Do olhar incauto de Oliveira, à câmara transportável de Campos e à visão poética de Reis e Cordeiro, o cinema documental português é um espelho do passado que se transportou para a contemporaneidade. Na época em que a distinção entre ficção e documentário é cada vez mais discutida, quisemos aprofundar o nosso olhar sobre o segundo formato, que tem tido uma contínua importância e presença no retrato das realidades portuguesas.

É a partir desta premissa que, no número 29 da Revista Gerador, nos propusemos a falar do percurso do documentário na história do cinema português. Uma odisseia que começa ainda no século XIX, mas que ganha relevância na primeira metade do século XX pela mão de criadores visionários, cujo nome está para sempre eternizado nas imagens que nos deixaram.

Através da memória, tratada do ponto de vista familiar; da vida de um pescador nos subúrbios de Lisboa; ou pela fuga do documentário face a temas exclusivamente portugueses, seja pelo retrato das tradições de uma aldeia indígena localizada no interior do Brasil, ou pelo quotidiano de três japonesas que mergulham em apneia para apanhar pérolas, o cinema documental é hoje um espaço híbrido ocupado por vozes cada vez mais jovens neste panorama. Neste último artigo, em que falamos de alguns dos mais significativos documentários realizados ao longo do tempo, destacamos por isso o olhar de cineastas como Catarina Mourão, Cláudia Varejão, Leonor Teles, João Salaviza e Renée Nader Messora.

A Toca do Lobo, Catarina Mourão (2015)
Em A Toca do Lobo, Catarina Mourão redescobre o seu passado familiar, através da figura do seu avô, o escritor português Tomaz de Figueiredo. O momento decisivo para a sua realização aconteceu com a descoberta de um programa de televisão nos arquivos da RTP, em que o escritor, que Catarina nunca conheceu, parece falar diretamente com a neta ainda não nascida à data da sua morte.

Neste documentário de carácter intimista e confessional, concretiza-se um olhar que abre as portas secretas de uma vida que deixou apenas o trabalho público deste escritor para a memória dos seus filhos e dos seus netos, tal como de uma família que se viu separada pela sua morte e marcada pelo dia-a-dia de um país ditatorial e fechado sobre si próprio.

Por todos esses elementos, A Toca do Lobo supera o seu registo autobiográfico, revelando tabus e não-ditos de uma vida portuguesa sob a ditadura, bem como as suas consequências no presente, de uma família relutante em relação a um melhor entendimento do seu passado.

Ama-San, Cláudia Varejão (2016)
Nos mergulhos destas mulheres, reside uma tradição que dura no Japão há mais de 2000 anos. E desta forma, as chamadas Ama-San conquistaram o estatuto de colectoras e cuidadoras, questionando não só o papel da mulher na sociedade oriental como a própria natureza feminina.

É a partir de três destas mulheres – Matsumi, Mayumi e Masumi – que se constrói o filme de produção luso-suíço-japonesa, onde a cineasta acompanha o quotidiano das mesmas, que há 30 anos mergulham juntas numa pequena vila piscatória da Península de Shima. Rodado entre o silencioso mundo subaquático e a vida rural no exterior, este olhar resulta num retrato único de uma tradição que se prevê extinto num futuro não muito longínquo.

Ama-San estreou no Festival Visions du Réel, em Paris, e ganhou o prémio de Melhor Filme da Competição Portuguesa no Doclisboa 2016.

Terra Franca, Leonor Teles (2019)
Rodado entre 2015 e 2017, este documentário segue a vida de um pescador de Vila Franca de Xira – terra natal da realizadora Leonor Teles, que aqui se estreia nas longas metragens – e as suas ligações ao rio Tejo e à família. 

O documentário regista um período de vida de Albertino Lobo, pescador que todas as manhãs vai para o Rio Tejo, e que é o motor desta narrativa. As rugas na cara de Albertino contam histórias únicas e à medida que as conhecemos, conhecemos também a sua família, respetivas aspirações e tensões.

Terra Franca estreou mundialmente no Festival Cinema du Réel, em Paris, onde recebeu o SCAM International Award, um dos mais conceituados prémios da sociedade francesa de autores, e em Portugal foi apresentado pela primeira vez no DocLisboa, tendo recebido o Prémio Escolas da Competição Portuguesa, no Porto/Post/Doc e no Caminhos do Cinema Português, onde recebeu os Prémios de Melhor Longa-Metragem de Ficção e D. Quijote do júri FICC.

Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, João Salaviza e Renée Nader Messora (2019)
Ihjãc tem 15 anos e é um dos indígenas krahô do norte do Brasil. Perdeu o pai e é visitado pelo espírito dele, o que o leva a preparar uma festa de fim de luto. Entre o documentário e a ficção, este filme de João Salaviza e Renée Nader Messora resulta do convívio de anos que os realizadores tiveram com esta comunidade indígena.

Neste trabalho, de olhar transcendente, evidencia-se sobretudo a viagem do índio pela ocidentalização da sua terra, num retrato que não é indiferente à própria imagem política e social do Brasil, fazendo com que Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos se torne numa espécie de manifesto ativista perante uma realidade bastante conhecida: a da extinção de certas tradições, nomeadamente das próprias tribos indígenas.

O filme de Salaviza e Messora é uma produção luso-brasileira que ganhou o prémio especial do júri na secção Un Certain Regard da edição de 2019 do Festival de Cannes e também recebeu os prémios de melhor obra de ficção e melhor fotografia no Festival de Cinema de Lima, no Peru.

Os filmes aqui destacados serviram de referência para a reportagem Cinema Documental: uma lente sobre as realidades portuguesas?, publicada no número 29 da Revista Gerador, disponível numa banca perto de ti ou em gerador.eu.

Todos os documentários de que te falamos hoje podem ser vistos na plataforma de streaming Filmin. Podes encontrá-los na Coleção Gerador, acompanhados de outros filmes que lançam diferentes olhares sobre a cultura portuguesa, reunidos pela equipa do Gerador.

Texto de Carolina Franco e Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Denise Jans disponível via Unsplash

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