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Catarina Letria: “O que me faz ter vontade de escrever são as coisas reais e que testemunho”

Catarina Letria destacou-se como vencedora na categoria de Literatura na Mostra Nacional de Jovens Criadores 2022. Unindo o amor pela História e pelas palavras, e inspirando-se nas suas vivências, criou aquele que viria a ser o texto premiado do concurso. Em entrevista ao Gerador, explicou-nos de que forma "Toca e Foge" reflete sobre a memória, os lugares e os sentimentos que a autora tem vindo a experienciar ao longo do seu percurso académico, profissional e pessoal.

Catarina Letria. Fotografia de Sann Gusmão

Aos 25 anos, Catarina Letria decidiu inscrever-se na Mostra Nacional de Jovens Criadores, sagrando-se vencedora, no passado mês de dezembro, na categoria de Literatura. Natural de Lisboa, licenciou-se em História e tirou um mestrado Erasmus Mundus em História na Esfera Pública. Com este curso, conseguiu viajar por vários países, nomeadamente Hungria, Itália e França. Em 2022, terminou a sua viagem no Japão, onde defendeu a sua tese que incidiu na relação que existe entre os media e a História. Esta experiência não só a fez questionar a forma como achava que conhecia a Europa, como também a levou a escrever alguns dos pequenos textos que viriam a fazer parte da sua obra Toca e Foge.

Gosta de escrever à mão e de todo o processo que a edição implica, principalmente quando está a transcrever os seus textos para o computador. Recorre à escrita para “refletir” sobre si e sobre o mundo, pois acredita que só assim se consegue expressar e sentir as suas emoções de maneira mais intensa.

Quando concorreu à Mostra Nacional de Jovens Criadores, não pensou que alguma vez pudesse vir a vencer. Contudo, espera que isto lhe traga mais visibilidade para o seu trabalho, que os jovens consigam “valorizar” mais a literatura portuguesa e que os jovens escritores “ganhem mais espaço” na sociedade enquanto escritores emergentes.

Admite estar a viver um dia de cada vez e encontrar-se “numa fase de descoberta”, não tendo grandes expectativas para o seu futuro. Ainda assim, garante que gostava que a escrita e a História continuassem a coexistir, pois, de uma maneira ou de outra, as duas áreas sempre estiveram presentes na vida de Catarina, e é assim que a jovem pretende que se mantenha.

Catarina Letria. Fotografia da sua cortesia

Gerador (G.) – És licenciada em História e tiraste um mestrado em História na Esfera Pública. Onde se encaixa o interesse pela escrita e pela literatura?

Catarina Letria (C. L.) – Sempre senti alguma facilidade com palavras. Sempre gostei delas. No ensino secundário, comecei a escrever pequenas coisas, mas ficavam sempre para mim, para os professores, para as pessoas importantes. Também fiz parte do jornal da escola. Desde que me lembro que tenho facilidade com palavras e acho que é a melhor forma de me expressar. Aliás, escrevo sempre sobre as pequenas coisas que vão fazendo parte do meu dia a dia, refletindo sobre elas. Ainda que as minhas histórias possam ser consideradas ficção, tento sempre trazer um pouco de realidade ao texto. Não consigo ser como aquelas pessoas cheias de imaginação e que escrevem sobre mundos paralelos. Acho que nunca consegui fazer isso. O que me faz ter vontade de escrever são as coisas reais e que testemunho.

G. – De que forma a tua licenciatura e mestrado contribuíram para a tua escrita e para os temas sobre os quais escreves?

C. L. – Uma das razões para ter ido para História foi precisamente esta ideia de tempo e memória, na qual me inspirei para a escrita do Toca e Foge. Sempre senti necessidade de perceber a evolução do mundo e da sociedade, pois eles estão em constante mudança. Acho que se tivermos mais noção disso, também teremos mais noção de que nada será como é agora, no presente. Não existe nada inevitável. Ao mesmo tempo, sempre tive curiosidade em perceber como chegámos até aos dias de hoje. Foi isso que me motivou a escolher o curso. Já com o curso Erasmus Mundus, percebi a importância de se divulgar a História, não só do ponto de vista académico, mas também do ponto de vista da partilha das várias culturas. Durante essa viagem, conheci pessoas e lugares muito diferentes. Isso permitiu-me perceber que, de facto, existe muita diversidade. Claro que tu tens sempre noção de que existem várias culturas e diferentes formas de pensar, mas quando estás perto delas ganhas realmente consciência. Duas pessoas podem estar em países diferentes, em simultâneo, a partilhar o mesmo tempo histórico, mas a viver de maneira completamente distinta. Acho que isso foi o mais enriquecedor e penso que, de certa forma, tenha demonstrado isso no texto [Toca e Foge]. Quão incrível é que haja coisas que vivam em simultâneo no tempo, na mesma altura histórica, e sejam, mesmo assim, tão diferentes. Não estudei História com o objetivo de ser uma historiadora. Apenas percebi que precisava das bases e de saber o que se passava à minha volta para o que quer que fosse fazer da minha vida.

G. – Porque escolheste retratar, na tua tese, a relação que existe entre os media e a História?

C. L. – O meu avô é jornalista e, certo dia, estava a pesquisar o seu nome e descobri uns arquivos da RTP. No meio de vários programas, encontrei uma reportagem que ele tinha feito em Moçambique, em 1975, aquando da sua independência. Ao ver essa reportagem, fiquei bastante intrigada. Não fazia a mínima ideia de que ele tinha feito aquilo! A televisão mudou tanto que, hoje em dia, seria impossível gravar uma reportagem daquele género e mostrá-la ao público. Como o meu mestrado era em História na Esfera Pública, pensei que pudesse focar-me nessa reportagem e estudá-la. Apesar de ter sido um produto jornalístico feito naquele tempo, para informar as pessoas dessa mesma altura, não deixa de ser um momento histórico. Ou seja, na verdade estamos a falar de uma coisa que ainda tem importância no presente. Não foi algo esquecido. Isso levou-me a questionar onde começa verdadeiramente a fronteira que separa o jornalismo e a História, qual a diferença entre o trabalho de um jornalista e de um historiador.

G. – Como surgiu a ideia de te inscreveres na Mostra Nacional dos Jovens Criadores?

C. L. – Foi algo que aconteceu por acaso, na verdade. Tinha regressado do Japão e estava a passar por uma série de coisas na minha vida, sobre as quais escrevia diariamente. Quando descobri a existência da mostra, decidi inscrever-me, mas sem expectativas nenhumas. Enviei o texto sem pensar muito. Alguns dos excertos já tinha escrito e estavam somente perdidos no meu computador, outros ainda estavam a ser feitos na altura em que descobri a existência do concurso. Ao concorrer, percebi que tinha de me orientar e criar uma obra mais estruturada. Se não fosse a mostra, provavelmente teria abandonado aqueles pequenos textos e nunca os teria juntado de forma a criar o Toca e Foge.

G. – Toca e Foge é “um conjunto de deambulações sobre sítios, sentimentos e os limites da memória”. Em que sentido?

C. L. – Bem, os “sítios” são os lugares por onde andei enquanto estava a viajar. Ao falar de “memória”, quis refletir sobre o que as pessoas lembram e esquecem, o que é possível ser lembrado e o que é inevitável ser esquecido. Os “sentimentos” relacionam-se com o momento que estava a viver na altura e com as relações que fui observando entre as pessoas. Quis também aprofundar a forma como as palavras funcionam quando queremos expressar certos sentimentos. Sabes que ter facilidade com as palavras também tem um lado negativo. Quem gosta de palavras, tem uma necessidade enorme de colocar rótulos e significados em tudo, ou seja, quando isso não é possível, pode trazer uma certa angústia. É algo meio obsessivo. Dou por mim a pensar, muitas vezes, se estou a usar as palavras certas. Tudo isto foram questões que me foram surgindo e que, de alguma forma, achei que se pudessem interligar. Eram temas que, na minha cabeça, faziam sentido. As palavras, os sentimentos, os sítios, a memória. Também recorri à palavra “deambulação” propositadamente. Refiro-me à deambulação física, mas também à deambulação interna que, neste caso, seria o pensar sobre as coisas.

G. – Porque intitulaste o teu texto Toca e Foge?

C. L. – Eu estava indecisa entre várias opções. A expressão “toca e foge” surgiu-me na cabeça de repente e acabei por ir pesquisar ao dicionário. Toca e foge é uma brincadeira, é como o jogo da apanhada. Acabei por relacionar isso com a ideia da memória, do lembrar e esquecer. Sabes quando te tentas lembrar de alguma coisa e ela te foge? É mais ao menos como o jogo, pois estás a tentar apanhar a pessoa. Neste caso, é um jogo com as nossas lembranças.

G. – Consideras este texto como uma reflexão sobre a realidade ou tentaste que se aproximasse mais à ficção?

C. L. – Penso que tenha sido um pouco dos dois. Muitas das coisas descritas no texto são coisas que vivi, mas claro que tentei trazer um pouco de ficção. Acho que não interessa muito se o que estamos a ler é real ou inventado, sabes? Quando estou a ler um livro, não questiono se o autor viveu mesmo aquilo. Não li muitas histórias baseadas em factos verídicos, verdade seja dita. Por um lado, estudar História fez-me gostar do compromisso que tens de ter com o real, ou seja, tens de interpretar as fontes que encontras e não te forças a procurar um fundo de verdade, porque já sabes que aquilo aconteceu mesmo. Eu gosto disso, de ter um compromisso com a realidade. Mas também gosto daquilo que a literatura permite, que é a liberdade para decidires acreditar no que estás a ler ou não. Para mim, escrever é uma forma de me distanciar da realidade. Mesmo que tenhas sido tu a viver aquele momento, quando o passas para o papel, distancias-te automaticamente e passas a ser uma espectadora da tua própria vida.

G. – Cada pessoa tem a sua maneira de se expressar e existem coisas que as palavras nem sempre conseguem descrever. Porque achas que preferes a palavra à imagem ou à música, por exemplo?

C. L. – Isso é uma boa pergunta. Acho que se relaciona com a minha personalidade. Sempre gostei de conversar, aliás, comecei a falar cedo [risos]. Também tenho uma certa afinidade com imagens, principalmente com cinema e fotografia. Mas não é a mesma coisa. A palavras tocam-me mais. É algo muito interno, não sei… Bem, que irónico, não estou a conseguir encontrar palavras para explicar isto [risos]. As coisas que me marcaram mais foram as que descobri ao ler sobre elas. Acabo por me expressar por palavras, porque consigo perceber melhor o que estou a sentir no momento. Foi como disseste, nem tudo pode ser descrito por palavras e é muito interessante que haja tantas formas de nos expressarmos. Só que com as outras, com a música por exemplo, nunca me senti da mesma maneira ou facilidade em expressar-me.

G. – No teu discurso na Gala de Entrega de Prémios, referiste que os jovens deveriam ter uma presença mais ativa na área da literatura. Qual consideras ser o seu papel e a importância de haver jovens que se interessem por esta arte?

C. L. – Portugal é um país envelhecido. Ao longo do tempo, tenho tido a sensação de que os jovens não fazem tanto ou não são tão valorizados pelo que chegam a fazer. Não vês jovens a serem chamados para um debate na televisão, por exemplo. É como se nos reservassem um lugar que não traz destaque ou responsabilidade. Parece que não temos muitas oportunidades para intervir ou para nos expor. Também queremos ter um papel decisivo na sociedade. O que me revolta é saber que existem jovens que optam por ir para o estrangeiro, pois sentem que não têm espaço aqui, no nosso país. Na altura da Gala, estava especialmente revoltada com isso, com as condições que temos hoje em dia enquanto jovens emergentes. Não te sei dizer se existem muitos jovens interessados em literatura e a fazerem o mesmo que eu. Mas cada vez se veem menos pessoas com um livro na mão. Olhas para a tua volta e vês as pessoas com o telemóvel, nas redes sociais, estejas onde estiveres. Não estou a dizer que também não o faço! Assusta-me saber que não estamos a aproveitar o nosso tempo, eu incluída, com coisas mais produtivas do que estar a fazer scroll no telemóvel. Estamos a ser bombardeados com informação, mas de forma passiva. Isso tira-te tempo e vontade para fazeres outras coisas ou ires procurar tu pela informação. Um vídeo será sempre mais estimulante do que estares a “ter o trabalho” de ler um texto.

 G. – Para ti, qual é a importância de haver um concurso como a Mostra Nacional de Jovens Criadores?

C. L. – Acima de tudo, é um lugar onde podemos divulgar o nosso trabalho e onde podemos conhecer outras pessoas. A mostra permite que haja um certo reconhecimento do que os jovens são capazes de fazer e talvez quebrar um pouco aquela generalização irritante de que a nossa geração não cria coisas interessantes. Para além disso, este concurso dá oportunidades a quem ainda não tem nada feito ou oficialmente divulgado. Acho que isso é benéfico, principalmente para quem concorreu na área da literatura. Quando falei com pessoas de outras categorias, nomeadamente música e cinema, percebi que alguns dos seus projetos já tinham sido transmitidos em festivais ou noutros concursos. A literatura não tem assim tantas oportunidades, não existem muitos eventos onde possas apresentar um livro ou um texto que acabaste de escrever. Fiquei com a sensação de que a maioria dos concorrentes desta área ainda não tinha uma única obra publicada. Por um lado, isso significa que a literatura não anda a ter a visibilidade que deveria, mas, por outro, significa que a mostra nos deu, finalmente, a oportunidade para expormos algo que o público ainda desconhece.

G. – Qual a importância de ganhar este prémio?

C. L. – Sempre soube que queria continuar a escrever, mas penso que este prémio tenha trazido uma certa confirmação de que eu consigo fazer isto na minha vida. Deu-me mais certeza de que não preciso de guardar isto só para mim e que talvez possa começar a levar a escrita mais a sério, a um nível mais profissional. Também me permitiu partilhar este tipo de textos mais pessoais com os meus amigos. Nunca lhes tinha apresentado este tipo de trabalho e foi uma surpresa para eles. Penso que isso me tenha trazido alguma libertação e segurança de que posso realmente investir mais na minha escrita.

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