Abrir o Instagram e saltar para o universo da ilustradora Clara Não é encontrar um mosaico das camadas da vida que ora são silenciadas pelos outros, ora por nós mesmos. O período, os pêlos corporais, as estrias, o assédio e a desigualdade estrutural estão lá. A precariedade, a tristeza e a indecisão também. Todos os temas deste mosaico atualizado ao ritmo da vida acabam por ir ao encontro de um ponto comum: aprendermos a ouvir-nos e aceitar-nos. 

Clara nem sempre consegue dizer “não”, mas o trabalho que cria — seja em que media for — é um registo de resistência. Neste processo de constante aprendizagem consigo mesma e com todos os que vão aparecendo no seu caminho (ou nas mensagens diretas do Instagram), expressa o que vai na sua alma mas que se liga em fios invisíveis à alma de outras pessoas. Na procura de um espaço de reflexão aberto, as suas ilustrações tornam-se diálogos que se querem, também eles, resistentes ao esquecimento que o tempo pode trazer a determinados assuntos. 

Entre os portugueses que integram a Geração Z, as palavras desenhadas por Clara circulam como se de um aviso de “não estás sozinhx” se tratassem. As partilhas nas stories, o tag feito àquela pessoa que nos entende, ou simplesmente a partilha por mensagem privada vão difundindo um debate que Clara pretende que seja amplo. “Não precisamos de concordar todxs uns/umas com xs outrxs, mas sim de ouvir a perspetiva de cada um com respeito”, reflete.

Autora do livro Miga, esquece lá isso!, é uma das vozes da sua geração e do agora, mas também reflete o Mundo como este já se encontrava quando o foi conhecendo ao longo do seu crescimento.  Na semana em que integra o painel “Por onde passa o futuro da cultura em Portugal?”, no dia 18 de junho, às 17h00, no Festival Oeiras Ignição Gerador, Clara Não conversou com o Gerador sobre as linhas condutoras do seu trabalho — que, de alguma forma, formam um abraço que envolve a tristeza, mas recusam o “positivismo tóxico”.

Gerador (G.) — Vais estar na Oeiras Ignição Gerador num painel cujo tema é “Por onde passa o futuro da cultura em Portugal?”. Quando recebeste o convite, quais foram os primeiros tópicos que te vieram à cabeça?
Clara Não (C.N.) — O pensamento imediato foi a transformação que houve na Cultura em tempos de pandemia, e as consequências no futuro pós-pandémico (ainda à espera que chegue no seu todo). Relacionado com este tema, mas já presente anteriormente, temos o peso das redes sociais. Cada vez menos as gerações jovens vêem televisão, telejornais, etc. A informação é acedida através da Internet, com um maior foco nas redes sociais: vemos o que os outros partilham, e partilhamos o que vemos. A informação passa assim por um filtro de selecção de interligação de pessoas. Tal tem boas e más consequências: temos acesso livre a textos de várias perspetivas, e não só às que nos projetam na televisão; e temos também mais fake news. Mesmo assim, considero que o facto de termos várias vertentes dos problemas/acontecimentos à nossa disposição compensa, pois é extremamente benéfico para cultivar mentes capazes de criar a sua própria opinião e para dar palco às pessoas que vêm a sua voz reprimida nos media

Por último, e mais importante, pensei na chave do futuro da cultura em Portugal: Adaptação. 

G. — Exteriorizar o que muitas das vezes não temos coragem de dizer foi um dos fatores que fez com que o teu trabalho começasse a ser cada vez mais seguido e partilhado. Como é que percebeste que este era o teu campo de trabalho? Tinhas desde o início um espírito quase de missão, de fazer com que xs outrxs percebessem que não estavam sozinhxs, ou começou por ser algo puramente catártico?
C.N. — Tudo começou de uma forma muito pessoal. Eu não sabia como lidar com os meus sentimentos, por isso comecei a fazer ilustrações humorísticas, a ver se me ria da minha desgraça. Depois pensei que não poderia ser a única pessoa com aqueles problemas, então comecei a partilhar nas redes sociais (já tinha Instagram, mas partilhava coisas do dia a dia e trabalhos da faculdade, da altura). Rapidamente me apercebi de que não era só eu, era um conjunto crescente de pessoas a passar, ou que tinha passado, pelo mesmo, e que encontrou no meu trabalho representatividade. Assim, começou como algo pessoal, catártico, e acabou por criar uma comunidade de partilha. Já não sou só eu que partilho a minha experiência, são xs seguidorxs também também: abriu-se um espaço de discussão. Não precisamos de concordar todxs uns/umas com xs outrxs, mas sim de ouvir a perspetiva de cada um com respeito. Se assim o fizermos, aprendemos todxs.

G. — Explicaste numa entrevista ao Observador que o nome “Clara Não” surgiu primeiro de uma indecisão, e depois da possibilidade de brincar com frases como “Clara Não vai” ou “Clara Não gosta”. Aprender a dizer ‘não’ muitas vezes resulta de um processo que pode ser complicado internamente. Sempre foi fácil para ti dizer que não, quando o querias dizer?
C.N. — Nunca foi fácil para mim dizer que “não”. O meu próprio nome artístico tornou-se um lembrete constante do poder, e dever, que temos de dizer que “não” sempre que queremos, ou sabemos que o devemos fazer. Ainda hoje é uma luta constante. Muitas vezes, parece-nos mais fácil dizer que “sim” no momento a mais um pedido de alguém, do que criar aquele momento constrangedor da negação. Pensamos “dá menos chatice”, e retiramos a nossa vontade e bem estar totalmente da equação. O exercício que eu faço quando não tenho a certeza de que quero dizer que sim, é pensar: daqui a um mês ou dois, ou quando for a data para fazer o trabalho (por exemplo), serei mais feliz tendo aceitado ou rejeitado? Estou a dizer que “sim” porque também quero, ou unicamente para satisfazer a vontade de outra pessoa? Dizer que “sim” proporcionar-me-á bem estar? Quando fico na dúvida, falo com pessoas próximas de confiança. Quando continuo na dúvida, digo que não. “Mixed feeling is a no” (li isto algures, não me lembro de quem é, mas nunca mais me esqueci da frase). Poder dizer “não” é, muitas vezes, um privilégio, em questões de trabalho ou em questões familiares de cuidadores, por exemplo, não nos podemos esquecer. 

G. — Olhas para os diferentes meios em que podes expor –  através de publicações de Instagram, exposições e livros – de forma diferente, como se cada meio trouxesse, por si, uma leitura diferente? Ou acabam simplesmente por ser diferentes formas de expressar uma mensagem que se toca sempre?
C.N. — Cada forma de expor traz consigo um contexto diferente, com possibilidades de narrativas distintas e enriquecedoras. Não adaptar a forma de expressão aos contextos, seria desperdiçar oportunidades de criar diferentes mundos visuais a partir do meu trabalho. Não penso numa exposição da mesma forma como pensei o livro, ou penso um post de Instagram. A intenção base é a mesma, a pessoa que pensa é a mesma, mas os contextos abrem portas para diferentes abordagens. A mensagem vem sempre de mim, logo denota-se um fio condutor de pensamento, a forma como exponho as ideias é que varia. Um livro é algo bem mais pessoal: está fechado, compacto, e de fácil mobilidade. Uma exposição, como a própria palavra indica, expõe tudo às claras, tem um impacto público presencial, enquanto o livro tem uma forte componente de impacto pessoal. Já o Instagram, permite a interação entre pessoas, quer no próprio post, quer em partilhas, mensagens diretas, etc, de uma forma não somente oral, tendo assim um impacto público digital, no privado de cada umx. 

G. — Na tua conta de Instagram vais falando sobre questões do agora, como já aconteceu com a situação dos trabalhadores do serviço educativo de Serralves, por exemplo, mas também falas de temas intemporais como a presença de homens em fraldários. Sentes que o Instagram pode ser uma plataforma que potencie reflexão e debate?
C.N. — Sinto que o Instagram é um bom ponto de partida, potenciando, sim, a reflexão e debate. Claro que não podemos ficar por aí, mas apresenta o problema e abre discussão para que o assunto não morra e não seja esquecido rapidamente. Sinto muito que os assuntos importam durante 24h e depois aquele passa à história e vem outro. Felizmente, já vemos mudanças, em assuntos como o Feminismo, e ainda mais agora com a continuidade da discussão, extremamente urgente, à volta dos problemas do racismo. 

O meu objetivo é criar representatividade e levantar questões sociais importantes, que não têm o tempo de antena que deveriam ter. Não estou aqui para impor “verdades”, mas para expor realidades — sou uma pessoa individual com opiniões que considero informadas (e que me preocupo que o sejam).

G. — Numa altura em que esta plataforma perpetuava a construção de padrões de beleza e mostrava as vidas com filtros, tu já falavas de pêlos, menstruação, estrias ou suor. Sentes que ilustras a resistência?
C.N. — É uma óptima forma de pôr as coisas, obrigada. Ilustro, sim, a resistência de sermos todxs postxs em caixas, catalogadxs segundo uma lista limite de possibilidades. Estou farta do “parece mal”, do “mas porque não és como os outros?”, ou do “mas eles/elas assim não gostam de ti”. O que importa não é o que se parece aos outros, é o que se é. É essencial que percebamos que a igualdade está na aceitação da diferença, de nós para nós mesmxs, e de nós para os outrxs. Uma mulher ter pêlos não faz dela mais ou menos bonita/sexy. Um homem trans a dar à luz é normal: se tem os órgãos para o fazer, é normal que o possa fazer — só não está normalizado. E por aí fora… 

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Aquele lembrete que toda a gente sabe mas que acha que “uma vez não faz mal”. Então, a pílula/DIU/implante/injeção previne o bebé, o preservativo previne não só o bebé como as doenças sexualmente transmissíveis. (Um bebé sem contar, mas depois desejado, pode vir a ser uma coisa boa, uma doença não.) “Eu conheço-o/a, sei com quem ele/a esteve”. Tá tudo, mas sabes com quem é que as pessoas com quem ele/ela esteve tiveram? Pois. É uma rede! Por isso, por favor, protejam-se, e vá lá, façam análises regulares, de sangue e papas-nicolau. Mais umas coisas: sexo oral também transmite doenças, daí as análises também; se vocês e o vosso parceiro decidirem não usar mais preservativo, façam ambos análises e mostrem um outro (confiança aqui é mostrar, não é “acreditar que está tudo bem”); e mulheres, se tiverem relações sexuais sem preservativo e andarem a tomar a pílula mal, tirando o seu efeito, ou neste contexto o preservativo romper, se tiverem possibilidade, no prazo das 72 horas, quanto antes melhor, podem ir ao ginecologista, que dá para ver na ecografia intra-uterina se a pílula está a fazer efeito (digamos que fecha a passagem, corta o caminho do espermatozóide, e dá para ver isso fisicamente). As pílulas do dia seguinte têm efeitos secundários super fortes, mas se tiver de ser, é. Cuidem-se, que ninguém o faz por vocês. E divirtam-se, amem-se, aumentem aí a dopamina e os movimentos de anca 👉🏻👌🏻o murro é um murro psicológico, porque violência não é aceitável quer de homem para mulher, quer de mulher para homem #claranao #illustration #sexlife #preservativo #sexo #comic #bd #sketchbook #sketch #selfcare #sexpositivity #takecare

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G. — A ideia de solidão ou o desgosto amoroso também são temas que abordas com frequência. É importante abraçar a tristeza e vê-la como algo natural, que faz parte da vida?
C.N. — O positivismo tóxico é algo que me preocupa. É importante abraçarmos os sentimentos, permitirmo-nos a sentir. Se eu estou triste/ revoltada, devo perceber porquê e trabalhar esse sentimento, em vez de o mascarar. Os nossos sentimentos são reações; ou seja, algo esteve, ou está, na sua origem. Se não percebermos a origem, não podemos perceber o sentimento. Quando não o trabalhamos, ele fica ali a remoer, podendo tornar-se em algo muito maior e assustador do que era inicialmente. A tristeza é algo natural. Se uma coisa má me acontecer e eu não ficar triste, isso sim não é normal. Eu teria medo de alguém que dissesse que nunca se sentiu triste na vida. 

G. — A escrita e a ilustração andam constantemente de mãos dadas no que crias. Que importância é que a palavra tem, para ti e no teu trabalho?
C.N. — A palavra tem importância para mim em relação ao desenho, até ao ponto em que para mim escrever é desenhar (não é só para mim, há outros pensadores e investigadores que abordam a questão). Uma grande parte da minha tese de Mestrado foi dedicada à escrita, sendo que a tese em si é sobre a relação fabular entre Desenho e Escrita. Honestamente, encontrei no Mestrado uma “desculpa” para poder passar imenso tempo a explorar a relação da escrita com a ilustração. Neste processo, tornou-se pertinente perceber o ato de escrever, não só pelo estudo da memória, mas também pelo movimento físico de escrever. Tendo em conta que escrever é uma memória automática, não tinha como conseguir perceber conscientemente o movimento do meu corpo e da minha mão direita a escrever. Assim, foi necessário ensinar a minha mão esquerda a escrever. Por forma a espelhar ao máximo a experiência da mão direita a escrever, usei o mesmo método de aprendizagem com a mão esquerda. Entrei em contacto com a minha Professora da Primária, Professora Ana Joaquina Martins, que me informou de que o método utilizado tinha sido o de Jean Qui Rit. Um dos fatores interessantes neste processo é o todo; é ligar música, gestos, poemas e histórias a cada letra do alfabeto. Toda a minha forma de pensar artisticamente fez mais sentido quando soube disto — antes era uma ligação inconsciente, que agora é consciente e explorada.

Antes do Mestrado, estudei também Escrita Criativa em Erasmus, para além de Design e Ilustração. Toda esta pesquisa fez com que eu continuasse a desenvolver a ligação entre ilustração e escrita autonomamente. Regra geral, penso sempre na ideia que quero passar, nas palavras, na mensagem, e depois interligo, se for o caso, com uma perspetiva de ilustração. Tento sempre dar várias camadas de entendimento ao trabalho final. 

G. — Além do trabalho que desenvolves sozinha, tens colaborado com outras pessoas e entidades, como aconteceu com o  coletivo PELE. Estes laços que foste criando foram importantes para gerar uma troca de saberes e para, ao mesmo tempo, chegares a lugares menos óbvios?
C.N. — Quando me convidaram para ser a ilustradora do projeto Enxoval — Espaço e Tempo de Resistência, do coletivo PELE, fiquei superfeliz, pelo objetivo do projeto e pela troca de saberes que gera. É um projeto feminista intergeracional, transdisciplinar e multiterritorial, que cruza grupos comunitários do Porto e Amarante. Assim, promove um diálogo muito rico, pela suas interseções de saberes de diferentes gerações em vários contextos. Uma vertente do ENXOVAL é a criação de uma coleção de fanzines, intitulada “As Bravas”, em que damos a conhecer histórias reais de mulheres reais que inspiram. Ilustrar a vida de pessoas que marcaram a vida de tanta gente, e que assim podem marcar a vida de muitas mais, tem sido um processo muito enriquecedor. Para além disso, todo o projeto tem o envolvimento de pessoas superativas e com ideias que enriquecem o mundo pela igualdade, pela presença, pela ação, que me fazem chegar a lugares menos óbvios de pensamento, mas tão necessários.

G. — Esta lógica de partilha, como tens com o PELE, lembra-me o conceito de sororidade e um post que fizeste uma vez sobre mulheres que se vêem umas às outras como competição — tema de que já falaste várias vezes, aliás. Achas que no circuito artístico se caminha, cada vez mais, num sentido de entreajuda e menos de competição, ou pelo contrário?
C.N. — A soridade é mesmo essencial para o Feminismo funcionar. Há competição boa e competição má. A competição profissional pode ser extremamente saudável, no sentido em que nos puxamos umas às outras para fazer melhor, para querer ser melhores profissionais. Como eu disse, é puxarmo-nos umas às outras para cima, e não rebaixarmo-nos umas às outras. São sentidos totalmente contrários. Em questões pessoais de competir pela atenção dos homens, não encontro nenhuma vantagem, pois estamos a tornar a luta pela igualdade ainda mais difícil. As mulheres têm de se unir para combater a desigualdade social de género, e não combaterem umas contra as outras. A competição não saudável entre mulheres só dá mais espaço para que a força machista se propague. Tenho sentido uma maior entreajuda no circuito artístico entre mulheres. Se queremos todas o nosso espaço é urgente que lutemos juntas. As pessoas têm de perceber que não é uma questão de ser “a melhor” ou “o melhor” numa área, é uma questão de se ser pertinente e necessárix. 

G. — Aceitarmo-nos a nós mesmxs pode ser o primeiro passo para viver a vida com mais humor?
C.N. — Sim, sem dúvida. Por outro lado, viver a vida com mais humor pode ajudar a que nos aceitemos a nós mesmxs. É também importante distinguir Aceitação de Positivismo. Se eu tiver um problema e andar a mascará-lo com positivismo (como se tudo fosse ficar bem por magia), não fazendo nada para o resolver ou lidar com o problema, ele só se prolonga. 

É essencial que nos aceitemos como somos, percebamos o que queremos mudar e como o poderemos fazer. Se tens vontade de ser melhor, estás no bom caminho! A partir do momento em que aceitamos a nossa condição humana, conseguimos viver a vida com mais humor (é um processo contínuo), com mais tranquilidade. Percebemos facilmente os problemas que são realmente essenciais, e aqueles em que não devemos gastar a nossa energia de preocupação. Acabamos mesmo por conseguir pensar nos nossos problemas com humor, o que os relativiza — é um exercício que tento fazer constantemente.  

Uma vez, quando fui a uma consulta de rotina, o médico de família fez uma analogia muito pertinente: a ansiedade existe para nos fazer agir em situações de perigo; o problema é quando um miar de gato nos traz tanta ansiedade como um rugido de tigre. Temos de saber distinguir os nossos problemas-miares-de-gato, dos problemas-rugido-de-tigre, e ajustar a nossa energia e preocupação. Adicionando o fator de humor, é a diferença entre veres uns pêlos da tua sobrancelha com uma direção totó e te rires (quer vás arranjar depois, ou não), ou ficares superstressada com isso e ires logo comprar um gel de pentear sobrancelhas, e pesquisares online versões perfeitas de sobrancelhas que só te fazem pior à autoestima. As duas opções são válidas, mas têm uma abordagem e uma consequência no teu bem-estar totalmente diferentes.

Texto de Carolina Franco
Fotografias de Marco Taveira

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