A nova temporada do Tetro Aberto traz a palco, “Começar”, até ao dia 14 de novembro. A peça de David Eldrige, numa versão de João Lourenço, junta Clei Almeida e Pedro Laginha para nos mostrar a arte do encontro, mesmo quando somos adultos - “Sempre. Recomeçar. Acabar. Começar. Recomeçar. Não é assim até ao fim das nossas vidas?”

Laura e Daniel são dois solitários. Trocaram olhares furtivos durante a festa e agora, depois de toda a gente se ter ido embora, estão frente a frente, sem saber como começar. Aproximam-se, hesitam, afastam-se, voltam a aproximar-se. Já sofreram desgostos, mas ainda querem acreditar. Entre silêncios, desentendimentos e confissões, atravessam aquela noite no frágil equilíbrio de quem procura com medo e desejo de encontrar.

João Lourenço provoca-nos com os encontros dos nossos dias trazendo “Começar”, de David Eldridge, numa versão que junta o teatro ao cinema. Em entrevista ao Gerador, João Lourenço contou que esta não é uma novidade no seu trabalho, há muitos anos que o faz, ainda que “se tenha notado pouco”, mas desta vez fez o que nunca foi feito: começou a ensaiar uma peça e duas semanas depois os atores pararam os ensaios para fazerem um filme que envolve as suas vidas (personagens) e que não está visível na peça. Depois voltaram ao teatro com três quartos do filme feito e estrearam a peça, com essas novas vivências que trouxeram do cinema. “Do filme, a peça só tem o "Prólogo", depois segue a nossa versão da peça (minha e da Vera San Payo de Lemos) e quando acaba a peça, eu acho que acaba melhor com uma parte do filme. Então, fizemos um "epilogo", com uma parte em filme e outra não. Na estreia da peça, acabamos o filme e para o ano este filme vai ser estreado e será outro objeto que só tem em comum as personagens do teatro. O nome do filme? Depois de tudo feito, iremos olhar para ele e dar-lhe um nome. É confuso o que eu acabo de explicar? Venham ver a peça e percebem.”

Clei Almeida e Pedro Laginha, como Laura e Daniel

“Começar” é uma parte da vida quotidiana que é abordada com humor e dramatismo: o fracasso e o encontro. Para João Lourenço, “quase tudo na vida deve ser abordado com humor”, como forma de “distanciamento e de perspetiva de vermos o que nos atormenta”. Mas será que até mesmo os encontros? Cleia Almeida diz que sim – “Devíamos todos fazer este exercício: conhecer alguém do zero. Sem ver nada sobre essa pessoa na internet. É fascinante! E inovador. Muito anos 30.”

A peça lembra-nos de forma comovente que, mesmo na era das redes sociais, os encontros são mais comuns do que imaginamos, e que, “o começar um jogo de amor, com outras pessoas”, continua tão problemático como sempre, tanto ao vivo como nas redes. Laura e Daniel são os dois da mesma geração. Laura tem 38 anos é C.E.O de uma empresa e olha para o futuro de uma forma “obsessiva”, pois atingiu a “idade vital”, onde tem de fazer “escolha pra a vida”. Já Daniel, de 42 anos, é um homem de classe média baixa, que trabalha numa agência de serviços. Os dois encontram-se numa festa dada pela própria Laura quando esta decide comprar um apartamento de luxo em Lisboa, mas naquele espaço convivem dois mundos distantes. João Lourenço revela-nos que Laura é, “uma mulher sedutora e pratica cheia de charme uma mulher de esquerda, sabendo bem defender os seus direitos de mulher”, já Daniel é, “um homem muito certinho, que parece quase de direita e que foi já casado e agora vive com a mãe e a avó”.

Pedro Laginha e Clei Almeida dão assim vida a dois estranhos na procura desesperada por um terreno em comum – o da sobrevivência -, fazendo-nos mergulhar na sociedade em que vivemos e nos nossos medos. O encenador fala-nos exatamente sobre essa “profunda tristeza e solidão”, pondo-nos à prova ao longo da peça. “Eles na peça vão tirando a máscara hipócrita que usamos quando nos confrontamos com o nosso semelhante. Quando expomos as nossas inseguranças e os nosso medos. E este mostrar as fragilidades dos personagens, leva o espectador a identificar-se com elas.” Clei, sente o mesmo cada vez que veste o papel de Isabel, partilhando que, por vezes, acaba a peça “com um vazio enorme”, pois mais vale “o coração cheio do que a conta bancária”.

“No fundo, é um drama romântico que toca todos. Todos passamos por isto. Mas é mais uma critica ao namoro moderno... Para aqueles que têm mais de 40 anos e que estão a rever muitas coisas na sua vida amorosa”, conclui o encenador.

A peça, que estreou no dia 20 de outubro no Teatro Aberto e vai estar disponível até ao dia 14 de novembro, pode ser viste às quartas e quintas, pelas 19h, à sexta e ao sábado pelas 21h30, e ao domingo pelas 16h.

Bilhetes disponíveis, aqui.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia de Filipe Figueiredo
Se queres consultar mais notícias, clica aqui.