Escritor, encenador, dramaturgo e professor, Clovis Levi tem uma vasta carreira ligada às artes. Com trabalho desenvolvido em Portugal e no Brasil o autor já viu muitas das suas obras reconhecidas além fronteiras. A sua peça Se chovesse, vocês estragavam todos, feita em co-autoria com Tania Pacheco, recebeu o Prémio Governo Estado de São Paulo/Melhor Texto e foi apresentada em diversos países. Clovis Levi foi diretor do Centro de Estudos Nacional de Artes Cênicas, da Funarte, e do Colégio de Direção Teatral, no Ceará, ambos no Brasil. Escreveu as séries de televisão O Bem Amado, DNA e ainda as novelas Mandacaru e O Todo Poderoso.  É professor da Faculdade CAL de Artes Cênicas, no Rio de Janeiro e, juntamente com Pamela Jean, diretor do grupo Carretel de Histórias.

Autor de três livros infantis publicados em Portugal - e de muitos outros no Brasil - é o nome por detrás de obras que desmistificam temas complicados do mundo dos adultos. O Beco do Pânico, que recebeu o Selo de Recomendação do Plano Nacional de Leitura, A cadeira que queria ser sofá, que ganhou o Prémio Nacional de Ilustração com os desenhos de Ana Biscaia, são as suas obras de destaque, a que se junta agora O Retrato (aquilo que não se vê). Editado pela Edições Xerefé, o livro volta a integrar o trabalho da ilustradora portuguesa, para dar vida aos sonhos e esclarecer desilusões. A obra foi lançada em março e está disponível em livrarias independentes.

Gerador (G.) - O Retrato (aquilo que não se vê) é a sua terceira obra editada em Portugal, a segunda com a ilustradora Ana Biscaia. Pode explicar-nos um pouco do enredo?

Clovis Levi (C.L.) -As crianças têm sonhos. Pena que alguns adultos percam essa capacidade – isso é terrível, muito empobrecedor. O livro, inicialmente, fala dos sonhos desses personagens: quatro crianças, um bebé, uma cadela grávida e um papagaio de papel. Estamos num povoado pobre no nordeste do Brasil, onde reinam o calor e a miséria. O livro salta para dez anos depois e mostra o que aconteceu com aqueles sonhos. E, então, ocorre uma reviravolta na narrativa, com o capítulo “A vida tem muitas possibilidades... a nossa história acabou daquela maneira, mas também poderia terminar assim...”  Surgem, então, novos enredos para cada um dos personagens e fica a proposta final: você pode re-escrever a história desses personagens (há uma página para que o leitor faça isso). E termina com a sugestão de que o leitor pode, também, re-escrever a sua própria história.

G. — Qual era a principal mensagem que queria transmitir?

C.L. -Todas as histórias podem ser re-escritas. Nunca acreditei que existe um Destino que já determinou tudo. Somos nós que determinamos – mas sem esquecer que há o Acaso, que pode ser algo bom ou mau. Temos de lutar também contra os Acasos negativos. Em síntese: cada um tem de acreditar em si e ir em frente; e brigar pelos seus sonhos contra tudo e contra todos.

G. - Este livro foi escrito em 2015, numa estadia em Portugal. Será seguro dizer que o nosso país influenciou a narrativa?

C.L. - Morei em Portugal de 2001 a 2012, dando aulas no Curso de Teatro da Escola Superior de Coimbra. Conheço bem Portugal e foi aí que comecei a escrever para crianças, devido ao nascimento da minha primeira neta. Em 2015, Portugal já fazia parte da minha natureza (tenho nacionalidade portuguesa) e estar aí era algo natural, como tem sido nos últimos anos. Mas não: Portugal não influenciou na narrativa porque a história já estava na minha cabeça quando estive aí em 2015. Além do mais, O Retrato (aquilo que não se vê) é calcado numa realidade bem brasileira: a miséria do nordeste.

G. - A estrutura e enquadramento do texto no livro são um pouco invulgares, estando, de certa forma, integrados nas ilustrações. Este aspeto distintivo era algo que tinha premeditado aquando da escrita?

C.L. - O Retrato (aquilo que não se vê) é o meu livro que tem menos palavras. Quando pensei no projeto tinha a clareza de que o ilustrador seria coautor, tanto que fiz questão que, tanto na edição brasileira quanto na portuguesa, os nossos nomes saíssem na capa com o mesmo tamanho. As versões brasileira e portuguesa são absolutamente distintas. A Ana Biscaia traz uma leitura muito particular: no modo de preencher a página, na quantidade enorme de desenhos, no tamanho (inesperado) do livro, no texto escrito à mão, tendo sempre um quê de Banda Desenhada.

G. - É conhecido pelos assuntos "polémicos" que retrata para o público infanto-juvenil. Na sua opinião, os temas "menos românticos" deveriam ser abordados mais frequentemente junto dos mais pequenos?

C.L. - Cada um escreve o que sente necessidade. Há espaço para todos. Gosto sempre de propor temas que possam permitir às crianças uma visão crítica sobre a vida que pulsa neste nosso planeta. Mas, evidentemente, sem ser uma aula ou discurso – os miúdos já têm muitos livros didáticos para dar conta.

G. - Considera estes temas relevantes na formação para a cidadania?

C. L. - Gosto de tratar de temas considerados polémicos, mas sem perder a poesia, o humor e a fantasia. Por exemplo: tenho uma peça infantil sobre o trabalho escravo de crianças africanas: Navio Negreiro no Mar do Branco do Olho. Teoricamente, seria algo muito pesado, mas não é — há fantasmas que cantam ópera; surge um menino com duas cabeças e uma discute sempre com a outra; e há (faz o maior sucesso!) uma cadelinha que se torna invisível e cria as maiores confusões. Nos meus livros, falo de liberdade, falo de morte, de brigar pelos seus sonhos, falo do profundo sofrimento de adolescentes, por questões de sexualidade (para os mais velhos, em O Beco do Pânico) – mas tudo no campo do sensível, do humano, procurando apontar sempre muitas possibilidades na busca de uma vida plena.

Texto por Sofia Craveiro
Fotografias cedidas por Clovis Levi

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