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Chuva

Nas Gargantas Soltas de hoje, Jorge Pinto fala-nos da relação entre as sociedades e as águas da chuva.

©Luís Catarino

Há algo de libertador na chuva. Há uns dias, regressando a casa de bicicleta, vi-me debaixo de uma inesperada chuvada. À medida que as gotas me iam atingindo e as roupas ficando empapadas, a moléstia foi-se transformando em prazer. Dei por mim a abrir a boca e a deitar a língua de fora, aumentando ainda mais a superfície corporal exposta a essa descompressão das nuvens. Quase em êxtase, senti-me vivo – muito vivo – e livre dentro daquela jaula aquática.

Somos fascinados pela chuva como somos fascinados pelo fogo. Pergunto-me porquê. Será a certeza da necessidade do fogo para nos aquecermos e da chuva para carregar os nossos cursos de água – a chuva e o fogo como garantes da vida. Mas o fascínio será também devido ao respeito que ambos nos impõem, num permanente recordar de que a moderação é sempre boa conselheira. A chuva é essencial, mas, em excesso, mortífera. Talvez o fascínio se deva ainda à sua vida forçosamente curta; a chama resiste apenas alguns segundos até desaparecer em gases dispersos pela atmosfera, a chuva tem no máximo alguns minutos até a sua queda suicida terminar no solo que a absorverá ou no curso aquático onde se integrará. Mas, sabemos bem, assim Lavoisier nos ensinou, que ali nada se perde e que aquela chuva que o deixou de ser continuará o ciclo da água, infiltrando-se na terra, alimentando rios e oceanos, dando de beber à flora para depois se evaporar, condensando-se nas nuvens que acabarão, por mais que a isso se oponham, por voltar a permitir que chova. Talvez o fascínio venha desta morte e renascimento permanente.

Muitas culturas – todas? – veneraram de um modo ou outro a chuva que lhes assegurava a vida. Esta paixão (ou necessidade) vem de longe, pois já no neolítico se construíam cisternas para armazenar a chuva. Outros exemplos históricos podem ser encontrados na Roma Antiga, na China ou na Índia, país onde, no presente, o aproveitamento das águas pluviais é até obrigatório em alguns estados. Os povos nativos das Américas foram talvez aqueles que com maior fascínio trataram a chuva, dançando e pedindo aos céus um pouco da sua chuva. Já os povos árabes e berberes deixaram na Ibéria as suas construções onde a água, que tanto lhes faltava no seu lugar de origem, tinha um lugar de destaque.

Aprendemos ainda em tenra idade e para fascínio infantil que uma boa parte do corpo humano é constituída por água. Aquelas gotas que caem do céu são os nossos tijolos corporais. Como é isso possível? Movidos por essa mesma incredulidade infantil, olhamos para as fotos do planeta em que habitamos e, invariavelmente, perguntamo-nos por que carga de água lhe chamamos de planeta Terra. Temos nomes para a chuva e adoramos discutir se é mais grossa ou mais miúda. Não temos bem a certeza se é molha tolos ou molha todos, mas o que é que isso interessa, se bem sabemos que é impossível ter sol na eira e chuva no nabal?

Nos últimos meses não faltaram notícias à volta da chuva em Portugal. De como o país esteve em vários pontos em situação de seca extrema, tendo melhorado em setembro e outubro, sendo agora as situações de seca moderada e seca severa as mais recorrentes. Da sua falta e de como isso afeta o nível de água nos nossos rios e a convenção assinada com Espanha para a sua partilha justa. Vimos ainda uma pequena demonstração dos efeitos destruidores da chuva na cidade de Lisboa. Lemos também que em Portugal se desenvolvem caçadores de água, porque a chuva também pode ser caçada.

A chuva liberta e dá vida. Tenhamos-lhe estima.

-Sobre Jorge Pinto-

Jorge Pinto é formado em Engenharia do Ambiente (FEUP, 2010) e doutor em Filosofia Social e Política (Universidade do Minho, 2020). A nível académico, é o autor do livro A Liberdade dos Futuros - Ecorrepublicanismo para o século XXI (Tinta da China, 2021) e co-autor do livro Rendimento Básico Incondicional: Uma Defesa da Liberdade (Edições 70, 2019; vencedor do Prémio Ensaio de Filosofia 2019 da Sociedade Portuguesa de Filosofia). É co-autor das bandas desenhadas Amadeo (Saída de Emergência, 2018; Plano Nacional de Leitura), Liberdade Incondicional 2049 (Green European Journal, 2019) e Tempo (no prelo). Escreveu ainda o livro Tamem Digo (no prelo). Em 2014, foi um dos co-fundadores do partido LIVRE.

Texto de Jorge Pinto
Fotografia de Luís Catarino
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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