Poderão os leitores entender que deu uma travadinha ao aprendiz de escriba. Como é que numa crónica de tema “comer em casa” se pode tratar de uma refeição realizada “al fresco”?

“Al fresco” – para quem não tem quintais, alpendres, varandas ou terraços à moda dos mouros algarvios – consistirá em abrir as janelas da sala de jantar ou da cozinha e esperar pela brisa noturna?

Nem por isso. Aqui o tema é encontrar refeições de verão que se podem fazer em casa e que não têm obrigatoriamente de incluir na respetiva génese a necessidade de espaço a céu aberto para a confeção.

Com pena de todos ficarão fora destas sugestões de hoje as sardinhadas e churrascos que, nesta altura do ano e em havendo condições, são sempre boas apostas para refeições ao ar livre. 

O churrasco (no sentido lato) é uma excelente ocasião para o convívio e para cada qual meter as mãos à obra, seja fazendo as saladas, seja estando atento às brasas do carvão, onde o balde de gelo ao lado, com cervejas enfiadas, é aqui de rigor para refrigério do assador de serviço.

Uma proposta de verão mais caseira pode ser por exemplo a invenção sulista magnífica que é o gaspacho completo.

O belo conjunto de tomate, pepino, pimento, orégãos, tudo migado, a que se junta presunto aos pedacinhos, azeite e vinagre, água e gelo, pãozinho do melhor!  E acompanhado pelo que houver de mais fresco e mais pequenino nesse dia na praça: “joaquinzinhos” ou “petingas”, saltando da frigideira para os pratos.

Outra boa ideia é fazermos uma salada fria de feijão frade com ovo cozido e “ventrescas” de atum (parte da barriga, a mais gostosa) que existem enlatadas e que são excelentes.

 As melhores “ventrescas” da barriga do atum compram-se na lota ou na peixaria, frescas. Se forem por aí, isso dá um magnífico prato completo! Haja dinheiro…

Ainda posso sugerir uma mayonnaise de garoupa com ervilhas, cenouras e camarões.
A “minha” mayonnaise de camarão e garoupa é para ser feita por solteiros sem pretensões a chefs de cozinha. Se tiverem pressa ou pouca inclinação para estas exéquias não façam a mayonnaise, comprem-na feita. Mas não é a mesma coisa…

O truque para poupar dinheiro é comprar uma garoupa inteira, para aí com  2 kg, pedir para partirem a cabeça com respeitável “gola” para trabalharmos a mayonnaise depois de cozida e desfiada, e guardarmos as postas e o rabo para outra ocasião.

Para além da garoupa ser fresca, para o resto recorro ao material embalado. Ora vejam aqui sff, para 4 pessoas:

Um pacote de ervilhas e cenoura baby congeladas (existem em todas as superfícies comerciais).
 2\3 batatas grandes
 Uma cabeça de garoupa (com “gola”)
1/2 limão.
Para os “calinas”: 1 frasco grande  de mayonnaise de marca conceituada
 2 embalagens de  camarão 15\30 (se o encontrarem)
 1 embalagem de tomate cherry
 2 ovos XL
 salsa picada q.b.
 uma lata de azeitonas pretas sem caroço

uma colher de sopa de mostarda
  
Cozemos a garoupa com um fio de azeite. Deixamos arrefecer, limpamos de peles e espinhas e desfazemos em lascas. Cortamos as batatas aos cubos e levamos a cozer durante 20\25 minutos.  Cozemos também os ovos, as ervilhas e cenouras até estarem “al dente”. E o camarão.

Arrefecemos tudo, com água fria e algumas pedras de gelo no passador.

Temperamos depois, batendo a mayonnaise com o sumo de limão e uma colher de mostarda numa grande tigela, de preferência de louça ou de aço inoxidável (evitem plásticos). Juntamos a garoupa lascada, metade do camarão descascado, os legumes e envolvemos com a mayonnaise.
Decoramos com tomate cherry, azeitonas pretas, ovo cozido aos gomos, o restante camarão e salsa picada.

Ficam sempre bem na mesa um ou dois queijos merendeiros de Sousel, partidos às fatias.

E para terminar em beleza: melão bem fresco e maduro. De preferência casca de carvalho.

Para beber: comecemos com um gin tónico (está cada vez mais em moda experimentar diferentes tipos de gin). E continuemos com um rosé pouco graduado. Por exemplo, o Espadeiro da Quinta dos Ingleses, ou o Rosé da Adega Cooperativa de Monção.

Qualquer deles fica abaixo dos 8 euros e são um delicioso refresco para estas noites mais quentes.

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses.  Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho
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