As coisas velhas já passaram eis que tudo se fez de novo, as coisas velhas já passaram eis que tudo se fez de novo…Desafio hercúleo repetir este versículo neste já Outubro de 2020. Aqui em casa há estudantes, actividades extracurriculares, pais e professores para quem Setembro significa ainda mais o início de um novo ano. Não está a ser fácil e, quanto a mim, parece-me um (re)começar aos trambulhões. Andamos confusos, porque a rotina neste “novo normal” mascarado não parece querer instalar-se em nós entre muitas regras novas, alunos, professores, auxiliares e a suspeição de que alguém fique doente de forma imprevisível. Interrupção de aulas, desinfecções, testes, a incerteza de tudo traz algum cansaço, porque tentamos fazer uma vida normal, mas com cuidados e parece difícil não ficar obcecado com cuidados ou, por outro lado, borrifarmo-nos para tudo… confesso, como muitos, estou fartinha! Quero avançar e começar um novo ano mas o presente ano insiste em não terminar…Talvez esteja à espera de alguma dignidade? Talvez sim, talvez não mas há que (re)começar.

Quando nos casámos, cientes do que deixávamos para trás e ansiosos pelo que estava para vir, oferecemos um pin com esta passagem a todos os amigos que se juntaram à boda para lembrar que o que está para trás não nos define para sempre, há perdão para os nossos erros e há espaço para recomeçar mesmo em situações adversas como a que vivemos hoje. Deixei a engenharia para me dedicar à música quando tinha 28 anos e, hoje, com quase 40, vejo muitos amigos a não se acomodarem e a mudarem de carreiras profissionais. Fico orgulhosa e inspirada, porque na maior parte das vezes significa uma saída da zona de conforto e um enorme exercício de fé e esperança…Criar uma vida que reflita os nossos valores e que satisfaça a nossa alma é uma rara, ou pelo menos difícil, conquista ainda mais nesta conjuntura em que a ambição só é entendida se for para chegar ao topo de uma imaginária escada de sucesso.

As folhas já caiem das árvores, a chuva e o frio estão à espreita e anunciam uma nova estação. Começar de novo? Sim, sempre e com a esperança de que a cada dia haja uma oportunidade de fazer melhor, como numa nova estação, num novo ano, num novo Setembro…

Reeinventar ou começar de novo a nossa vida pode não ser fácil, mas estamos sempre a tempo de nos permitirmos isso e eu creio que só podemos ser mais felizes com essa ousadia e trabalheira toda de … Começar de novo para que tudo se faça de novo.

…”não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo”…

*Texto escrito de acordo com o antigo Acordo Ortográfico 

-Sobre Selma Uamusse- 

De origem e nacionalidade moçambicana, residente em Lisboa, formada em Engenheira do Território pelo Instituto Superior Técnico, ex-aluna da escola de Jazz do Hot Club, mãe, esposa, missionária e activista social,  Selma Uamusse é cantora desde 1999. Lançou a sua carreira a solo em 2014, através da sua música transversal a vários estilos mas que bebe muito das sonoridades, poli-ritmias e polifonias do seu país natal, tendo apresentado, em 2018, o seu primeiro álbum a solo, Mati.  A carreira de Selma Uamusse ficou, nos últimos anos, marcada pelas colaborações com os mais variados músicos e artistas portugueses, nomeadamente Rodrigo Leão,  Wraygunn, Throes+The Shine, Moullinex, Medeiros/Lucas, Samuel Úria, Joana Barra Vaz,  Octa Push etc. pisando também, os palcos do teatro e cinema.

Texto de Selma Uamusse
Fotografia de Rafael Berezinski
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