O filme "A Metamorfose dos Pássaros", de Catarina Vasconcelos, venceu o Prémio de Melhor Filme na Competição Internacional do Festival de Pesaro, em Itália. Desde então, tem somado diferentes distinções, entre elas, o Prémio de Melhor Filme no Festival de Vílnius, na Lituânia, o Prémio Especial do Júri no Festival de Taipei, em Taiwan, e o Prémio do Melhor Filme no Festival Dokufest, no Kosovo.

A realizadora carateriza o filme como um “documentário-ficção”, uma vez que se baseia nas memórias de infância, e da juventude da família, sendo preenchido, simultaneamente, pela ficção.

Em entrevista ao Gerador, Catarina Vasconcelos falou acerca do processo das filmagens, nomeadamente com a família, da história de amor dos avós, e da sua ligação especial com a morte.

Gerador (G.) - Porquê o título “A metamorfose dos pássaros” para a longa-metragem? Como surgiu a ideia?

Catarina Vasconcelos (C.V.) – Então, se calhar, começo pela segunda parte da pergunta, porque a primeira decorre disso. O filme “A metamorfose dos pássaros” inicia-se quando eu estava a viver em Londres, e tenho uma conversa com o meu pai em que rapidamente ele me diz que o meu avô, que estava no final de vida, gostaria de queimar a correspondência entre ele e a minha avó Beatriz. Uma pessoa que eu nunca havia conhecido, mas que sabia da sua importância na história da família. Esta situação deixou-me um bocadinho chocada, de início, e tentei reagir e tive uma espécie de uma discussão, que acabou com o meu pai a dizer que entendia, mas que em última análise esta correspondência era intimidade de duas pessoas e ninguém tinha o direito de a invadir.

Este momento foi fulcral para mim, porque nesse momento eu decidi que queria fazer um filme sobre Beatriz, sobre esta mulher, porque achava que era muito injusto uma pessoa ter de morrer duas vezes e comecei, dessa forma, a investigar sobre esta mulher. Ao investigar sobre ela, comecei a investigar sobre a minha família, à medida que investigava sobre a minha família investigava sobre o meu país, e uma das coisas bonitas que aconteceu também ao saber mais sobre Beatriz era a sua relação profundíssima com a natureza, as plantas e com a forma como ela gostava de plantar árvores. Então, o retrato da Beatriz foi surgindo como uma metáfora do mundo natural. E, depois, há um dia em que me contam que a minha avó chamava a um dos filhos, ao meu tio João, passarinho ou periquito e eu achei extraordinário, porque aquilo casava com o imaginário todo que eu estava a criar.

Ao mesmo tempo que isto aconteceu pus-me a investigar muito sobre pássaros, e como antigamente se via as migrações dos pássaros e os antigos, assim dizendo,  não percebiam o que é que acontecia aos pássaros… Então, chegaram à conclusão brilhante de que se as luzes se cruzam então são o mesmo pássaro, mudando radicalmente de caraterísticas são o mesmo.

 Eu achei esta ideia deliciosa, porque fiquei a pensar que o ser humano é extraordinário, porque tudo o que não sabe, inventa. E o filme é todo muito construído nesta ideia: o que não sabemos, inventamos.

Cartaz oficial "A Metamorfose dos Pássaros" via facebook

G. - Em outras entrevistas tuas que tive a oportunidade de ler, caraterizas a longa-metragem com um estilo híbrido entre documentário e ficção. Como foi este processo de unir a família com atores profissionais, nas filmagens?   

C.V. - Desde o início que soube que queria que o filme fosse feito com a minha família, só ainda não sabia em que moldes. Sabia que, estando a contar uma história sobre esta família, era importante que esta família fizesse parte dela ou que os seus corpos pudessem invocar corpos mais jovens, corpos de pessoas que já não estão cá, e isso era o fundamental. O que acontece quando se trabalha com a família, e eu acho que isto é uma banalidade, é que a minha família é muito generosa naquilo que me deu, houve muito amor na dádiva, no sentido das coisas que me contaram, das entrevistas longas que tivemos, mas eu saía sempre de lá com uma sensação de que havia coisas que não me contavam. Havia coisas que não me estavam a dizer. E era engraçado, porque no início fiquei zangada, mas depois percebi de uma forma natural que há coisas que as famílias não contam, que não tem que ver com a minha, com a tua. Há coisas que não são ditas, fazem parte do mistério das famílias, de um certo secretismo que existe e que também faz com que as famílias sejam estes organismos, às vezes, um bocadinho mágicos. Um realismo mágico.

Então, o filme acabou por surgir um bocadinho com base nesta ideia. Havia coisas que sabiam, havia coisas que não sabiam, então podia inventá-las, peguei assim desta forma. Existiam corpos que eu queria muito que fizessem parte da minha família, enquanto existiam personagens que sabia que ia precisar de outros corpos, pessoas.

Aliás, foi assim que conheci a Inês Campos, que faz de Teresa no filme, e o que é interessante, e o que eu senti, é que as pessoas que não eram da família já passavam a ser, não havia distinção. E isso também pode ser uma coisa extraordinária que o cinema nos traz, e o facto de eu ter trabalhado com uma equipa muito pequena também trouxe este tom mais familiar à forma como o filme foi feito.

G. - Ao longo do filme, existem planos que parecem pinturas ou fotografias animadas, composições visuais encenadas e metafóricas, cheias de simbolismos, sobre a passagem do tempo e sobre a omnipresença da natureza. Sentes que isto foi uma forma de te libertares da imagem da família e, ao mesmo tempo, de te poderes exprimir mais livremente?

C.V. - Bom, nunca tinha pensado neste sentido de me libertar um pouco da família. O filme demorou cerca de seis anos a ser feito e acho que este tempo também foi necessário para eu me poder, como dizias, de alguma forma, distanciar um bocadinho deles, de forma a poder olhar de fora e não ter pudor também naquilo que escrevia/dizia.

Ao mesmo tempo, há aqui uma situação importante. Eu não venho do cinema. Eu estudei belas artes, portanto essa é a área pela qual me movo e essa é a área pela qual os meus olhos foram educados, e então creio que de alguma forma era impensável eu fazer o filme de outra forma que não fosse aquela que tivesse esta carga da pintura, das artes visuais. E, ao mesmo tempo, quando estava a preparar o filme, quando comecei a filmar com o diretor de fotografia, Paulo Menezes, há um dia que começo a falar sobre a ideia de natureza mortas e os olhos do Paulo começam a ficar muito brilhantes, e eu disse “pah isso é incrível”, porque o próprio Paulo estudou pintura. Então, de repente, o que aconteceu foi que tínhamos uma realizadora e um diretor de fotografia cujos olhares estavam enlaçados no gesto, numa procura, e eu senti que as ideias que eu às vezes trazia, às vezes meias mirabolantes, o Paulo era capaz de as traduzir através da sua luz e através da sua capacidade de moldar a luz, era como se tivéssemos a trabalhar no atelier, e isso é uma coisa muito importante para a construção do filme que tem estes momentos muito de naturezas mortas ou de tablers de vivent, que são quadros separados onde há coisas a acontecerem lá dentro.

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G. - Era uma vez um oficial de marinha que foi para o mar. Mas não é dele que fala esta história, é da sua mulher que ficou em casa a criar os filhos e a tornar-se na “âncora” da família. Gostava que contasses um pouco quem é esta mulher e porque é que ela te é tão importante?

C.V. - Bom, é interessante, porque eu começo a achar que esta sinopse é um bocadinho mentirosa. No sentido em que nós entramos no filme com uma ideia de construção de família, uma relação à distância, seis filhos que crescem, mas depois o filme torna-se acerca do facto de como uma família sobrevive à perda/morte de uma mãe. Portanto, esta mãe Beatriz, e a minha mãe, a Ana, acabam por ser os eixos fundamentais na construção desta reflexão como as famílias sobrevivem, como se reconstroem, na relação com perda de um membro tão fundamental e fulcral que é uma mãe. Portanto, eu acho que tanto a minha avó Beatriz como a minha mãe, e este filme também acaba por ter esse encontro de ausências entre mim e o meu pai, entre mim e os meus tios da perda da mãe. Por isso, a Beatriz acaba por ter dois lados: Tem um que é o facto de nunca a ter conhecido, e tem o facto de ter sido uma mãe, e de eu me poder relacionar com isso e com Beatriz através da sua morte, mais que a sua vida. Não sei se isto faz sentido, mas acho que faz.

G. - Apesar da seriedade do filme, há momentos em que o sentido de humor está bem presente. Um destes casos acontece quando mencionas uma lista de coisas que as mulheres deveriam saber fazer como costurar, cozinhar, entre outros. Enquanto isso, essa enumeração é interrompida por o barulho de um secador. Estarás aqui a fazer uma crítica à sociedade, nomeadamente ao papel da mulher?

C.V. - Sim! Uma coisa que foi fundamental para fazer o filme foi perceber o dia a dia desta mulher. Eu não vivi na ditadura e no Estado Novo e, para perceber o que era ser mulher neste período, foi importantíssimo então também ir estudar um pouco sobre isso e ler. Embora fosse chocante não foi assim tão chocante. As conclusões a que cheguei é que ainda há uma enorme discrepância social entre o papel de género, homem e mulher, sendo que isto ainda são coisas importantes e já não deveriam ser, já não devíamos falar sobre isso.

Mas, o que era muito chocante e nisso foi importantíssimo ler as Novas cartas Portuguesas das três Marias, porque foi fundamental este equacionar quase frio de o que é que são as tarefas do homem e da mulher. Para Teresa, sendo a única mulher no meio de seis irmãos, e isto foi uma das conversas que tive com a minha tia, era muito claro que existiam tarefas que os irmãos nem sequer tinham de saber disso. Era um privilégio, e eles nem percebiam bem o privilégio que era não terem de pensar nisso. Portanto, sim há esse momento da Teresa olhar para a tomada do quarto e pensar sobre esta coisa de que o que as mulheres fazem, o que os homens fazem, e, depois, quando o narrador começa a enumerar as coisas que os homens fazem o secador passa por cima. Nós já sabemos que os homens fazem todas as coisas grandiosas, tudo o que é grande é dos homens, mas as coisas que são lavar a roupa, tratar dos filhos, fazer os abortos, sobretudo nesta altura, não é? Eram coisas que eram só do domínio da mulher, mas que verdadeiramente tinham que ver com uma família inteira. Então sim, eu acho que é um misto entre o irónico e o mordaz, para nós não chorarmos. Prefiro a ironia à tristeza, é tão visível a discrepância que existe, creio que tem que ver com isso.

G. - Em outras entrevistas proferiste uma frase que me deixou a pensar: “A morte conecta-nos a todos, é algo natural que simplesmente sucede”. Sentes que foi este sentimento de união que fez o filme ficar nas bocas do mundo?

C.V. - Eu sinto que a história do filme é bastante banal, no sentido em que a morte da mãe é uma coisa que, infelizmente, vai acontecer a grande parte da população mundial, numa idade ou noutra.

Mas sim, acho que a morte é uma coisa que nos une a todos. Até porque podemos ser de culturas completamente distintas, podemos falar idiomas em que não nos compreendemos de todo, eu posso viver de noite, tu podes viver de dia. Se há coisa em que somos todos iguais é no facto de irmos todos morrer. Eu fico um pouco perplexa com um sentir que a morte continua a ser um enorme tabu na nossa sociedade, mas que todos nós sofremos muito com isso, e sofremos com razão, no sentido em que gostaríamos de viver mais tempo. Há este in vitalidade do fim. Então, creio que sim, não há fronteiras para a morte, e isso é capaz de nos unir. É incrível, porque a morte é uma coisa altamente banal, mas ela é altamente especial na forma como nos referimos a ela. E isso, para mim, é uma contradição. Mas, creio que sim, creio que esta relação com a morte é uma coisa, esta banalidade, que faz com que o filme chegue até às pessoas.

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G. - Qual foi a sensação quando percebeste que um filme “tão pessoal” estava a ter um impacto tão significante?

C.V. - Eu fiquei muito surpreendida e muito contente. Para além de ser um filme pessoal, ele é um filme muito artesanal, vem desta coisa de juntar peças, de um puzzle, e ele demorou muito tempo a ser feito. Foi filmado em alturas distintas, houve uma altura em que queria filmar muito com as estações do ano. Portanto, esta coisa do tempo que foi muito importante para este filme, não estava propriamente à espera de que o filme fosse recebido desta forma, mas foi e fiquei muito surpreendida e muito contente. Acima de tudo, acho que é um filme muito sobre emoções, e não sei em que altura do nosso tempo deixamos de prestar tanta atenção às nossas emoções. Por isso, acho que é bom, fico muito feliz.

G. - Quando questionada sobre o tempo do filme numa outra entrevista disseste o seguinte: “O tempo que ele demora é quase o tempo que eu demoro a conseguir sair de mim para chegar aos outros.”  Estarás nesta frase a fazer uma confissão pessoal tua?

C.V. - Bom, não sei. Eu acho que talvez. Por um lado, há uma sensação de como consigo contar esta história tão pessoal sem ela ficar completamente fechada em mim. Eu não queria fazer um filme que fosse só sobre a minha família, e que fosse só para a minha família. Aqui a ideia era fazer um filme que pudesse chegar a outras pessoas e, nesse sentido, foi importante também este tempo para me distanciar da minha família, de mim, da minha história. E consegui, muito sinceramente, uma certa catarse e alguma terapia comigo própria, mas que isso não estivesse completamente evidente no filme. Ou seja, há esse movimento catártico no filme, mas que possibilitasse existir espaço para que outras pessoas se pudessem rever neles. Se não, o filme era algo que ficava fechado nele próprio, e eu acho que isso pode ser altamente constrangedor até para mim, e mesmo para as pessoas que entram no filme. Isso nunca foi objetivo, ficar fechado. Era sempre ele poder ser um espelho para mim. Sim, isso é verdade, há um lado egoísta de se fazer este filme, mas com a enorme necessidade de o querer partilhar e de querer falar com outras pessoas sobre estas coisas.

G. - Tens sentido, no meio cinematográfico em Portugal, que tem havido um crescendo positivo no que diz respeito aos meios fornecidos e à valorização dos nossos realizadores?

C.V. - Não. Não, eu acho que o cinema como as artes, está colocado na cultura. Para a cultura, em Portugal, não há uma política, nem nunca houve e isso é visível no orçamento de estado miserável que existe. Não é uma questão deste governo, mas de todos os anteriores. Neste, infelizmente ou felizmente, não sei, isto é mais visível, porque houve esta pandemia que originou que a maré baixasse e, de repente, toda a miséria é mais visível. Mas não é uma questão deste governo, não é de agora, é desde sempre. Essa falta de política para a cultura faz com que as próprias pessoas não tenham noção da importância do que é que a cultura é para um país, porque se tivessem essa noção ou se sentissem isso, se os filmes chegassem mais às pessoas... até porque os filmes portugueses, muitas vezes, e só relativamente há pouco tempo, começou a haver uma distribuição mais séria do cinema português, nas salas. Mas isso é um trabalho tão recente que só agora as pessoas vão poder começar essa educação. Educação de gostarem, de se puderem interessar.

G. - Quais são as tuas ambições futuras a nível do cinema? E pessoais?

C.V. - Eu aproveitei esta pandemia para continuar a trabalhar. Comecei a escrita de um novo projeto, tenho em vista o desenvolvimento de um novo filme, e creio que nisto nunca serei muito original, acho que o tema vai ser sempre relacionado com a morte. É-me um tema querido e próximo, o pior que esta frase tem. Mas, ao mesmo tempo, é um tema que me diz muito e me inquieta, e nesse aspeto é um tema que me importa muito falar exatamente por esta questão de que falámos há pouco: como é que uma coisa que nos vai acontecer a todos é tão pouco falada? E, por isso, acho que, no futuro, o próximo filme tem que ver com isto.

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G. - Para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de ver a curta-metragem “A metamorfose dos pássaros” onde pode o público encontrar a exibição do mesmo?

C.V. - Bom, a curta-metragem passou no x-curtas, na RTP. Infelizmente, há um problema na distribuição das curtas-metragens, e eu não tenho mesmo resposta para te dar, porque ainda não é possível. Há um link, sim, que tenho, mas ainda não sei bem como fazer uma distribuição séria. São questões com as quais me tenho debatido, sobretudo nesta pandemia em que cada vez estamos a viver mais digitalmente, embora isso não seja necessariamente bom, por isso não tenho uma resposta para a tua pergunta.

Texto de Isabel Marques
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