O que mais há no mundo são coisas. Por cada ser humano, há muitas coisas.

Sabemos que a distribuição não é equitativa, que não temos todos muitas coisas, mas pelos que pouco ou nada têm, outros há que estão excessivamente providos de tralha.

Destralhar, como fazer caber 1001 t-shirts numa só gaveta e como viver com 10 peças de roupa são temas em voga e que, a meu ver, evidenciam que temos, efetivamente, coisas a mais.

Estamos providos de coisas para uma ampla panóplia de eventualidades, a esmagadora maioria das quais raramente ocorre tornando a utilidade dessas coisas muito limitada - a sua vida útil é, no fundo, passada na inutilidade.

Por um lado, não nos desfazemos de coisas pelo apego emocional que lhes temos. Por outro, a facilidade com que adquirimos novo e barato, só porque não temos o antigo à mão ou porque as lojas estão ali à disposição, demonstra desapego. Esse desapego, a acumulação de coisas que se equivalem conduzirá em breve a coisa nova ao fundo de uma gaveta, à caixa debaixo da cama ou ao armário na arrecadação.

Atentemos em tudo isto.

Num primeiro momento, comecemos por procurar ter consciência do impacto do ato da compra, não só pensando nas matérias primas que foram extraídas, produzidas e consumidas e na energia gasta na produção e no transporte, mas também nas consequências da sua utilização (por exemplo, um esfoliante com microplásticos, que chegarão ao mar) e no que faremos à coisa no seu fim de vida (como exemplo, uma camisola de fibras sintéticas que, para além de libertar fibras sempre que é lavada, é difícil de reciclar no seu fim de vida).

Tenhamos também consciência de que a nossa responsabilidade enquanto consumidores vai muito mais além. Ao comprarmos, estamos a dar informação ao mercado de que há procura daquela coisa, fomentando a sua produção naqueles exatos moldes. Ora esta responsabilidade, embora seja talvez a menos imediata, é aquela que tendemos a desvalorizar, mas é a principal dimensão do ato da compra, aquela que comunica com o sistema global, com os mercados, é ela que materializa e define a procura e, como sabemos, é a procura que define e gera a oferta. Emitimos assim a mensagem global de que queremos mais daquilo.

Tristemente, aquilo é muitas vezes o “giro” e o barato, não importa que dure pouco nem que tenha uma enorme pegada ecológica na produção e transporte para nos chegar, nem sequer que ao ser descartado, no fim da sua vida útil, continue a produzir lixo dificilmente reciclável. Não faz diferença, porque “é tão giro e foi tão baratinho...”

Quereremos, efetivamente, mais um Natal destas coisas?

-Sobre Joana Guerreiro da Silva-

Arquiteta de formação pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, fez Estudos Avançados em Reabilitação do Património Edificado pela Faculdade de Engenheira da Universidade do Porto. Interessada pela Arquiteta de formação pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, fez Estudos Avançados em Reabilitação do Património Edificado pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Interessada pela fotografia, trabalhou em audiovisuais em Viena, Áustria, documentando os dois últimos anos da obra do Campus Wirtschaftsuniversität Wien, de onde resultaram várias publicações em diversos suportes. Colaborou em vários ateliers de Arquitetura e atualmente trabalha como Arquiteta da Divisão de Licenciamento e Gestão Territorial da Câmara Municipal de Odemira e frequenta o terceiro ano da Licenciatura em Agronomia do Instituto Politécnico de Beja.

Texto de Joana Guerreiro da Silva | ZERO
Fotografia da cortesia de Joana Guerreiro da Silva
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O Sobressalto é o projeto do Gerador e da ZERO que une a cultura e o ambiente, criando ferramentas para a transição verde e promovendo reflexões e debates junto da comunidade cultural. Um dos seus eixos é a criação de conteúdos jornalísticos, como este, dedicados à sustentabilidade nos meios do Gerador. Sabe mais aqui.