Do olhar incauto de Oliveira, à câmara transportável de Campos e à visão poética de Reis e Cordeiro, o cinema documental português é um espelho do passado que se transportou para a contemporaneidade. Na época em que a distinção entre ficção e documentário é cada vez mais discutida, quisemos aprofundar o nosso olhar sobre o segundo formato, que tem tido uma contínua importância e presença no retrato das realidades portuguesas.

É a partir desta premissa que, no número 29 da Revista Gerador, nos propusemos a falar do percurso do documentário na história do cinema português. Uma odisseia que começa ainda no século XIX, mas que ganha relevância na primeira metade do século XX pela mão de criadores visionários, cujo nome está para sempre eternizado nas imagens que nos deixaram.

Numa série de artigos, que agora iniciamos, destacamos alguns o nome de alguns cineastas, tendo por referências alguns dos documentários mais marcantes que nos deixaram. Neste primeiro capítulo falamos dos fundadores Manoel de Oliveira e José Leitão de Barros, assim como de Fernando Lopes, cineasta que invariavelmente surge associado ao movimento do Novo Cinema.

Douro, Faina Fluvial (1931)
Em Douro, Faina Fluvial, Manoel de Oliveira eterniza nesta curta-metragem documental, as imagens de uma cidade marcada pela sua relação com o rio Douro. A partir deste princípio, o cineasta coloca em evidência As actividades que se desenrolam quotidianamente ao longo da margem direita do rio, demonstrando a circulação, a carga e descarga dos barcos, o rio e a sua ambiência, a ponte, os bairros onde vive a população trabalhadora, que retira o seu alimento da labuta fluvial. Durante algum tempo, o filme foi visto como um retrato demasiado focado na probreza da população portuense, sendo no entanto visto, posteriormente, com espelho próximo da realidade vivida à época.

Ala-Arriba (1942)
José Leitão de Barros é um dos principais criadores desta primeira grande geração de cineastas portugueses. Em Ala-Arriba, o realizador apresenta a sua primeira longa-metragem, que é simultaneamente a segunda obra sua no campo da antropologia visual e a terceira da sua trilogia sobre o mar. É a sua primeira docuficção, a segunda na história do cinema, depois de Moana (1926), de Robert Flaherty. No filme, entre a ficção e o documentário, desenrola-se o romance de um pescador da Póvoa de Varzim, um sardinheiro, com uma jovem. A história é marcada pelas diferenças sociais e pelo drama da falta de pescado.

O Pintor e a Cidade (1956)
Depois de alguns filmes que o tornavam já numa figura central do cinema português, sobretudo com Aniki-Bobó, de 1942, Manoel de Oliveira apresenta a cidade do Porto contrapondo a sua visão cinematográfica à do pintor António Cruz. Nos seus quadros, o pintor apresentava uma paleta de cor muito própria do Porto, a que Oliveira junta a sua visão de cineasta, resultando na criação de um documentário de referência do início do cinema colorido, tanto pela cor como pelo estilo.

Belarmino (1964)
Neste documentário de longa-metragem, Fernando Lopes apresenta-nos a figura do pugilista português  Belarmino Fragoso. É um dos primeiros filmes da geração do Novo Cinema português, movimento inspirado pela Nouvelle Vague francesa mas sempre fiel aos princípios do neo-realismo. Neste retrato ficamos a conhecer um pouco da vida deste antigo campeão de boxe, que depois dos seus momentos de glória, vive como um marginal, deambulando pela cidade de Lisboa, na qual trabalha como engraxador e colorista de fotografias.

Os filmes aqui destacados serviram de referência para a reportagem Cinema Documental: uma lente sobre as realidades portuguesas?, publicada no número 29 da Revista Gerador, disponível numa banca perto de ti ou em gerador.eu.

Texto de Carolina Franco e Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Denise Jans disponível via Unsplash

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