os que são muito desprendidos. Eu sou do primeiro tipo. Custa-me muito desembaraçar de objcetos. Sou uma pessoa que guarda, o que, às veze, dá azo a conflitos familiares. O meu pai também era assim. Depois, pensar nestas pessoas, a quem restaram estas coisecas…. Comecei a deitar mais coisas fora. Às vezes, fazia esse exercício: se alguém vai bater à minha porta daqui a cem anos, algumas vez vai saber que viveu aqui uma Ana Catarina Silva de Almeida Gomes? Claro que não vão saber. Percebi que te tornas rapidamente nada. Da Leopoldina, não encontrei ninguém que se lembrasse dela, e do Manuel, encontrei primos longínquos, que tinham, lá em casa, umas fotos que não sabiam que era ele. Tinha [Catarina] lá um aparelho dos dentes, de quando tinha 10 anos. O que isso interessa? São coisas que só têm significado para mim. Tentei dar corpo a coisas que eram lixo. Adoro lixo. Ando sempre de olho no lixo, porque, no lixo, encontram-se coisas muito giras. Isto era lixo de um hospital psiquiátrico. Ao mesmo tempo, é contraditório. Tentei desapegar-me das minhas coisas e deitar mais coisas fora, porque não vão significar nada, mas não deixo de ter essa paixão pelo lixo.”


Referência bibliográfica: Catarina Gomes, Coisas de Loucos: o que eles deixaram no manicómio, Lisboa, Tinta da China, 2020.

Artigo escrito ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Fotografia da cortesia de Catarina Gomes