A acordeonista Celina da Piedade lançou o seu quarto álbum, em nome próprio, com inspirações no 'Cancioneiro Alentejano'. "Foi uma onda de coisas felizes, de apoio e entusiasmo à minha volta, que tornou possível este disco, e sinto-me muito grata por ele", contou a artista ao Gerador.

'Celina da Piedade ao vivo na Casinha' é o quarto disco de Celina da Piedade, gravado durante a pandemia no estúdio dos Xutos & Pontapés. Em agosto passado, o baixista dos Xutos e Pontapés, Tim, convidou Celina a atuar na sua garagem, casa habitual dos Tais Quais, banda com a qual a instrumentista tem colaborado e formada por Vitorino, Tim, Sebastião Santos, Serafim, Jorge Palma, Paulo Ribeiro e João Gil, resultando assim neste novo disco, numa altura de grande incerteza e crise no setor da Cultura.

Celina da Piedade é um dos rostos que preserva a cultura imaterial portuguesa, a qual fez questão de cuidar, mais uma vez, ao reavivar o "Cancioneiro Alentejano". Questionada sobre a importância de levar as tradições aos jovens, Celina acredita que a transmissão tem de acontecer para que as práticas tradicionais tenham continuidade, ou até uma ressignificação, defendendo que devemos usar todos os meios à nossa disposição, incluindo a tecnologia para o fazer. O seu percurso, de vida e profissional, é o espelho disso. Para além da sua participação em vários projetos musicais, e dos seus próprios álbuns, Celina da Piedade, tem estado ao lado de associações como a PédeXumbo, a D’Orfeu, a Associação para a Promoção da Gaita-de-Foles, e ainda a Música Portuguesa a Gostar dela Própria. "Para mim acaba por ser uma missão de vida, é uma sorte fazer parte desta massa de gente que acredita que o património imaterial quer-se é vivo, dinâmico e no quotidiano de cada um. Nada me satisfaz mais, como artista, do que saber que posso ter salvo algumas canções tradicionais do seu eventual esquecimento. Mesmo como formadora, vivo isto constantemente, que nos workshops que dou, quer nas aulas de Cante Alentejano, nas escolas básicas. Vale a penas trazer o passado para o futuro", conta ao Gerador.

Durante a pandemia, Celina da Piedade não baixou os braços e continuou a partilhar a sua música no online, um recurso pensado, para que o chegar aos outros, não se perdesse. A cantora alentejana, que procura "sempre a luz atrás das sombras", partiu para o online não só por ser uma janela aberta, mas também por ter recebido vários desafios e convites para concertos, como o festival online do Art Institute, da Pédexumbo, da Tradballs, sempre acompanhada pela sua companheira no violino e viola d'arco Ana Santos. Contudo, o que mais a marcou , foi o desafio que lançou nas redes sociais, o #challengecoradinha, a partir de uma moda do cancioneiro alentejano, "Não te faças coradinha", para o qual recebeu mais de setenta vídeos diferentes vindos de todo o lado e de todas as idades.

No novo disco, editado pela Sons Vadios, não ouvimos apenas músicas com sabor a Alentejo. Celina da Piedade vai também buscar o tema transmontano, "A saia da Carolina", e o corridinho algarvio, "Rebola Rebola", que sublinham o interesse da artista em explorar as expressões musicais da tradição da tradição portuguesa. Apesar das suas criações serem em cima de inspirações alentejanas, pela sua ligação emocional ao território, Celina procura navegar por outros 'mares musicais' e trazer um pouco de cada um para cada disco, sublinhando a música do médio-oriente, o folk europeu, a música cabo-verdiana e a sua proximidade com a música da Galiza, que se tem convertido em viagens, concertos e parcerias que serão anunciadas em breve, segundo informações dadas pela cantora.

O projeto de Tim, "A Casinha", foi uma oportunidade para gravar e até "satisfazer um desejo antigo de ter um disco ao vivo", da cantora. A partir daí, Celina conta que "foi tudo sobre rodas", a equipa alinhou, a equipa técnica da Casinha também, a editora Sons Vadios, que já tinha editado o disco anterior “Sol”, em 2016, quis embarcar na aventura, e com o apoio dos Municípios de Mértola, de Serpa e da Antena1, nasceu o “Celina da Piedade ao vivo na Casinha”, com fotografias e design gráfico de Rita Carmo, e "cheio de músicas muito dançáveis, a maioria delas nunca editadas em disco, e algumas revisitações a temas marcantes do meu percurso", conclui Celina da Piedade. No arranque do lançamento, Beatriz Raposo, criadora da Girafa na Lua, fez uma ilustração inspirada no disco, oferecida às cem primeiras encomendas de feitas diretamente à editora.

O álbum já disponível, tem, na edição física, uma faixa extra, "Além Daquela Janela". O alinhamento inclui ainda os temas "Andorinha", "Ceifeira", "Laranja da China", "Limoeiro", "Saias da Moda", "Valsa Almofariz" ,"Coradinha", o ponto de partida para o projeto "#Coradinha", "Calimero e a Pêra Verde" e "As Cobrinhas d'Água/Tricot".

Além de Celina da Piedade (voz e acordeão), o disco conta com a participação de Filipa Ribeiro (voz, glockenspiel e percussões), Nilson Dourado (guitarra), Sebastião Santos (bateria), Sofia Neide (contrabaixo) e, como "convidada especial", Ana Santos (violino e viola d'arco).

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia de Rita Carmo

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