Cifrão, juntamente com Noua Wong e Vasco Alves, inauguraram, em outubro, a academia de arte urbana “Arcade Dance Center” que, mais do que uma escola de dança, é um sonho realizado, um projeto de vida.

No coração de Benfica, dentro do Jardim do Palácio Baldaya, é um hub criativo para novos artistas e veteranos. É um espaço artístico que vai abranger não só a dança, mas também música, vídeo, fotografia, artes plásticas e medicina chinesa.

Em entrevista ao Gerador, Cifrão refletiu acerca do projeto “Arcade Dance Center” e sobre o poder da dança.

Gerador (G.) – Gostava que me explicasses, um pouco, o que é a academia de arte urbana “Arcade Dance Center”.

Cifrão (C.) – A Arcade Dance Center é mais do que uma escola de dança. É um hub criativo. É um local que eu, o Vasco e a Noua criámos para os bailarinos poderem ter um espaço onde pudessem ter aulas, e também onde pudessem fazer algumas criações. Nós sentimos muita falta de locais onde os bailarinos tenham as condições ideais para fazer as criações de dança para depois poderem apresentar. E nós aqui reconstruímos isso. Reconstruímos uma blackbox com luz, com espelhos, com uma estrutura que permite aos bailarinos criar espectáculos. Para além disso, nós também trabalhamos com uma equipa de audiovisual multipictures que faz fotografia e vídeo, e que faz esta fusão com os nossos bailarinos e connosco próprios para criar vídeos, filmes, para criar tudo o que envolva dança de uma forma mais visual.

Nós temos uma forte componente online, então utilizamos muito o vídeo para poder passar as nossas mensagens. Depois, temos uma agência de bailarinos, aqui dentro, onde trabalhamos as carreiras dos bailarinos em função daquilo que querem fazer profissionalmente. Se querem fazer espectáculos, nós ajudamos a preparar para uma carreira mais comercial, nós tratamos disso.

Depois, temos também uma editora de música, ou seja, temos um estúdio onde captamos/gravamos artistas novos e trabalhamos os artistas para saírem para o mercado. Fazemos o acompanhamento desde o início.

Nós vamos ter mais projetos agora a sair, mas ainda não o estruturamos fazer. Depois, temos um consultório de medicinas alternativas, ou seja, tens medicina chinesa, tens uma data de medicinas alternativas. É um conjunto de pessoas que trabalha o corpo. Elas sabem exatamente as mazelas que os bailarinos têm, e estão cá também connosco.

É um hub de criação que depois se espalha em áreas diferentes.

Fotografia disponível via facebook "Arcade Dance Center"

(G.) – E como surgiu a ideia da criação da academia?

(C.) – Eu e a Noua já falamos numa escola de dança há muito tempo. O Vasco é nosso amigo, mas também estávamos sempre a falar com ele sobre este assunto. Eu tenho uma banda com ele, por isso já há muito tempo que queríamos ter uma editora para lançar novos artistas, queríamos ter uma agência de bailarinos.

Então, foi uma coisa que foi sendo falada durante muito tempo. Durante dois, três, quatro anos. Depois, a grande base da escola de dança, nós por uma sorte gigante entrámos em contacto com a junta de freguesia de Benfica, e eu perguntei e expliquei que tínhamos um projeto nesta escola em que 10% estava reservado para bolsistas a miúdos de instituições que não têm possibilidades monetárias para pagar, ou que os psicólogos, e os psiquiatras que os acompanham acham que faz sentido para eles ter uma experiência de dança. Então, nós abraçamos estes miúdos para poderem privar este ambiente de escola de dança. E falámos sobre este projeto à junta de Benfica e eles disseram — ‘por acaso até temos um espaço que não está a ser utilizado, está abandonado’.

Nós viemos ver e isto era um pavilhão gigante, mas estava muito abandonado. Então, nós fizemos umas obras de raiz, e o mais engraçado disto tudo foi que só havia quatro pessoas que realmente percebiam de obras que eram os nossos anjos, e depois eram 20 bailarinos a construir, a pintar, a carregar entulho, sendo que só tínhamos responsáveis a comandar por cada área. Mas é bonito, porque foi construído pela comunidade dos bailarinos para os bailarinos. Eu tenho muito gosto em dizer isto, porque acho que é das coisas mais bonitas que pode acontecer, quando os bailarinos realmente se envolvem todos para criar um projeto para os bailarinos só pode sair uma coisa boa.

Mas, como te estava a dizer, este é um projeto que já estava na mente há muito tempo, mas que só se materializou quando falámos com a junta de freguesia de Benfica, e criámos aqui uma parceria com eles.

E agora estamos aqui num sítio lindo!

(G.) – Porquê na freguesia de Benfica? Existe alguma estratégia na localização? Pensas em levá-la a outras regiões de Portugal?

(C.) – Para falar verdade, nós queremos levar e já te explico como.

Para já, presencialmente a nossa grande fundação está aqui, nós temos um espaço amplo para trabalhar em condições. Claro que durante a covid nós temos o distanciamento, ou seja, temos uma sala para 50 pessoas que agora só dá para 25 pessoas. Temos de ter um espaçamento entre eles.

Como estamos a tentar levar este projeto para outro lado? De uma forma online. Nós estamos a tentar começar já com elas para a semana, e até já temos pessoal do Porto a querer aderir. Então, nesta primeira fase, nós vamo-nos espalhar online. Depois, fisicamente, vamos deixar acalmar isto um bocadinho da pandemia, e estar tudo mais seguro para nós começarmos a sair.

O projeto que temos aqui na freguesia implica muitas saídas para trabalhar com o pessoal de mais idade, com o pessoal mais novo, em comunidades mais desfavorecidas. Só que nesta fase ainda estamos muito contidos.

Fotografia disponível via facebook "Arcade Dance Center"

(G.) – O espaço é destinado a crianças, jovens e adultos. Acreditas que a dança tem o poder de chegar a todas as faixas etárias? Se sim, porquê?

(C.) – Na verdade, eu acho que a dança não tem idade. Quando tu és bebé assim que tu consegues mexer os braços, logo aí tu já consegues ter ideia que existe uma música e te consegues mexer. E depois a idade vai até onde o teu corpo permitir.

Eu trabalhei muitas vezes com o Alberto Rodrigues, que é o diretor da Apolo, das danças de salão. E as danças de salão têm um aspeto muito interessante. Elas têm faixas etárias muito mais velhas… Se eu te disser que há bailarinas de 70/80 anos a dançar maravilhosamente bem, há pessoas a competir ainda. A dança não tem idade. Toda a gente gosta de dançar seja em casa, profissionalmente, ou de forma amadora. Eu conheci muitas pessoas que não sabiam dançar, mas nunca conheci nenhuma que não gostasse de dançar ou de saber dançar. É uma coisa que fazes quando estás feliz, se estiveres triste é uma coisa que te vai deixar feliz.

O único impedimento que podes ter é o teu corpo não poder.

(G.) – Como vai funcionar a organização da academia face à pandemia?

(C.) – Toda a gente anda de máscara cá dentro, as aulas são com o distanciamento, nós temos marcas no chão para as pessoas respeitarem, a gente pede que as pessoas não tragam sapatos que sejam de rua, mesmo assim desinfetamos os sapatos à entrada, sempre desinfetar as mãos, e temos sempre muito cuidado. Caso haja algum caso, nós assinalamos as pessoas.

(G.) – Quais as expectativas do projeto?

(C.) – Nós temos tido muita sorte, porque assim que nós abrimos chegamos às 100.000 pessoas, que é incrível numa fase como esta. Portanto, nós ficamos muito confortáveis, porque já temos as aulas muito compostas.

Nós abrimos quatro horas diárias e temos quatro estúdios para podermos alternar e desinfetar todos os estúdios.

Mas estamos muito felizes. Temos uma adesão muito grande.

Fotografia disponível via facebook "Arcade Dance Center"

(G.) – O espaço reúne street dance, música, artes plásticas, audiovisuais e até medicina chinesa. No entanto, em conversa com a NIT afirmaram: “No futuro pode surgir outro tipo de atividades. Não há limites.” Que outros tipos de atividades gostavam de promover futuramente na academia?

(C.) – Nós queremos abrir isto para outros estilos de dança. Futuramente queremos trabalhar com o contemporâneo, com a comunidade mais velha, sendo que agora não o conseguimos, porque são o grande grupo de risco.

Nós vamos sempre fazendo coisas com a dança e com o próprio bailarino. Até esta parte social já está em grande andamento. Portanto, as pessoas podem esperar muito mais de nós. Assim que a pandemia acalmar ou passar nós vamos sair para a comunidade, vamos abraçar toda a gente, e vai haver dança aqui em Benfica até mais não.

(G.) – Para as pessoas que querem juntar-se a vocês, quais os passos a seguir?

(C.) – Basicamente, as pessoas podem ir ao nosso Instagram, Arcade Dance Center, onde podem ver qual as aulas que existem, informações sobre os preços, a localização. Isto é muito simples: é na rua principal de Benfica, no palácio Baldaya. Nós colocamos lá quase todas as aulas para verem como são as aulas. E, caso tenham alguma dúvida, liguem para o número que lá está.

Fotografia disponível via facebook "Arcade Dance Center"

(G.) – De um ponto de vista pessoal, sentes que o setor da dança é valorizado em Portugal?

(C.) – Não como deveria. Mas acho que a cultura, neste momento, está numa situação muito precária, não existem apoios para dar suporte realmente à comunidade artística que precisa. Ontem estava a ouvir o Álvaro Covões, que é o diretor do Everything is New, a dizer que há músicos a venderem instrumentos para poderem pôr comida na mesa. E os bailarinos não são diferentes. Não há espectáculos nenhuns. Os bailarinos já não sobem a um palco há muito tempo, quase um ano. Eu prevejo que muitos dos artistas vão deixar de ser artistas, e vão ter de arranjar outra ocupação.

(G.) – Para as pessoas que, tal como tu, anseiam seguir uma carreira nesta área que conselhos lhes deixas?

(C.) – Trabalhem. Se vocês trabalharem muito, estudarem muito, e se forem realmente muito bons naquilo que fazem, toda a gente vai querer trabalhar com vocês. Toda a gente vai querer ter aulas com vocês.

(G.) – Há algum projeto futuro que ainda gostasses de destacar?

(C.) – Não, a grande base do nosso projeto é a escola de dança, mas nós não vamos parar aqui. Nós temos muitos projetos, nós vamos querer abraçar os bailarinos a 360º, criar as condições que nunca existiram para os bailarinos. Já são muitos anos de carreira entre mim, a Noua e o Vasco, então, nós sabemos quais são as fraquezas do mundo da dança, pelo que queremos colmatar isso com o nosso projeto.

Esperem muito mais de nós, porque isto só vai parar quando cada um de nós tiver as condições ideais para continuar a fazer o seu trabalho. Nós somos um país que tem muita garra e muito coração. Só precisamos das condições.

Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via facebook "Arcade Dance Center"