É a vida, a vida inteira. Ali, com a sua noite. É a vida de 12 jovens que estão reclusos no Estabelecimento Prisional de Leiria. Doze jovens que estão num barco, que se partiu duas vezes nos ensaios e foi construído, de novo, por um guarda prisional. É a vida de 12 marinheiros em alto-mar, procurando a sua Índia. Não é a Índia d’Os Lusíadas. Não é a Índia das riquezas, dos impérios, nem dos heróis. Não é o mar que se mede a milhas, nem as terras nem as ilhas que estão tão longe. É a água que se movimenta dentro de um corpo. É a terra prometida que, por estar tão próxima, por vezes, temos de sair para a avistar. O encontro não é cantado por Camões, mas por homens com ténis do género All Star, calças de fato-de-treino, vocabulário simples, com alguns erros gramaticais, e que preferem rap.

Estamos Todos no Mesmo Barco é uma peça de teatro desenvolvida no âmbito do Pavilhão Mozart–Ópera na Prisão, projecto apoiado pelo PARTIS – Práticas Artísticas para a Inclusão Social, promovido desde 2014, através do qual a Fundação Calouste Gulbenkian financia organizações que desenvolvem iniciativas, onde as práticas artísticas estão ao serviço de comunidades mais frágeis e vulneráveis, muitas vezes marginalizadas. Este projecto da SAMP – Sociedade Artística Musical dos Pousos integrou a revolução silenciosa da beleza na sua primeira edição, entre 2014 e 2016, na qual os reclusos do Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovens recriaram e interpretaram a ópera Don Giovanni, de Mozart. Na segunda edição, de 2016 a 2018, a proposta estendeu-se a mais vozes, convidando os técnicos do EPLJ, as famílias e os amigos a entrar na herança do compositor e pianista, com a ópera Cosí Fan Tutte, bem como a mais mãos, pois os participantes ficaram, também, responsáveis pela montagem, cenários e figurinos.

Entre 24 e 26 de Janeiro, deste ano, decorreu a apresentação de alguns frutos da terceira edição do PARTIS, a desenvolver entre 2019 e 2021, a qual passou pela promoção de residências artísticas de dança, com a Escola de Dança Clara Leão, audiovisual, orientada pelos Casota Collective, e teatro. Foi com esta última, dinamizada pelo Leirena Teatro – Companhia de Teatro de Leiria, que os jovens vieram ao palco da Fundação Calouste Gulbenkian, com as suas rotas solitárias abraçadas umas às outras.

A residência foi dividida em duas partes, a da “criação do grupo”, através de uma via lúdica, que prepararia a seguinte, a construção da peça, que começou com a procura do tema, explica Frédéric Da Cruz Pires, o encenador. Embora quisesse encontrá-lo com os jovens, tinha algumas âncoras, das quais não prescindiria. Nenhum dos actores da companhia de teatro residente participaria. O mar seria somente daqueles 12 jovens, entre os 17 e os 28 anos. Teria de ser um espectáculo de “intervenção para os actores e para o público”. Para tal, era preciso que os primeiros estivessem ali, abrindo as mãos, tacteando as geografias das suas linhas.

Os jovens lançaram ideias “muito díspares”, não fosse a vida falar-lhes entre dentes e fragmentos. Tentando encontrar um fio de água que as atravessasse, o encenador propôs Os Lusíadas. “Eles disseram ‘sim, sim’, com muita emoção e eu pensei ‘que engraçado… estas pessoas querem fazer Os Lusíadas, que é algo sempre muito relacionado com a escola, uma seca, uma coisa antiga.’” “Mas nós queremos fazer a nossa versão”, disseram a David Ramy, coordenador do projecto.

 

“Foi diferente das outras experiências, porque eu estava a falar da minha vida. O barco é a cadeia, a prisão onde a gente está. No início ninguém se conhece, mas partilha um sítio comum. A gente queria fazer uma viagem, como nos Descobrimentos. A gente quer descobrir que pessoas somos nós. A gente sabe a pessoa que fomos no passado, mas a gente quer descobrir a pessoa que vamos ser no futuro.” (Rodrigo, 21 anos).

 

“Quem vai para um barco não tem contacto com ninguém. As mesmas pessoas, as mesmas caras todos os dias. Na prisão é igual. O sentimento de quando se chega ao fim é igual a um barco, quando se chega a terra firme, quando se chega ao dia de hoje, que é a liberdade”. (Mathieu, 28 anos. Foi libertado no dia 23 de Janeiro, algumas horas antes da entrevista, na véspera da estreia da peça.)

 

“Não é, simplesmente, uma peça de teatro. A gente quer falar um bocado do que a gente vive diariamente. A gente, na peça, estamos todos no mesmo barco, mas, quando nos referíamos ao dia a dia, estamos todos na prisão. É o mar que a gente pensa: o que vai ser o futuro? O que o futuro me reserva?” (Fábio, 22 anos)

 

Primeiro, são espectadores. Sentados na linha da frente da sala. Levantam-se e são as mulheres que, na praia, gritam a partida. Gradualmente, despem os lenços e despedem-se da terra até não ficar ninguém do outro lado. “Mãe, fica. Mãe, fica”. “Estou a ver a última paisagem”, diz alguém na beira do palco. Passam de quem vê a quem é visto e já não vêem nada. O barco é pequeno e são muitos os homens. Cada um com o seu monólogo, quando cai a noite nos ombros e nas águas e os outros adormecem.

“Todos os monólogos foram feitos por eles. Traziam sangue, traziam sangue, muito amor e muita força. Há uma grande força interior dentro de cada corpo. De certa forma, estão a tentar demonstrar a quem está a assistir: ‘eu sei que cometi um crime, eu sei que estou a cumprir uma pena, mas eu vou sair e, quando eu sair, quero retomar a minha vida, ter uma segunda oportunidade”, conta Frédéric Da Cruz Pires.

“É muito bom ter actividades assim, para nos desenvolver a nível pessoal, bem como aos outros, no olhar para nós”, Mathieu

Conhecida é a saudade dos poetas, sabida a dos emigrantes. Silenciosa é a dos que estão presos, sem nenhuma erudição. Mas eles vieram dizer que estão dentro da vida e que não há nenhuma vida fora da História, com as suas expressões e o seu jeito adolescente. “Estamos presos, mas não estamos apagados da face da Terra”, lembra Mathieu, na conversa com o público, após a primeira exibição da peça. Foi a vez de Benedito, de 22 anos, começar “a transpirar”, ao dizer a sua saudade “sem fugir à realidade”:

“Encontro-me preso. Preso neste barco sem destino. Preso. É que eu sinto saudades… Saudades de casa. Saudades dos amigos. Saudades da família. Saudade do ar que se respira em terra firme. Embarcar nesta aventura foi uma decisão minha. Estava a contar com uma viagem simples, onde o desconhecido não intimidasse tanto e a aprendizagem seria clara e rápida. Sonhava com muitas riquezas, muitas mulheres, money fast. E onde eu estou? Estou num barco com mais de 50 gajos de nacionalidades diferentes, onde todos os dias, quase todos os dias, há problemas.”

Também existem as antiepopeias e os anti-heróis, que querem escrever. “A palavra. Gosto de escrever música. A palavra liberta. O corpo está preso, e a mente está sempre livre. É só a gente querer”, diz Fábio. Porém, há momentos de desespero no mar. Há quem, a meio da noite, não pelo canto das musas, mas porque a ilha dos amores se perdeu, se queira lançar para um canto diluído algures no escuro. “Mas nós queremos fazer a nossa versão”, disseram. E, nela, ninguém caiu. “Fé” tem origem no verbo hebraico aman, que significa “amarrar”, “firmar”, “criar laços”. Os outros marinheiros suspenderam o salto de um amigo, porque os laços se tornam braços. Braços, que, por vezes, em impulsos, desesperam, ferindo-se a si mesmos ou aos companheiros. “Veias prestes a rebentar de desespero. Por vezes, a solução está numa simples lâmina banhada em morfina ou no jogo da forca sem saída. Marinheiros desejosos por largar a âncora das suas vidas em alto mar, na esperança de algum repouso”:

Jefferson

Mas, logo outros abrem um espaço de respiração. Há, ainda, tempestades, as confusões dos ventos com as ondas e os cabos das tormentas que ninguém avisou. Até o desejado momento da refeição, a esperança de um prazer, de um sabor, se torna agressivo. O desconforto destes homens ergueu-os numa revolta que circulou o capitão, porque o movimento do mundo é o do alimento atravessando um corpo. Esta carência conta a história da nossa obscuridade, do embrutecimento, donde emergimos feras, quando o medo de não sobreviver nos engole.

Na verdade, são jovens, embora pareçam mais velhos do que a idade que têm. No início da criação da peça, antes de chegarem ao tema eleito, o desejo de representar uma festa estava presente. Assim, no barco, a alegria é resistência e a adolescência procura por si mesma na brincadeira, no vinho que se entorna, na dança e música.

“Há uma grande interajuda, carinho, afecto”, Frédéric.

“A imobilidade como epopeia ínfima, eis o que descobriu já depois de estar cansado”, escreveu Gonçalo M. Tavares, na obra Uma Viagem à Índia. “Todos os projectos foram brutais para mim, porque cada um mudou a minha maneira de ser, à sua maneira”, reflecte Mathieu. “Quando a gente entrámos para aqui, nunca tivemos essa retrospectiva. Nunca pensámos o que nos levou aqui, o que queremos fazer na vida. E, nesta viagem, deu para pensar o que a gente quer, quais os nossos defeitos, os nossos sonhos, onde a gente é bom, menos bom, onde a gente pode vir a ser bom. O teatro é bom porque vamos experimentando até encontrarmos o nosso sítio, e eu já encontrei o meu. Já temos outras armas, responsabilidade, disciplina, confiança, fazer o bem, respeito. Sobretudo, sermos felizes e fazer o que gostamos”, partilha Rodrigo. “No passado, se calhar, tinha quem me pudesse apoiar, mas não tinha a cabeça no sítio, as minhas ideias ainda não estavam maduras. Mas, agora, com o tempo que já estou preso, já começo a encaixar as peças para quando tiver o puzzle montado…”, diz Fábio. Respondendo donde partiu, o jovem põe o espaço no tempo: “Digo onde começou a minha cabeça a mudar. Foi quando comecei a estar preso. Porque uma pessoa, quando está na liberdade, não sabe que tem o risco de ir preso, vive continuamente numa ilusão: ‘Vou continuar a fazer asneiras’. Mas, quando uma pessoa fica preso, como se diz, tecnicamente, ‘bateste com as costelas’ (estás a ver?), começa a pensar: ‘então, e os amigos?’ Poucos é que ficam… Se calhar, não dava tanto valor à família, mas a família é que está na altura lá para apoiar. Depois, começa-se a ver… a ganhar mais maturidade. Já estou preso há 4 anos e 2 meses e, como deves imaginar, já é há algum tempo”.

Cada um com a sua Índia e um relógio no pulso. “Faltam-me 10 meses. Tenho 21 anos, entrei com 16. Vou sair em Novembro. Ficarei preso, pelo menos, 6 anos e 4 meses, mas já acabo este ano, finalmente. Finalmente não, porque foi necessário. Se não fosse isso, hoje não estaria aqui ou estaria pior. Portanto, foi o melhor que aconteceu e vou sair muito bem”, conclui Rodrigo. Há barcos que já chegaram. O de Mathieu, dez anos depois, acabou de atracar, e há alguém no porto, esperando. Na manhã da véspera da estreia, David foi buscá-lo e recorda, com o seu sotaque cubano, horas mais tarde, este momento como um dos mais bonitos vividos com estes jovens. “Porque vamos para trás? Vamos a hoje. O Mathieu é uma pessoa que está, desde 2014, no primeiro projecto. Fez os projectos todos e passou pelos processos todos. E eu tenho o prazer enorme de, neste dia, que é o ultimo deste projecto PARTIS, receber o Mathieu às 8 horas da manhã, à saída da cadeia, não para ir numa carrinha algemado, mas para ir na minha carrinha, na carrinha da minha instituição. Quando acabarmos o ensaio de hoje, ele vai para o mesmo tecto que eu, vamos sair para beber uma cerveja e falar da vida e do que é estar livre.” “Fiz questão de vir ao ensaio e aos espectáculos, porque é um compromisso que assumi desde o início. Ainda não aproveitei a rua, mas, à noite, já sei melhor a sensação de estar livre.” Algo sussurra no meio do entusiasmo: “É um bocado complicado, porque são pessoas que eu lido, que eu lidava no dia a dia. E estar, hoje, aí, a vê-los algemados, de um lado para o outro, e eu andar atrás deles, tipo tranquilo, faz-me impressão. Eles percebem, eles sabem que é assim, mas, a mim, custa-me um bocadinho.” Também Frédéric, habituado a conviver com os jovens, no sítio onde vivem, vendo-os em gestos largos, representando e dançando na sala de ensaios, uma antiga sala da encadernação do estabelecimento, com um painel de azulejos com frases do Estado Novo, também se sentiu tocado por esta imagem: “Quando os vi, pela primeira vez, algemados, depois de estar com eles 6 meses, doeu, doeu mesmo. Não era um, não eram dois, eram todos.”

Antes desta imagem se repetir nesse fim de tarde, aquelas 12 pessoas olharam um escuro povoado do outro lado, confundindo as luzes. Com sal mostraram que é preciso contar uma história para sobreviver, como escreveu Umberto Eco. Por detrás de todas as falas, há uma fala que diz que o que salva é o sentido e que a beleza o sinaliza. “Obviamente que nem o pior dos seres humanos fica sem mexer um olho perante a beleza. Aquilo que é belo, que produz uma catarse estética, é igual para todos nós, seja um catedrático, um universitário ou uma pessoa que nunca foi à escola”, refere David. Vão piscando desejos de Índias e, por isso, a Índia já começou. “Por enquanto, tenho de me focar num trabalho para estabilizar a minha vida. Os meus sonhos é o mundo da música, o rap. Já tenho tudo pronto para alcançar os meus objectivos, falta só as gravações”, revela Mathieu. “Antes de vir preso, jogava futebol, andava na orquestra, tocava violoncelo. Quero voltar ao futebol, mas, mais para a frente, quero ser chefe de cozinha e, como hobbie, talvez, fazer um pouco de teatro para ver se o teatro me convence. Já me convenceu um pouco, mas quero ver se me convence a tempo inteiro”, partilha Rodrigo. “Gostaria, sinceramente, de fazer alguma música, mas só como passatempo. O que quero ser é personal trainer. Estive no curso de Desporto no Pina Manique, mas desisti e, agora, estou a ver se consigo tirar o 12.º ano no estabelecimento”, afirma Benedito.

David vai observando as navegações e como alguns “corpos duros” se vão tornando dóceis ao mar: “Se o desporto te põe sempre contra alguém, a arte põe-te ‘com’.” “Estes miúdos vivem da sua imagem dura, são corpos duros. Fechar os olhos, por exemplo, é-lhes difícil. Vê-los entregarem-se à dança, ao movimento livre, é… é alucinante ver os seus corpos transformarem-se”, afirma David à Gulbenkian. O coordenador repara nas transformações silenciosas e conta: “Não posso ensinar a nenhum deles como fazer rap, como se estrutura a letra de um rap. Eles sabem melhor do que eu. Sem dúvida, para estas pessoas, quando chegámos e dissemos que íamos fazer uma ópera, quem sabe e tem uma relação com a ópera são umas senhoras e uns senhores muito ridículos, que cantam de uma forma muito ridícula, numa língua que não percebem absolutamente nada. E, estas pessoas, agora, ouvem ópera. Vêm falar comigo sobre dança contemporânea nórdica, que viram na RTP 2. Há uma mudança? Há. Se um rapaz que ontem estava, com todo o seu direito, porque é natural, é um ser humano, um animal fechado, a ver as senhoras preciosas que aparecem nas novelas da SIC, que são muito mais interessantes para um recluso do que a dança contemporânea nórdica na RTP 2, porque aí está a natureza humana, como ver um corpo muito bonito, deixa de as ver para ver dança contemporânea…”

Sente-se o desejo que estas pessoas têm de ser olhadas, reconhecidas, acolhidas e dizem que, neste espectáculo, o principal é a família e os amigos estarem ali e mostrar-lhes que são capazes, que constroem. Este trabalho do olhar prolongou-se aos guardas prisionais que já os tratam “pelo nome e não pelo número”, refere David, na mesma entrevista. O coordenador estabelece o paralelismo entre a sociedade e a ópera trabalhada numa edição anterior. Todos somos luminosos e obscuros e, tantas vezes, escolhemos as partes do outro que queremos olhar. Ao fazê-lo, perdemo-lo. Lorenzo da Ponte, que escreveu o libreto para Così Fan Tutte, a terceira e última ópera de Mozart, fala-nos disso: “Essa minha mulher é aquilo que eu acho que ela é, ou aquilo que ela é e eu quero ver outra coisa? Estamos dentro de um espaço onde se passa exactamente a mesma coisa. Um recluso é aquilo que ele é ou aquilo que nós conseguimos?”

Rodrigo, face a face com a plateia, numa espécie de confissão, conta as suas dobras do mar, como se já tivesse chegado. Mas a Índia revelou-se-lhe dentro do barco e escutou-a no rumor das ondas. Não se chega, vai-se chegando, porque “A terra é semelhante e pequenina/ E há só uma maneira de viver” (v.48–49, “Opiário”, Álvaro de Campos). Durante a actuação de Rodrigo, David, no lado esquerdo do palco, entre os músicos, comove-se.

Rodrigo

Rodrigo termina. David enche o peito e as maçãs do rosto de ar e expira.

“Não me vou cansar de repetir a mesma coisa: como sociedade temos a obrigação de punir o delito, mas temos a obrigação de ter compaixão pelo ser humano que está por detrás desse delito”, disse nos bastidores, aquele que os jovens já tratam por amigo. O coordenador e o encenador desejam continuar esta relação. “Se assim não fosse, não estaríamos a fazer intervenção”, esclarece Frédéric.

A plateia levanta-se, aplaudindo. Talvez, naquela hora, chegámos a uma praia juntos.

 *Este artigo encontra-se ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945.

*Título: versos 13–14, “Pelo sonho é que vamos”, Sebastião da Gama

*As citações dos jovens não foram alteradas para que se possam ouvir melhor

 

Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Fotografias de Carlos Porfírio

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