O coreógrafo João Fiadeiro ficará sem casa para o projeto de dança contemporânea RE.AL, em Lisboa. A performance de despedida decorreu  no passado domingo, 28 de julho, com a pianista Joana Gama.

"É claro na minha cabeça que é o fim de um ciclo", afirmou João Fiadeiro à agência Lusa, numa altura em que se prepara para abandonar o edifício em Lisboa onde a companhia e ateliê RE.AL estavam instalados há 15 anos, porque o senhorio não quis renovar contrato.

João Fiadeiro, nascido em 1965, um dos nomes da renovação da dança contemporânea portuguesa, fundou a companhia RE.AL em 1990 que, em quase 30 anos de trabalho na investigação e interpretação, teve várias casas.

Os últimos 15 anos foram passados num edifício onde João Fiadeiro desenvolveu um ateliê que servia de plataforma para a criação artística, investigação e programação transdisciplinar.

"Já mudámos quatro, cinco vezes e agora é claramente um momento em que se vai mudar o paradigma. Não há em vista nenhum outro espaço", disse.

Neste mês de julho, a casa do RE.AL viveu "um projeto muitíssimo intenso de ocupação constante", intitulado "Des|Ocupação", com performances, conversas e participação de cerca de 30 artistas que fizeram a história da companhia e ateliê.

O derradeiro espetáculo desta programação de despedida foi feito no domingo, já com o edifício vazio depois de vendido o recheio, com João Fiadeiro e a pianista Joana Gama a interpretarem a peça "Vexations", de Erik Satie, durante sete horas, entre as 15:00 e as 22:00.

"Tinha o desejo de fazer uma performance final, mais solitária, da relação entre mim e a própria casa", explicou.

João Fiadeiro, que se prepara para uma pausa, destinada a finalizar um doutoramento, identifica um momento decisivo na vida do RE.AL quando, em 2015, foi excluído dos apoios sustentados da Direção-Geral das Artes e só foi informado da decisão seis meses depois, já com programação delineada.

"Quando perdemos subsídio ficámos com vinte e tal anos de atividade e de criação de rede de cumplicidade e de afetos completamente destruídos, e agora, sem o espaço, mesmo que a gente queira continuar, é muito difícil. O que estou a fazer é aceitar o fim. Estou a fazer os possíveis para que seja uma celebração e não um lamento, isso para mim é muito importante", afirmou o coreógrafo.

O bailarino fala de um "problema estrutural" na relação do poder público com os artistas: "Parece que é uma espécie de estética de precariedade, algo que impossibilita que o Estado se sinta ligado, mesmo que afetivamente, com os seus artistas".

"Nós somos um produto de investimento do Estado que, num determinado momento, não somos contemplados com financiamento, há toda uma atividade que colapsa do dia para a noite e não há ninguém que se preocupe com isso", lamentou.

No entender de João Fiadeiro, fica ainda por resolver que destino dar ao arquivo construído nestas três décadas. A Câmara de Lisboa cedeu um espaço temporário, no Polo das Gaivotas, para colocar o espólio do RE.AL.

"Não há nenhum lugar apropriado, mesmo que eu queira doar, esse espólio para que possa ser tratado e disponibilizado para investigadores. É uma falha do sistema de inscrição e de atenção, que não existe", explicou.

Sabe mais sobre João Fiadeiro, um dos coreógrafos da geração da Nova Dança Portuguesa que emergiu nos anos 80, aqui.

Texto de Lusa e Carolina Franco
Fotografia de Ahmad Odeh disponível via Unsplash

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