Desde crianças que nos ensinam os significados das palavras. Esses significados são guardados em prateleiras devidamente etiquetadas, para que as possamos selecionar rapidamente quando conversamos ou escrevemos. Somos um dicionário vivo que nem sempre põe em causa o peso e a interpretação de cada uma das palavras que usa.

Quando crescemos, e a maturidade se vai instalando, começamos a questionar alguns conceitos. Se revisitares todas as palavras que tens na tua prateleira, quantas delas não acrescentarias ou alterarias o significado? Já pensaste na ambiguidade que pode ter a palavra ciclo?

Aprendemos que ciclo é "uma série de fenómenos que se sucedem numa ordem determinada" ou "parte de um fenómeno periódico que se efetua durante certo espaço de tempo".

A natureza existe em ciclos, por exemplo, aprendemos que a água flui de cima para baixo. Num ciclo interminável, depois de chegar à base, regressa alegremente para cima em forma de nuvem que, mais tarde, a distribuirá até chegar à sua nova base.

Além da natureza, os humanos vivem também em ciclos. A mulher, na sua forma mais pura e fisiológica, tem também um ciclo.

Na verdadeira etimologia, um ciclo não é mais que uma sequência de eventos semelhantes que, de forma circular ocorrem numa determinada ordem. Mas não só de inícios e fins vivem os ciclos, todos têm um princípio, meio e fim.

No início de um ciclo, há acontecimentos que vão ser desafiantes entender. No mais pequeno gesto se inicia um ciclo, no mais pequeno pensamento. Quando conheces alguém e, involuntariamente, quase sem conseguires conter, pensas “quero estar com esta pessoa”, sem perceberes, deste início a um novo ciclo. Pensaste em começar um novo hábito, em que sais do sofá e, finalmente, vais respirar fundo no meio da natureza. Esse é o início de um novo ciclo.

O meio é como se fosse a distância do fio de pesca: sabes quantos metros lá estão, mas não sabes a velocidade em que o vais usar, nem sabes quando vai acabar.

O fim, é o fechar. Esse sim, é pesado e leve, é bonito e feio, é preto e branco, é intenso e monótono, é luz e sombra. No momento em que permitiste que uma nova pessoa olhasse para ti, iniciaste um ciclo e, ao mesmo tempo, fechaste outro em que não te permitias que te vissem. No momento em que decidiste ir respirar o suspiro da natureza, fechaste o ciclo da exaustão do sedentarismo.

Esta é ambiguidade dos ciclos, depois do término vem, quase instantaneamente, um novo começo, e muitas vezes sem nos apercebermos. O fechar tem sempre algo de bom e de mau. Ao longo da vida, nas mudanças a que somos expostos, algumas são conscientes e outras inconscientes. Nem sempre são agradáveis, mas todas são necessárias.

Fechar um ciclo, pode significar mais do que terminar um momento ou uma experiência menos boa. Pode também ser o fim de algo bom, pleno e feliz. O seu fim tem a capacidade de deixar um rasto de desamparo. Estes são os ciclos que não queremos que acabem. Mas, recuando novamente ao significado que tínhamos rotulado na prateleira, é um fenómeno "periódico", é um "acontecimento", é algo que eventualmente irá acabar.

Praticar a mudança e o desapego são exercícios difíceis para o ser humano. É necessária uma força interna que, muitas vezes escondida e aconchegada, não sabíamos que tínhamos. Ainda que possam ser ciclos subtis, isso transforma-nos, o que não é necessariamente mau. São momentos de construção interna, de introspeção, de análise, de paz, de desassossego e de caos. Assim, um novo ciclo é iniciado, em que já não és a mesma pessoa que fechou o anterior.

Por vezes, o desafio é conseguirmos ser maduros o suficiente para nos apercebermos de quando estamos na maré que vai encerrar o ciclo, esperar pela onda certa e apanhá-la até à praia. Secar, vestir e seguir viagem ainda com os pés molhados e carregados de areia. Cada grão e gota que segue colada ao corpo, representa as marcas deixadas pelos ciclos anteriores e, por mais que os tentes limpar, vão ficar contigo para o resto da vida. São a essência do novo ciclo, com alguém ou com algo, também ele, cheio de grãos de areias que não foram possíveis limpar.

Constrói-te, vive e respira, nunca esquecendo que vais ter de encerrar mais ciclos do que esperas. Aproveita e reflete sobre o quão bom foi o início e o quanto te perdeste no meio, para que, quando chegares ao fim, saibas exatamente o quanto cresceste e o quanto significou para ti. Desperta a garra que confortavelmente repousa em ti, e abraça a mudança. Aceita tomar as rédeas, se não as tens já, e caminha de forma imponente para este término. Lembra-te, vai ser bom e mau, sorridente e choroso. Aceita que vai ser de uma destas formas, ou de todas estas formas.

O que quer que faças, não percas o foco do que é melhor para ti. Liberta-te dos medos e inseguranças e abraça o que o ciclo da vida tem para ti.

-Sobre Sofia Dinis-

Sofia Dinis é tatuadora, fotógrafa, designer, ilustradora, criadora de conteúdos e muito mais. Sofia Dinis é artista.
Nasceu e cresceu em Albufeira, mas foi em Lisboa que floresceu. Mudou-se para a capital para tirar a licenciatura em design de comunicação, no IADE, e foi nesta cidade que construiu todos os seus projetos. Teve um espaço de estética e deu formação na área, trabalhou como fotógrafa e designer e abraçou a tatuagem como hobby.
Em 2017, viu-se obrigada a repensar o seu percurso profissional quando fechou o seu espaço de estética e design e regressou a Albufeira. No meio do caos, decidiu que queria ser tatuadora a tempo inteiro e a 15 de fevereiro de 2018 regressou a Lisboa. Dava assim o primeiro passo para se tornar a tatuadora que toda a gente conhece.
O projeto SHE IS ART nasceu em pleno coração de Lisboa, numa casa de Air BnB de uma amiga. Durante duas semanas, Sofia tatuou 2 amigos e fotografou os trabalhos de forma a parecer que tinha um extenso portfólio. Desenhou o seu Instagram, desenvolveu a marca e, duas semanas depois, começou a receber vários pedidos para tatuar, não tendo parado desde então. Em menos de um ano, tinha mais de 50 mil seguidores no Instagram e uma lista de espera de 8 meses.
A marca SHE IS ART não parou de crescer ao longo destes 3 anos. Neste momento, é muito mais do que um projeto de tatuagens, é um projeto artístico. O ano passado, Sofia lançou o seu primeiro produto, o Diário 2021. Este ano, tem já planeados novos projetos para apresentar ao público. Afinal, criar faz parte da sua essência.

Texto de Sofia Dinis
Fotografia cortesia de Sofia Dinis
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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