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Catarina Molder: “Dêem-me meios que o céu é o limite”

Agosto e Setembro em Festa operática para todos no Operafest Lisboa 2023, no Jardim do Museu Nacional de Arte Antiga. Fica a saber mais sobre a programação do festival nesta conversa com a Catarina Molder.

Texto de Redação

Fotografia da cortesia de Catarina Molder

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O Operafest Lisboa, o festival de ópera que nasceu no primeiro ano da pandemia, vai já para a sua quarta edição e, este ano, oferece-nos uma programação ainda mais diversificada e aliciante. Sob o mote “Entre o Céu e o Inferno: Do prazer supremo ao medo mais profundo”, poderemos assistir a três das óperas mais afamadas de sempre: Carmen de Bizet; Suor Angelica, de Puccini; e A Flauta Mágica, de Mozart (esta última para toda a família e em português); a primeira ópera do jovem compositor Francisco Lima da Silva “Rigor mortis”, em estreia absoluta, a performance de Gustavo Sumpta, “Forças Ocultas" no Teatro Romano, conferências e cursos livros no âmbito cultural do El Corte Inglés, filmes-ópera no arranque do ciclo cine-ópera, na Cinemateca Portuguesa, evocando o centenário do nascimento da grande Maria Callas, aulas de canto para amadores, o único concurso de ópera contemporânea do país – Maratona Ópera XXI, apostando na ópera em português e ainda a emblemática rave operática que costuma fechar esta autêntica festa da ópera. Com a direção geral e artística de Catarina Molder e produção da Ópera do Castelo, o festival que finalmente colocou Portugal e Lisboa na rota internacional dos festivais de ópera de Verão, poderá ser visto entre 18 de agosto e 9 de setembro, tendo como epicentro o Jardim do Museu Nacional de Arte Antiga, mas estendendo-se ao Teatro Romano de Lisboa, Centro Cultural de Belém e Cinemateca Portuguesa.

João Figueiredo Costa (J.F.C) - Tal como nos anos anteriores, a programação do Operafest é construída tendo como base uma temática e a desta é "Entre o Céu e o Inferno": Porquê a escolha deste tema?

Catarina Molder (C.M.) – Um tema é um mote para sonhar, cria uma coerência, achei esta narrativa estimulante em termos de possibilidades a explorar, mas tem de ser relativamente abrangente e dar margem de manobra, pois uma programação depende de muitos factores que não apenas os artísticos, a viabilidade económica é incontornável. O Operafest tem ainda meios económicos bastante insuficientes em relação à sua amplitude e à dinamização absolutamente inédita que tem proporcionado ao setor operático nacional, enquanto montra e motor de nova criação e intérpretes nacionais.

O tema escolhido para esta edição reflete a dicotomia da condição humana sempre a aspirar um patamar de felicidade e plenitude assombrada pelo medo, o terror do sofrimento e da morte. Toda a programação tem ligações a este mote, mas talvez a mais paradigmática seja a Dose-dupla com Suor Angelica de Puccini e a estreia absoluta da primeira ópera de Francisco Lima da Silva “Rigor mortis”. Na primeira está muito presente a questão religiosa do pecado e da expiação ainda mais tratando-se de uma ópera apenas com mulheres (uma raridade na história da ópera), mas também do peso e da condenação da maternidade quando esta surge pelas vias que a religião e a sociedade condenam. As mulheres que expiam os males do mundo e são condenadas à culpa, mas também sobre os limites entre a vida e a morte, alma versus corpo, que aborda as questões do mistério post mortem, que nos apresenta novamente uma mulher devorada pela culpa. Portanto para além do céu e do inferno, existem temas recorrentes como a emancipação feminina, a luta pelos direitos da mulheres (Carmen), a luta por uma sociedade mais equilibrada (A Flauta Mágica) e a mulher que expia os males do mundo (Suor Angelica, Rigor Mortis).

J.F.C. - Esta edição será ainda muito mais rica e diversificada do que as anteriores, com uma grande quantidade de eventos que se espalhará por diversos locais de Lisboa. O que despoletou este facto?

C.M. - Neste ano a programação é maior, porque houve um pouco mais de capacidade financeira. Dêem-me meios que o céu é o limite. Do nada, no Operafest fizemos um mundo. Com um orçamento reduzidíssimo, menor do que o de uma produção no São Carlos, conseguimos programar um mês recheado com múltiplas óperas, com toda uma programação variada que cruza tradição e vanguarda e explora a ópera de forma polifacetada. A lista de parceiros está, consecutivamente, a aumentar a cada edição e faremos tudo para ter novos parceiros até fora de Lisboa no futuro.

J.F.C. - Começando pelas quatro óperas que se realizarão no Jardim do Museu Nacional de Arte Antiga. Quais são?

C.M. - O festival abrirá com a sedutora Carmen de Bizet (18 a 25 Ago, 21h), a segunda ópera mais amada de sempre. Esta é, para mim, é uma das primeiras óperas veristas, onde o público presencia situações que acontecem na vida real, como os relacionamentos tóxicos, a violência e o homicídio conjugal. Carmen é uma mulher livre,  que vai contra e inverte os papéis que estruturavam a sociedade novecentista, daí que tenha sido um fracasso na sua estreia, ela instigava à rebelião feminina, mas que convenientemente, acaba por ser assassinada por uma das suas conquistas, como chamada de atenção para este tipo de conduta, tal como Don Giovanni é engolido pelo Inferno, Carmen morre às mãos do amante atraiçoado. Nesta obra-prima de Bizet, a música ultrapassa tudo, é maravilhosa. É uma obra visionária encarnada pela aclamada meio-soprano portuguesa Cátia Moreso, uma personagem ideal em que vai, certamente, arrasar. Para a acompanhar, teremos, não um, mas dois D. José: o tenor mexicano Rodrigo P. Garulo que tem percorrido os grandes teatros europeus e  o tenor português Leonel Pinheiro, Como Escamiglio o barítono luso-colombiano Christian Luján, com a direcção musical do maestro luso-polaco Jan Wierzba.

Imediatamente de seguida, temos a dose-dupla para uma noite de emoções fortes que já referi: Suor Angelica de Puccini e a estreia absoluta de Rigor Mortis do talentoso jovem português Francisco Lima da Silva, com libreto de A. Baião Pinto (26 e 26 Ago, 21h)

A Suor Angelica (1918) a ópera favorita do seu “Il trittico” do mestre da emoção, Giacomo Puccini revela-nos a tragédia de uma jovem mulher aristocrata, Angelica, que é banida da sua família e enclausurada num convento por um filho fora do matrimónimo. Após sete anos sem notícias do filho, finalmente recebe a visita da sua tia implacável, que lhe anuncia a morte do filho. Desesperada, Angelica canta uma canção de embalar ao filho morto e decide matar-se. Aterrorizada apercebe-se que o suicídio é condenado pela igreja...É uma ópera trágica de arrepiar, cinematográfica, com sonoridades que parecem de um filme de suspense de Alfred Hitchcok.

Rigor Mortis é baseada na adaptação do conto Casa Mortuária de Domingos Monteiro. Abordando a grande temática da existência humana assombrada pela sua finitude e da possibilidade de uma existência para além da morte, esta história plena de sarcasmo e humor negro, retrata um homem, Artur, que embora cometendo suicídio e tendo sido declarado morto, continua, numa dimensão supra-terrena, a assistir aos acontecimentos à sua volta. Observa a vinda da sua esposa e ao seu remorso desesperado, é levado finalmente para a morgue até à revelação final. A direção musical ficará a cargo do promissor Miguel Sepúlveda.

Por fim, temos a Flauta Mágica (2, 3 e 5 Set, 21h), a última ópera de Mozart, na maravilhosa versão em português de Alexandre Delgado. Esta obra prima em formato de conto de fadas revela as aventuras e desventuras do príncipe Tamino e do passarinheiro Papagueno em busca das suas amadas, alertando para as vicissitudes da vida, em que três crianças- heróis e ainda uma flauta mágica salvam os seus personagens da desgraça, simbolizando a luta por um mundo melhor, conta com um jovem elenco nacional em todo o seu esplendor. Insere-se no ciclo Públicos do Futuro, criado para sensibilizar as crianças de todas as idades para a ópera. E tal como Mozart a criou em língua vernácula, também nós a apresentaremos em português para que o nosso público a possa fruir plenamente.

Todos os encenadores desta edição, e isto é já uma tendência, estreiam-se na encenação de ópera: Tónan Quito (Carmen), David Pereira Bastos (as duas óperas da dose-dupla) e a Mónica Garnel (Flauta Mágica).

Agrada-me lançar desafios a criativos cujo trabalho admiro, sem terem necessariamente de ter experiência em ópera, essa frescura e espontaneidade é vital para trazer a ópera para perto do público, do mundo de hoje e para o centro da produção da arte performativas do nosso tempo.

J.F.C. – E os ciclos Ópera Satélite e o Cine-Ópera?

C.M. - No Ópera Satélite inclui-se tudo o que tem explorações de ópera e que se cruza com outras linguagens performativas, musicais e do conhecimento: Máquina Lírica - aulas de canto para amadores, o curso livre “À descoberta da Ópera” (4 e 6 Set, 18h30) pela musicóloga Inês Thomas Almeida, a conferência de Rui Vieira Nery, “O fenómeno Maria Callas”, celebrando a divina no centenário pelo seu nascimento, mesmo quase cinquenta anos após a sua morte, esta soprano continua a cativar novos públicos para a ópera.

Pela primeira vez, teremos a performance pelo artista multifacetado Gustavo Sumpta, que explorará as raízes do próprio teatro, para além da finitude da vida e da condição do ser humano, da relação entre artista e a arte – sempre patente no seu trabalho um lado sacrifical. Tem como ponto de partida um poema incrível de Cesare Pavese que parece saído da tragédia grega: "Verrà la morte e avrà i tuoi occhi" (Virá a morte e terá os teus olhos). A música é da autoria da Sara Ross e no palco: eu, o Gustavo e o barítono Tiago Amado. (1 Set, 21h, 21h40 e 22h20, Teatro Romano).

A fechar o festival, A rave operática, numa celebração que mistura a ópera e o mundo pop, propõe o indie, soul cósmico de Margarida Campelo fechando com o afro-beat de DJ Mark Fox, com participação de cantores de ópera e múltiplas surpresas para uma noite de dança de arrasar.

Fotografia da cortesia de Catarina Molder

J.F.C. - Conta-nos um pouco sobre o ciclo Cine-Ópera.

C.M. – Este ciclo arranca em colaboração com a Cinemateca, uma das instituições culturais portuguesas que mais admiro e que tem um papel fundamental na divulgação do cinema no nosso país. O programa deste ciclo contem três preciosidades.

A Flauta Mágica de Ingmar Bergman conjugando a beleza de um grande filme, a magia dos bastidores e sua mensagem de universalidade.

Os canibais do cineasta Manoel de Oliveira, com libreto e música de João Paes, foi um marco na história da ópera, pois pela primeira vez um grande cineasta realizou uma ópera para ser apenas apresentada em filme. Trata-se de um conto gótico-terror, uma espécie de Traviata com sonoridades do século XX, num ambiente decadente de alta burguesia, em que Margarida (Leonor Silveira numa das sua primeira aparições, como futura musa de Oliveira) se perde de amores por um misterioso visconde (Luís Miguel Cintra em todos o seu esplendor) mas na noite de núpcias acontece uma tragédia brutal.

E o filme Maria by Callas de Tom Volf, que é, tal como o título indica, um conjunto de depoimentos e filmagens nunca antes vistas da Callas e, bem como, do seu núcleo íntimo.

J.F.C. - Maratona Ópera XXI, cujos moldes e repertório não têm paralelo no âmbito nacional. Em que consiste este concurso e quais são as suas especificidades?

C.M. - A Maratona é o concurso de ópera contemporânea, apresentado sob a forma final de espectáculo, apostando nas suas várias vertentes da ópera enquanto forma de arte total, apostando em novos repertório, novos compositores, libretistas, intérpretes, criativos. Este ano, vamos apostar no instrumento principal da ópera, o cantor de ópera, revisitando óperas de um passado recente, valorizando, incentivando e aprofundando o canto em português, numa nova parceria com o CCB (Grandes Cantores para a Ópera de hoje, 6 de setembro às 21h). Este espectáculo contará com sete cantores seleccionados e um alinhamento musical estimulante com obras de Alexandre Delgado, António Chagas Rosa, Dimitris Andrikopoulos, Francisco Fontes, Hugo Ribeiro e de Nuno Côrte-Real encenado pelo vencedor da Maratona da edição anterior, o actor e encenador Rodrigo Aleixo, e dirigido pela talentosa maestrina  Rita Castro Blanco.

Sem a co-produção do ensemble MPMP – Património Musical Vivo, esta maratona não seria possível.

J.F.C. - Relativamente ao público, como é que o Operafest tem conseguido captar novos públicos e que frutos tem obtido?

C.M. - Desde que entrei no mundo da ópera que senti este género encerrado numa bolha, fechado sobre si próprio, com pouca reflexão e sem a empatia com a sociedade atual. O público de ópera está cada vez mais envelhecido. Por isso, é preciso que a ópera se renove a todos os níveis: repertório; intérpretes; públicos; imagem; e força com que ela comunica no mundo e no seio das artes em geral. O Operafest tem conseguido graças à diversidade da sua programação que conjuga tradição e vanguarda, - sem nunca ser um festival de nicho -, afirmar-se como um dos festivais de ópera mais fora da caixa da Europa e contrariando essa tendência, na última edição tivemos 37 % do nosso público a vir à ópera pela primeira vez, incluindo um número significativo de crianças e jovens. Estes dados indicam um sucesso que contraria a tendência. Nós aproveitamos também o Verão, para contagiar a ópera com a loucura e a paixão de um festival pop e levar a riqueza da ópera a todos!

Para mais informações sobre a programação, preço dos bilhetes, entre outras, podem consultar o programa aqui e seguir nas redes sociais (Facebook e Instagram).

Entrevista por João Figueiredo Costa

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