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Clara Leitão: “Acima de tudo, conto histórias através de imagens e trabalho com a minha imaginação”

São as histórias que lê e ouve, os sonhos que tem e as imagens que forma no seu inconsciente que inspiram Clara Leitão, artista que foi galardoada na categoria dedicada à ilustração na Mostra Nacional de Jovens Criadores.

Fotografia cortesia de MNJC

Nem é puramente designer têxtil, apesar de trabalhar com tecidos, nem se identifica como “totalmente ilustradora”, ainda que o desenho tenha uma presença forte no seu dia a dia. “Penso que o meu trabalho é híbrido”, sublinha Clara Leitão, que garante que, acima de tudo, quer contar histórias através das imagens que cria.

Em entrevista por escrito, a vencedora da categoria dedicada à ilustração da Mostra Nacional de Jovens Criadores (MNJC) fala sobre a sua linguagem artística, o papel da fantasia no seu trabalho e a imaginação, mas também sobre as dificuldades de ser artista em Portugal, um país onde ainda falta apoio e financiamento, no que à cultura diz respeito, alerta.

Gerador (G.) – Na descrição que faz do seu trabalho, enquanto artista, diz que é frequentemente inspirada pelas histórias que lê. Qual a sua história favorita e de que modo tem presença no seu trabalho?

Clara Leitão (C. L.) – Quando era pequena, os meus pais ofereceram-me o livro Contos Tradicionais do Povo Português, de Teófilo Braga. Lembro-me de o ler com alguma dificuldade, pois, embora se tratasse de contos, a escrita não era propriamente infantil. No entanto, compreendia tudo aquilo que dizia respeito a princesas, feitiços, animais falantes e bosques mágicos. Eram narrativas que estimulavam muito a imaginação. Já em crescida, voltei a ler esse livro e encontrei uma série de nuances que antes não me eram acessíveis, coisas até muito adultas. Outra história que ficou gravada na minha memória é a da princesa e a ervilha. Também me lembro de adorar ler A Fada Oriana, na escola. Os filmes antigos da Disney, em especial a Pequena Sereia e a Bela Adormecida também estão gravados no meu imaginário. Penso que o que é comum a estas histórias, e que pode ter influenciado o meu trabalho, é a sua riqueza visual. Os contos populares e os contos infantis são fontes infinitas de imagens. 

G. – E como decorre hoje, regra geral, o seu processo artístico?

C. L. – Gosto de trabalhar sozinha e de uma forma que considero lenta, porque gosto de dar muita atenção ao pormenor. Não me consigo sentar à frente do papel e fazer “só” uns rabiscos. Tenho procurado agilizar o meu processo para conseguir ganhar algum ritmo de produção, mas há coisas que não se podem acelerar. Creio que existe uma urgência geral em terminar trabalhos rapidamente e publicar no Instagram, por exemplo. Tento lutar contra isso, procurando um equilíbrio. O meu processo artístico tem duas vertentes: o desenho/pintura sobre papel e os têxteis. Geralmente, tenho uma imagem na cabeça e tento agarrá-la fazendo pequenos esboços. Se for um trabalho em papel, faço o esboço final já mais detalhado e, depois, passo para a pintura, que é a minha parte preferida e mais desafiante. Se for um trabalho em tecido, normalmente projeto formas e imagens mais simples, e a complexidade vem da parte técnica. Em ambas as vertentes, a pintura vai sendo construída por camadas e há muito espaço para explorar cores, texturas e diferentes materiais. 

G. – Como descreveria o seu trabalho?

C. L. – Hoje estou menos preocupada em definir o que é o meu trabalho do que quando estava a estudar. Sou formada em design têxtil, mas nunca me identifiquei realmente como designer. Faço ilustrações, mas também não me identifico totalmente como ilustradora, porque muitas vezes faço trabalhos que existem por si só, sem estarem ligados nem a um produto, nem a uma história concreta. Penso que o meu trabalho é híbrido. Pode assumir diversos suportes e formatos. Acima de tudo, conto histórias através de imagens e trabalho com a minha imaginação. 

G. – As suas ilustrações têm um cunho forte de fantasia. O que a faz sonhar?

C. L. – A inspiração pode ser uma surpresa. Por exemplo, no ano passado, fui por acaso ver uma exposição de pintura à Gulbenkian com obras do Jorge Queiroz, um pintor que eu não conhecia. Fiquei maravilhada e senti-me como se estivesse a descobrir um tesouro. No Ano Novo, fui dar um passeio a uma serra perto de onde moro e havia uma casinha pequenina no meio da floresta que era a ruína da casa de um eremita. Parece que estas coisas vão entrando numa espécie de “processador de imagens” e é daí que retiro as ideias. Fora de mim, sonho com um mundo mais lento, menos consumista, mais dedicado às coisas sensíveis: à arte, à música, à contemplação, ao cuidar da natureza.

"Travessia" é um trabalho que, segundo a autora, ilustra a longa jornada de uma rapariga. Fotografia de Clara Leitão via Instagram

G. – Em várias das suas peças, a cor é um elemento muito presente. Qual diria que é o papel da cor na sua expressão artística?

C. L. – A cor surge de forma orgânica. Posso ter uma ideia geral das cores que quero usar em determinado trabalho, mas não faço estudos. Gosto de usar cor, porque acho que aí é que está a magia, é o que dá vida aos meus desenhos. Nos trabalhos de pintura ou estampagem em tecido, a cor requer processos muito metódicos. Quando estava a estudar, costumava restaurar peças de um amigo ceramista. Fazia as cores com tinta acrílica e tinha de ter muita atenção para chegar ao tom mais próximo possível da cerâmica original. Esses processos metódicos ajudaram-me a desenvolver sensibilidade para a cor. 

G. – E o humor, que presença tem no seu trabalho?

C. L. – O humor nunca é muito pensado ou intencional, e, se surgir, é na parte mais inicial e exploratória de fazer esboços e ter ideias. Nessa parte é que está o momento de brincar, que envolve sempre algum sentido de humor.

G. – Já disse que gosta da ambiguidade típica das fábulas. O que a seduz nessa dinâmica?

C. L. – Os contos não são só histórias sobre o bem e o mal. Têm uma série de simbolismos e nuances que podem ajudar-nos a compreender esta aventura de sermos humanos.

G. – Mas regressemos ao seu início. Como e quando é que a arte entrou na sua vida? Em criança, já era o que mais a interessava?

C. L. – Sim. Sempre gostei mais de fazer coisas com as mãos do que brincar com bonecas. Quando era pequena, adorava objetos em miniatura. Recortava bonecas pequeninas em papel e fazia-lhes roupas. Também gostava de fazer objetos quotidianos em miniatura com recortes e colagens, como detergentes da loiça, livros, pacotes de bolachas e batatas fritas. Adorava desenhar pormenores, roupas e escrever histórias. Como tenho uma grande diferença de idades em relação aos meus irmãos, brincava muito sozinha. Nos fins de semana e nas férias passávamos no Alentejo, lembro-me de inventar mundos mágicos habitados por fadas e outros seres.

G. – Fez uma licenciatura na Escócia. Estudou têxteis. Que memórias traz desses tempos e como impactam o seu trabalho atual?

C. L. – Os quatro anos que passei na Escócia, exceto o período de intercâmbio, foram solitários e de trabalho muito intenso. Aprendi muita coisa. Especializei-me em Estamparia, mas, no primeiro ano, também aprendi tricô à máquina e tecelagem. Tecnicamente foi muito importante e com aquilo que aprendi consegui montar um pequeno ateliê de estampagem têxtil em casa. O curso era muito autogerido, aprendi a ser organizada e a cuidar da apresentação dos trabalhos. A parte criativa estava mais condicionada por ser um curso com um foco comercial, o que por vezes era frustrante. Mas procurei formas de, no final, fazer aquilo que eu queria, que era pintar em papel e trabalhar com os tecidos de forma experimental. 

G. – Durante a licenciatura, estudou também um ano na Índia. Como foi a experiência?

C. L. – O semestre que passei na Índia foi inesquecível. Ir de um país cinzento e organizado, como a Escócia, para um lugar tão distante, caótico e colorido foi um choque necessário. Ao início, o estímulo era tão intenso que nem conseguia dormir. Por vezes, tínhamos de fechar as janelas da sala de aulas porque podiam entrar macacos, que estavam por todo o lado no campus. Fiquei a saber que o conhecimento têxtil indiano é imenso, muito complexo e tão variado como as diferentes regiões do país. Tive também a oportunidade de ver como os meus colegas trabalhavam, que é totalmente diferente, com uma grande atenção ao detalhe e à precisão. Basta ver a pintura indiana tradicional, em que cada folhinha de uma árvore é única e importante. 

G. – Falemos do presente. Depois das vivências internacionais, regressou a Portugal. Porquê?

C. L. – Sinto-me numa fase mais construtiva da minha vida, de pôr em prática as coisas que absorvi e as ideias que tenho. Para isso, preciso de alguma estabilidade, de não andar sempre de um lado para o outro. Quando regressei, sentia-me sozinha, porque não estive cá a experiência da faculdade. Então, tenho andado à procura do que é que significa estar em casa. Há quase dois anos mudei-me para o Alentejo com o meu companheiro, e tem sido possível fazer muita coisa. Não sei dizer exatamente porque é que regressei a Portugal. Acho que foi um misto de saudades de casa e do sol, e uma vontade de poder construir uma boa vida, no lugar que sinto que me é mais próximo.

G. – Segundo a sua experiência, como é ser uma jovem artista em Portugal?

C. L. – Creio que faltam apoios à cultura, e em particular aos jovens criadores. No ano passado, fui fazer um projeto à Dinamarca, e é impressionante o contraste que existe, no que toca a financiamentos. Tinha uns vizinhos que queriam construir um observatório para ver as estrelas no seu quintal e conseguiram um financiamento municipal para isso. Cá seria impossível, ou muito difícil. Por outro lado, não sei se será só em Portugal, mas, na área das artes plásticas, sinto uma aversão a validar tudo aquilo que não corresponda a uma certa linguagem estética ou conceptual. Parece-me tudo um pouco elitista, encerrado em grupos fechados. Não basta fazer um trabalho com qualidade para se ter destaque. Aliás, muitas vezes isso parece nem ser necessário. Talvez seja um problema global, mas sinto que a arte deveria estar mais próxima das pessoas. Isso significa criar apoios aos quais os artistas consigam verdadeiramente aceder, haver mais exposições, museus e espetáculos gratuitos, mas também passa pelos próprios artistas descerem um bocadinho do seu pedestal de códigos e conceitos, que são inacessíveis para a maioria das pessoas.

G. – Venceu a categoria dedicada à ilustração da Mostra Nacional de Jovens Criadores. Qual a importância para si de ter sido reconhecida nesse âmbito?

C. L. – É muito bom ver o meu trabalho reconhecido. Estou grata por todo o esforço de divulgação que a MNJC tem feito, porque sozinha é muito mais difícil projetar-me. É, sobretudo, uma motivação para continuar e fico muito contente que o meu trabalho possa chegar a mais pessoas. Tenho esperança de que isso me permita aceder a novas possibilidades e continuar a desenvolver a minha linguagem. 

A obra que mereceu a Clara Leitão a sua distinção mais recente. Fotografia cortesia de MNJC

G. – Fale-me da sua Lobacobra, a peça que lhe mereceu essa distinção.

C. L. – A Lobacobra é uma pintura sobre tecido, que ilustra um ser inventado. Este ser, uma loba aterradora de dentes afiados, é também uma fonte onde três pessoas tomam banho. Na barriga tem um homem, que pode ter sido engolido ou que poderá estar para nascer, e a cauda é uma cobra. É uma espécie de figura mitológica, estranha, mas simpática, assustadora e cómica. Houve um processo de testagem das cores antes de fazer a peça final, que envolve a fixação dos pigmentos nas fibras através de vapor. Fiz tudo isso no meu ateliê, onde tenho uma versão caseira da máquina que, num contexto industrial, faria esse processo de fixação. Os triângulos costurados que contornam a peça são inspirados nos têxteis alentejanos da minha avó e bisavós, como colchas ou taleigos, que tinham muitas vezes esse acabamento a toda a volta.

G. – Estamos no primeiro mês do ano: tem um desejo para si para 2023 e outro para a comunidade artística portuguesa?

C. L. – Em 2023, espero poder continuar a criar com liberdade. Desejo o mesmo a todos aqueles que trabalham na cultura em Portugal, e que nos sejam proporcionadas cada vez mais razões para ficar.

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