Dia 27 de março. Dia Mundial do Teatro. Como celebrá-lo numa altura em que as salas de espetáculos, coloridas por palcos que acolhiam as mais variadas palavras inquietas proferidas nas vozes dos atores que connosco se dispõem a oferecer o seu corpo e vulnerabilidade, estão encerradas? A companhia Teatro Nacional 21 (TN21), criada em 2011 por Albano Jerónimo e Cláudia Lucas Chéu, respondeu a estas circunstâncias extraordinárias que o mundo atravessa com a iniciativa de criar uma programação online que traga até nós leituras na voz de atores portugueses, assim como a interpretação de Veneno.  

Albano Jerónimo partilha com o Gerador que, para assinalar este dia especial, decidiram “criar uma programação online assente na palavra”, porque é o que os preocupa, inquieta e estimula neste exercício permanente sobre a palavra, independentemente de ser dramaturgia nacional ou internacional. “E neste dia internacional do teatro, nestes tempos estranhos de difícil gestão, sobretudo para os que de uma forma responsável decidiram ficar em casa, decidimos criar uma plataforma, uma montra onde as pessoas não se sintam privadas de acesso à cultura, acesso a este dia tão especial para todos nós, atores e artistas de palco. Como tal, este dia é sobretudo um dia para enaltecer ou elogiar a palavra.”

Convite de Albano Jerónimo para a comemoração do Dia Mundial do Teatro pela TN21

Através das páginas oficiais das redes sociais da companhia, ao longo do dia 27 de março, serão transmitidas várias leituras de dramaturgia portuguesa e internacional (de Harold Pinter, Mickael de Oliveira, Cláudia Lucas Chéu a Gil Vicente, entre outros), numa seleção que contempla muitos dos textos que fizeram parte da TN21, tendo sido levados a cena ao longo dos últimos dez anos.

Para fazer estas leituras, foram selecionados 21 atores que, “de uma forma extremamente generosa contribuíram com o seu talento, trabalho e disponibilidade para colaborarem connosco neste Dia Mundial do Teatro”, explica Albano. “São pessoas que nos inspiram, que conhecemos, com quem já trabalhámos de forma direta ou indireta, não só no TN21, mas sobretudo são pessoas que nos inspiram a ser melhores, pessoas que nos inspiram a ir mais além nesta permanente busca. Portanto, a nossa escolha foi, de certa forma, genuína, orgânica e fácil.” O ator relembra ainda que a companhia se pauta por “trabalharmos com pessoas que sabem mais do que nós e pessoas que nos inspiram a ir para sítios que desconhecemos” e que esse desígnio não foi esquecido também neste processo.

Este grupo heterogéneo de 21 atores é composto por Rita Blanco, Bruno Nogueira, Albano Jerónimo, Mariana Monteiro, Isabel Abreu, Luísa Cruz, Ana Busttorf, Virgílio Castelo, Custódia Gallego, Emília Silvestre, João Reis, Miguel Raposo, Anabela Moreira, António Durães, António Parra, Maria Leite, Guilherme Moura, Luís Puto, Solange Freitas, Miguel Nunes e Marco Paiva. “Estas 21 pessoas são o exemplo desta inspiração permanente”, remata Albano.

A programação para este dia não fica por aqui. Para as 21h, está planeada uma apresentação em NETeatro do texto Veneno, de Cláudia Lucas Chéu, reformulado para uma versão doméstica, que será transmitida em direto para as plataformas da TN21, e interpretada por Albano Jerónimo a partir da sua sala de jantar.

Cláudia Lucas Chéu explica ao Gerador que “Veneno é um texto sobre a intolerância e a violência num universo familiar. Num momento tão delicado como o que atravessamos, em que as famílias estão necessariamente confinadas à convivência obrigatória das suas casas, penso que faz sentido refletir sobre estas questões. É o momento de valorizarmos o mundo interior no seio das famílias e como indivíduos.”

Trailer promocional de Veneno, do TN21

Veneno foi escrito em 2015 e publicado num volume com peças de vários autores – Curtas da Nova Dramaturgia, Memória, Edições Guilhotina, 2016. Ainda em 2016, foi um dos textos selecionados, em representação do Comité Português, para o EURODRAM – Rede Europeia de Tradução Teatral. A versão cénica deste texto foi estreada na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão a 26 de outubro de 2018.

Veneno em cena

Depois de ter corrido o país em digressão, vê uma oportunidade de reformulação com esta iniciativa, tentando manter as qualidades do original, adjetivado de “violento e perturbador”. O texto foi escrito a partir de narrativas verídicas “recolhidas num universo cosmopolita contemporâneo. 51 % da população mundial encontra-se, neste momento, a viver em espaços urbanos – por razões económicas, melhoria das condições de vida, oferta de trabalho, entre outras. Veneno é, também, um texto centrado na ideia da decadência da família no contexto suburbano. Se a família é o paradigma ancestral daquilo que deve ser um governo, ambos manifestam, atualmente, a ideia de crise. Crise esta que, na génese etimológica, significa separar, dividir”, lê-se em comunicado.  

Uma apresentação em direto via plataformas digitais implica uma diferente relação com o público, mas para Albano a principal questão que se levanta com esta iniciativa é a da comunicação. “Comunicação no sentido de não privar as pessoas, ter, uma vez mais, uma oferta cultural neste dia. Tem que ver com a qualidade da comunicação. Todos os intervenientes neste dia têm noção que isto não é teatro. Estamos a falar dum exercício sobre a palavra, um exercício sobre uma comunicação. Obviamente, altera a forma de me apresentar e a forma de fazer porque, convinhamos, não é um palco. A estrutura da apresentação da mise en scène é completamente diferente.”

O novo formato potencia, assim, “uma maior escuta e uma maior objetividade naquilo que se quer dizer e fazer. Sobretudo, o que é curioso neste processo, é que adensa e torna mais claro o facto de isto ser um trabalho que não é sobre nós. Nós, indivíduos. É sobre uma massa de pessoas, um coletivo de pessoas e obviamente estou a falar da qualidade de comunicação que nós queremos imprimir no outro. Vendo-nos fechados e obrigados a circular nas nossas vidas mediante estas novas regras, estas nossas inquietações revelaram-se desta forma, ou seja, com esta iniciativa, com esta programação.”

Dia 27 de março acordamos de olhos postos nestes atores que estarão à distância de um clique, a partir das 10h30, para connosco partilharem um pouco do seu trabalho numa situação social que não lhes permite chegar ao público de forma convencional. Podes acompanhar esta iniciativa no site da TN21, na sua página de Facebook ou página de Instagram (@teatro_nacioanal21).

Texto de Andreia Monteiro
Fotografias de José Caldeira