Esta reclusão obrigatória a que nos submetemos pode levantar problemas de convivência com a passagem dos dias. A falta de assunto de conversa começa a notar-se, mesmo entre amigos mais chegados, quanto mais entre mulher e marido, pais e filhos. Todos gostaríamos de dar um espaço e alguma distância aos relacionamentos mais próximos, ansiando pelo fim da crise para retomarmos a vida normal, com assuntos novos na ponta da língua e outra vez desejosos da companhia uns dos outros.

Uma das formas caseiras de distrair e ocupar as mãos e a cabeça, é cozinhar. Dividir essa tarefa pelos ocupantes, ajudando-se mutuamente e planeando em conjunto as refeições.

Trago hoje uma receita de Arroz de Carnes, que em minha casa se fazia para o aproveitamento das sobras do cozido à portuguesa, mas que pode ser feito com carnes verdes e fumadas compradas de propósito para este prato, mas que têm de ser previamente cozidas.

Se esse for o caso, a cozedura deve ser em panela suficientemente grande para caberem um ou dois chouriços de carne, a carne de cozer (aba da costela ou chambão) e um bom troço de toucinho entremeado. E fica sempre bem cozermos ao mesmo tempo meia cenoura cortada às rodelas.

Se as carnes não forem muito gordas – e na maior parte dos casos os chouriços e toucinho industriais não têm gordura que preste – podemos deitar um golpe de azeite na panela.

A água dessa cozedura das carnes, que se quer primeiro forte e depois lenta, vai servir para fazer o arroz.

Em estando tudo cozido desfiam-se as carnes, limpam-se de peles, e reserva-se a água.

Fazemos depois uma puxadinha leve de cebola fininha, alho e sal, com bom azeite, num tacho de fundo espesso. Quando a cebola ficar transparente deitamos um copito de vinho branco para refrescar e deixamos alourar mais uns minutos.

Depois fritamos o arroz (do vaporizado) e deitamos a água das carnes para o cozer, mas sem ficar muito espapaçado, praticamente “al dente”. E convém provarem o teor de sal.

Aconselho que a medida – como vai para o forno – deve ser de uma chávena de arroz para três da água onde cozemos o chouriço.

Estando o arroz cozido começamos por cobrir com ele o fundo de um tabuleiro. Depois deitamos as carnes todas desfiadas à mão. Acabamos por encher  com o resto do arroz e alisamos por cima.

Decoramos com uns troços de chouriço que cozemos nesse dia e vai ao forno a uns 170º por uma hora mais ou menos, mas sempre controlando sff.

Com uma salada e – por exemplo –  um tinto Vallado Sousão de 2015 ( a cerca de 20 euros)  espero que lhes faça bom proveito e sirva para esquecer um pouco a cabra da crise.

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses.  Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho
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