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Chila Cunha: partem-se pedras e quebram-se tabus

No dia 15 de julho, Chila Cunha abriu-nos as portas do seu ateliê e mostrou-nos um pouco do seu mundo. A jovem ceramista, tímida, mas perspicaz, mostrou como a sua imaginação a pode levar a criar peças únicas, sustentáveis e contadoras de histórias.

Chila Cunha. Fotografia de Róza Kadi

A cerâmica faz parte do espectro cultural e artístico de Portugal há milhares de anos. Parece uma arte simples, em que apenas se mistura argila com água, mas existem muitos outros processos por detrás desta técnica artística. Hoje em dia, a cerâmica pode ir desde um simples prato a uma grande escultura. No entanto, existem muitos artistas desta área que ainda procuram dar visibilidade às suas obras e mostrar ao público que a cerâmica é uma arte bastante complexa.

Romana Cunha adotou o nome de Chila Cunha para se identificar a nível artístico, mas também por ser o nome que os seus pais lhe queriam dar inicialmente. Contudo, não lhes foi permitido, pois o nome “Chila” não constava na base de dados do Registo Civil Português. A jovem de 26 anos, natural da Ericeira, gere o seu próprio ateliê – “Limoeiro” –  o qual divide com outros quatro artistas. Ceramista e ilustradora, Chila Cunha explora a sua imaginação e desafia os tabus da sociedade, como o erotismo ou o que é ser uma artista com dislexia.

Numa entrevista ao Gerador, Chila contou como é trabalhar com materiais mais sustentáveis, como surgem as ideias para as suas criações e quais as suas histórias. Considera-se uma artista independente e, apesar de agora se focar mais na cerâmica, acaba sempre por trazer a ilustração para as suas peças. O ateliê, que se localiza numa quinta de limões também na Ericeira, é espaçoso e evidencia os trabalhos ainda em curso, mas também as peças que já estiveram em exposição e agora à venda ao público. Foi ao som de World Music e a “bebericar” chá verde dos Açores e gengibre fresco num dos seus copos artesanais que a artista nos contou a sua história.

Chila Cunha. Fotografia de Maciej Dekert Ávila

Gerador (G.) – Como era a Chila durante a sua infância?

Chila Cunha (C. C.) – Artística. Trabalhava com costura, cozinha, pintura, vídeo…, portanto, em miúda, sempre tive um lado assim mais artístico e de fantasia. Os meus pais também trabalhavam com artes: reconstruíam casas, pintavam quadros, por isso, sempre tive acesso às artes.

G. – Quando e como surgiu esta paixão pela cerâmica e pela ilustração?

C. C. – A paixão pelas artes sempre esteve lá, mas o amor pela cerâmica só surgiu no secundário. A minha mãe estudou na Escola António Arroio e eu, depois, também fui para lá. Experimentei os cursos todos! [risos]. Fui para lá com a ideia de que ia fazer têxteis, mas, depois, escolhi joalharia e só depois disso é que fui para a cerâmica. A joalharia… não sei, eu gostei muito de trabalhar com os metais, mas depois, a nível de projeto, era tudo muito à base do desenho e era demasiado técnico. Não havia uma parte conceptual. Apenas elaborávamos o nosso projeto e depois acabávamos por concretizá-lo na oficina. Só que em joalharia, tudo tem de ter muito rigor, tudo o que fazemos tem de estar ao milímetro. Na cerâmica tudo é mais momentâneo e experimental. Na própria idealização do projeto, conseguíamos trabalhar mais o conceito do que na joalharia. Foi por isso que preferi trocar para cerâmica.

G. – Como foram evoluindo as tuas inspirações ao longo do tempo?

C. C. – Não sei, acho que na minha fase adolescente gostei muito do trabalho do Klimt e do Egon Schiele, principalmente a parte do desenho. Depois, aprendi uma técnica, que se chama “desenho cego”, em que apenas podes olhar para o que estás a desenhar e não podes olhar para a folha. Assim, o desenho fica bastante livre e bastante expressivo, e foi por aí que segui. Ainda hoje utilizo essa técnica. Geralmente, tenho uma imagem na cabeça ou imagino alguma coisa, e daí começo a “puxar” palavras e crio um pequeno conto ou apenas uma frase. A partir daí, começo a desenhar mais imagens e acabo por criar uma história que trago para a cerâmica. Na verdade, faço pequenas esculturas que representem momentos dessa história.

G. – Como foi o teu percurso académico e como foi o processo de decisão por detrás desse percurso?

C. C. – Estudei na António Arroio, que não chega a ter o critério profissional. Ficamos com o nível 4, que é basicamente o que está entre a universidade e o ensino secundário. Especializei-me em cerâmica e, agora, tenho andado a fazer alguns cursos na CENCAL (Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica). Não tirei uma licenciatura, mas tenho tirado pequenos cursos de técnicas específicas, todos os anos.

G. – Houve algum momento específico que consigas identificar em que a tua paixão pela cerâmica e ilustração deixou de ser apenas uma paixão e passou a ser uma escolha profissional?

C. C. – Acho que sempre tive esta ideia. Houve uma altura em que trabalhei em cozinha, pois era uma das minhas grandes paixões, mas também porque era fácil de fazer dinheiro. Mas agora, neste último ano — talvez por causa da covid-19 —  decidi largar a cozinha e focar-me na cerâmica. Em 2016, já tinha o meu ateliê, mas em 2016 também fui mãe, portanto… foi uma viagem. Não conseguia estar cem por cento focada na cerâmica, mas também acho que tudo se tornou mais completo.

G. – Como surgiu o teu foco criativo em torno de figuras inspiradas em contos? Que género de contos são esses?

C. C. – São contos trágicos… de amor! [risos]. Eu gosto de pequenos contos e de coisas que remetam para a minha infância. Gosto de carrosséis, gosto de histórias e profecias. É sempre um imaginário de um outro universo. Por exemplo, em 2019, fiz um livro que conta a história de Fidélia. Conta a história de pessoas que vivem no céu e a maneira como as mesmas se reproduzem. Basicamente, os homens e as mulheres enamoram-se, as mulheres engravidam, e os homens, depois de inseminarem as mulheres, morrem e caiem na terra. Assim que as mulheres engravidam, os corvos levam-nas numa viagem à volta do sol durante um ano. Depois, acontecem várias peripécias, mas eu tento sempre misturar as histórias de amor com alguns factos naturais e até mesmo científicos. Por exemplo, a questão de o homem morrer após inseminar a mulher, baseia-se na vida de alguns insetos que morrem após o ato sexual. Mas também acontecem outras coisas! Na tal peregrinação das mulheres com os corvos à volta do sol, se os corvos se distraírem e anoitecer, homens pela noite vêm e violam as mulheres. Essas deixam de estar grávidas dos seus amores e passam a estar grávidas dos seus violadores.

Ilustração em "A Pequena História de Fidélia". Fotografia retirada do website de Chila Cunha

G. – Há alguma mensagem que tu queiras transmitir com esses contos?

C. C. – Não acho que haja bem uma mensagem que eu queira transmitir. São apenas ideias que surgem e que se baseiam muito na vida natural. Isto de as fêmeas estarem com outros machos e acabarem por perder o bebé do primeiro com quem acasalaram, acontece muito na vida animal. Por exemplo, se uma vespa colocar esperma dentro de uma lagarta, a futura borboleta deixa de ser uma borboleta e passa a abrir como uma vespa. Sempre achei este tipo de factos bastante interessantes e, como sofro de dislexia, acabei por fixar apenas as coisas mais malucas que aprendia nas aulas de ciências naturais. A informação passa-me muito ao lado, mas aquela que me interessa consigo mesmo fixar.

G. – Sentes que a dislexia te tem influenciado em algum sentido?

C. C. – Acho que em tudo. A perceção que temos do mundo é completamente diferente, porque temos uma deficiência no que diz respeito ao processamento de imagem e de som. O nosso cérebro acaba por trabalhar mais uma área do que as outras em compensação dessa deficiência. Mas, ao mesmo tempo, sinto que também traz imensas vantagens para o meu trabalho! Geralmente, as pessoas com dislexia têm capacidades maiores para o nível artístico. Por exemplo, até ao meu nono ano, eu era uma das piores da turma, porque tinha dificuldades em tudo. Na escrita, matemática, português… e depois fui para a António Arroio e passei a ser uma das melhores da turma! Portanto, foi algo muito forte. Mesmo.

G. – Procuras argilas na natureza. Como funciona esse processo?

C. C. – Um dos trabalhos que ando a fazer é pesquisar campos agrícolas, que são bastante ricos em argila. O barro é uma mistura de argilas. É uma pasta cerâmica e, para se obter certos aspetos, temos de a misturar. Se quisermos uma pasta plástica, que dá para modelar bem, juntamos certos componentes. Se quisermos uma pasta que coza a uma determinada temperatura, acrescentamos outros. Se quisermos uma pasta translúcida, se quisermos uma pasta mais opaca ou mais brilhante… a ideia é explorar aquilo que queremos de acordo com a composição da pasta. Quando fazemos cerâmica, vamos a uma loja e compramos o barro, ou vamos a uma olaria e pedimos, ou se já tivermos um pequeno ateliê, encomendamos uma tonelada… só que essas pastas são todas fabricadas, ou seja, são retiradas de uma área e depois testadas em laboratório. Isto significa que, na verdade, são todas iguais. Agora, tenho estado a pesquisar pastas aqui na zona. Faço pequenos testes e depois utilizo-as no meu espaço. Assim, as pastas são únicas e mais ninguém tem igual. Mesmo eu, se voltar ao local, mas em diferentes épocas do ano, irei recolher amostras diferentes.

Peças de cerâmica elaboradas por Chila Cunha. Fotografia de Maciej Dekert Ávila

G. – É, para ti, importante que a tua arte se mescle com a natureza e com os processos naturais?

C. C. – Sim. Tem sido um desafio puxar só a área natural para o meu trabalho, porque é preciso muita pesquisa. Quando compramos uma pasta na loja, conseguimos obter certos aspetos, para além de ser barata. Quando somos nós a ir recolher, temos de realizar vários testes e pode nem sempre ficar plástica o suficiente ou não atingir a cor que procurávamos. Se eu quiser construir um corpo, se calhar não vou querer uma pasta castanha ou vermelha. Posso querer! Mas ainda não incluí isso no meu trabalho. Por outro lado, sinto que é um dever cívico procurar um lado mais sustentável para o mundo. A cerâmica consegue, por vezes, ser inimiga do ambiente. Nós recolhemos este produto da natureza que, depois de trabalhado, nunca mais volta ao seu estado inicial. As pessoas acham que trabalhar com o barro é uma coisa muito natural, mas não é. A nível de fábricas, existem muitas louças que são cozidas e que acabam por se partir, porque foram feitos muitos erros. Por exemplo, quando as peças já são cozidas com vidro, já não se podem moer ou misturar, acabando por ir para o lixo ou para o aterro.

G. – Tiveste alguma parceria com algum outro artista?

C. C. – Fiz uma parceria com uma colega. Fizemos umas ocarinas com uns moldes de pilinhas. Umas “pirocarinas” [risos]. Foi em 2020. Comecei por fazer uma escultura muito grande com o molde de dois corpos humanos, uma mulher e um homem. Depois, convidei a minha amiga, a Carolina Garfo, para vir fazer um workshop, aberto ao público, de cerâmica sustentável. Ela passou cá uma semana e acabou por ver os moldes das pilinhas no meu ateliê. Achou aquilo muito engraçado e disse-me — “opa, isto parece uma ocarina! Tu tens de fazer disto uma ocarina!”. E pronto, ela tratou da estrutura e eu dos moldes. Algumas pessoas acharam que eu era doida, mas outras adoraram e têm estado a comprar!

G. – Lecionas vários tipos de workshops. O que recebes desse teu papel enquanto professora que possa influenciar o teu próprio crescimento artístico?

C. C. – Eu dou workshops de raku, uma técnica japonesa com 400 anos, e aqui na minha oficina faço um género de projeto guiado. Algumas pessoas já vêm com umas ideias, outras vêm para aprender as técnicas básicas e eu acompanho-as. Acaba por ser tudo na base da partilha do conhecimento. Não sinto que estou a formar alguém. Também faço workshops com crianças, apesar de achar que nunca tive muito jeito com elas [risos]. Depois tive um filho e, o ano passado, inscrevi-me para dar AECS (atividades de enriquecimento curricular) nas escolas de artes e resolvi dar continuidade. Os workshops com elas são muito simples, mas elas gostam. Acho que acabo por tratar as crianças como pessoas iguais a nós e sinto que elas têm vontade de aprender. Quando tive o meu ateliê, em 2016, comecei a fazer uma série de louça, que não correu muito bem [risos]. Foi também nessa altura que os amigos dos meus amigos me começaram a pedir aulas. Eles gostaram, partilharam o meu contacto e acho que isso foi o início de tudo. É mesmo uma questão de partilha, não faço questão de fazer publicidade. Claro que aprendemos ao ensinar. E óbvio que é super bom saber que há pessoas que encontraram uma nova paixão por terem estado a trabalhar contigo.

Chila Cunha no seu ateliê. Fotografia de Maciej Dekert Ávila

G. – Para além dos projetos que apresentas no teu site, realizaste mais algum?

C. C. – Eu estou a fazer várias coisas ao mesmo tempo. Estou a gerir este espaço — o ateliê – faço open studio [estúdio aberto], por isso as pessoas de fora também podem usar este espaço; dou os tais guided projects [projetos guiados], em que as pessoas vêm e ficam uma semana para fazer projetos de cerâmica; dou as aulas às crianças aqui também; faço as minhas esculturas para depois serem enviadas para bienais, concursos e galerias, e ainda estou a fazer alguma loiça para lojas.  É mais ao menos isto. Deixei a ilustração um bocadinho de parte. Na altura em que ilustrei A pequena história de Fidélia, fiz também algumas ilustrações para revistas e para cartazes de bandas que me pediram.

G. – De todas as tuas obras, qual foi a que te deu mais prazer fazer?

C. C. – Acho que quero sempre fazer mais! Nunca estou satisfeita com nenhuma, quero sempre mais. Algumas das obras que fiz até rebentaram [risos]. Eu sacrifiquei-as ao colocá-las em fogueiras e elas acabaram por explodir. Estava apenas a fazer uma experiência. Acho que tenho um certo desapego às coisas. Posso perder imenso tempo a fazê-las, podem-me dar imenso prazer a fazer, mas, depois, se correr mal… não me sinto assim tão mal. Acho que faz parte.

G. – Gostava que nos contasses um pouco sobre a história d’As Varinas e as mulheres-andorinhas e d’O Medronheiro.

C. C. – Bem, eu construí um carrossel para contar a história d’As varinas e as mulheres-andorinhas. Remete para as tardes de outono. Quando o sol se põe, veem-se muitas andorinhas a comer mosquitos. Então, eu imaginei uma história em que as andorinhas, na verdade, são mulheres e estão a comer as típicas sardinhas do verão. Mas eu quis que elas estivessem a comer de uma forma um pouco mais amorosa e erótica. Por outro lado, as varinas estão chateadas com as mulheres-andorinhas por estas lhes estarem a roubar o peixe! Em relação ao Medronheiro, ainda estou a trabalhar nisso. Tive a ideia de olhar para um objeto inanimado e imaginar uma história a partir daí. Então, como no Norte há imensas pedras e imensos medronheiros, imaginei que essas pedras pudessem ganhar vida. Comecei a visualizar como seria o seu dia-a-dia. Por exemplo, se elas estão ao sol, será que é assim que elas obtêm energia? Será que as pedras se podem reproduzir? E como é que se reproduziriam? Então, criei a ideia de que as pedras poderiam ter almas no seu interior e que, para se reproduzirem, teriam de se partir. Ao se partirem, estariam a multiplicar-se. Na verdade, este fenómeno acontece realmente em Portugal! São as pedras-parideiras que, ao se desgastarem, começam a partir-se em pequenos pedaços. Basicamente, começam a cair pedras da pedra. Diz-se que as mulheres costumam ir buscar essas pedrinhas e colocá-las debaixo da almofada para que lhes tragam fertilidade. Bem, como eu estava a dizer, ainda estou a trabalhar neste projeto. Para além da escultura do próprio medronheiro, fiz agora um género de pedras-parideiras. São pedras que têm corpos lá dentro, mas as pessoas têm de as partir para saber o que realmente se esconde no seu interior. É uma série de kamasutras. As pedras são pequeninas e as pessoas podem colocá-las na sua mesa de cabeceira – tal como o Kamasutra é um livro de cabeceira. Assim, em vez de lerem o livro, podem partir a pedra e encontrar uma posição sexual dentro dela. Para além disso, fiz também uma série de cinco mulheres grávidas. O processo é o mesmo. Quebram-se as pedras, depois a barriga e dentro dela estará um bebé esculpido que, por sua vez, trará fertilidade ao casal.

Pedra-parideira da série "O Medronheiro". Fotografia de Maciej Dekert Ávila

"As Varinas e as mulheres-andorinhas". Fotografia de Chila Cunha

G. – Procuras sempre que as tuas obras tenham algum simbolismo erótico?

C. C. – Apesar de não ir exatamente à procura do erotismo, acabo sempre por dar alguma conotação erótica às peças. Gosto das figuras nuas e gosto de retratar histórias de amor. Uma coisa leva à outra. Às vezes, nem estou a retratar o erotismo, as pessoas apenas estão nuas, mas o público acaba sempre por achar que é erótico. Por exemplo, eu tenho umas canecas que são só dois corpos nus, que nem sequer se tocam, e as pessoas acham que é erótico. Mas eu acho interessante este tabu que existe à volta do erotismo ou do facto de se estar nu. Gostava de trabalhar mais nisso. Acho que as pessoas, ao verem as minhas peças, pensam sempre que é algo muito doido. Então eu vou querer fazer algo ainda mais doido! Quero quebrar o tabu.

"O Medronheiro". Fotografia retirada do website de Chila Cunha

G. – Sentes que as pessoas não entendem, ou não valorizam, o trabalho que está por detrás de uma peça cerâmica?

C. C. – Essa questão é bastante interessante porque, para um artista, é realmente difícil viver só da arte. Existem muitos que têm de ter vários empregos. Depois, há outra questão: o público acaba por preferir realizar um workshop do que comprar uma escultura. Ou prefere comprar uma loiça utilitária do que comprar uma escultura. Para um artista que está a começar a sua carreira, isto é muito difícil. Temos de escolher caminhos. Mas é realmente triste, porque as pessoas são capazes de pagar mais para fazer um workshop do que para comprar uma escultura. E as peças utilitárias conseguem ser peças bastante dispendiosas! Por exemplo, se estivermos a trabalhar com um forno a lenha ou com um forno a gás, pode demorar imenso tempo. O forno que tenho aqui demora doze horas para cozer. Eu não posso clicar num botão e ir-me embora. Tenho de ficar aqui as doze horas, em cima do forno, a regulá-lo e, depois, tenho de esperar mais um dia só para poder baixar a temperatura da peça. É uma coisa bastante demorada. A cerâmica tem vários processos e as pessoas não entendem isso. Os vidrados também sou eu que os apanho, sou eu que os trabalho. Tenho de os peneirar, tenho de os filtrar, tenho de os ajustar e as pessoas não compreendem todo o processo que está por detrás. Estão habituadas a ir a uma loja e comprar as peças por um valor que não é real. Ou seja, estão a comprar as peças por um valor mais baixo do que o custo de produção. É uma grande batalha que os artistas têm de vencer. Temos de fazer entender o público de todos os processos que a cerâmica tem.

G. – Tens alguma ambição, relacionada com o teu trabalho enquanto ceramista, para o teu futuro?

C. C. – Primeiro quero melhorar o meu ateliê, modernizá-lo. Gostava de ter um forno elétrico, por exemplo. Depois, a nível artístico, gostava de ter mais tempo para as minhas esculturas. Sou mãe, tenho de gerir este espaço e ainda direcionar os guided projects [projetos guiados]. Para se fazer uma escultura não é propriamente “ah agora tenho três horas, vou fazer”. Preciso de dez horas, preciso de estar desde manhã até de madrugada para fazer uma escultura. Mas óbvio que a maternidade me enriqueceu muito mais, principalmente a nível conceptual. A nível prático, claro que é muito mais complicado. Uma pessoa vive de horários e uma pessoa artística não pode ter horários. Lá está, para fazer uma peça eu preciso de estar cá até às três da manhã. Porque preciso, não sei. É a minha maneira de interiorizar o que estou a fazer. Sendo mãe, não consigo. Tenho de o deixar na escola às nove e ir buscá-lo às cinco. Mas a maternidade enriqueceu-me. A minha vida ganhou sentido.

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