Procura-se afanosamente um dia que nos encha as medidas, que nos tire a cabeça de outras coisas, que nos faça agradecer aos deuses o termos nascido e estarmos ainda vivos e a mexer.

Ultimamente – e fruto dos tempos presentes – tenho tido bons episódios ao longo de um dia, mas intervalados por outros menos bons. E infelizmente parece que a sombra destes últimos acaba por ultrapassar a claridade dos outros. Porventura porque esta Primavera mais parece um duro Inverno, o que também não ajuda nada.

Vai daí pus-me a fantasiar: O que seria para mim o dia ideal?

Ora tomem lá disto:

Acordar ao lado de alguém que amamos e que nos corresponde, olhar para o relógio e verificar que estamos atrasados para o emprego, mas depois cairmos na realidade e lembrarmo-nos que se trata de um Sábado.

Nestas reviravoltas aproveitar a exceção da lei do isolamento e ir ao mercado abastecer a despensa.

Regressar a casa a tempo de pôr a assadeira com um pargo legítimo no forno. No frio já aguardam duas garrafas de Redoma Branco Reserva (seja de que ano for).

Almoçar principescamente.  Arrumar o estrago e vai de deitar olhares de carneiro mal morto à legítima para bem acomodar a sesta a dois.

Lá para as cinco da tarde pensar no jantar.  Mas antes, cocktails na sala exatamente como se estivéssemos no bar do velho Albatroz, a olhar para a baía.   Dry Martini, à moda do “007” – com 10 medidas de gin para uma de vermute seco, e com azeitona verde em vez da casquinha de limão. É de rigor pôr a tocar em fundo um dos grandes do Jazz. Por exemplo,  “I got lost in her arms” de  Winton Marsalis.

Para o Jantar uns “Rigatoni à Bolonhesa”.

Uma embalagem de Rigatoni de sêmola dura (500g) dá bem para 3 ou 4 pessoas. Mais uns 500g de carnes picadas, 3 salsichas também picadas. Queijo ralado – eu, que sou “sortudo” por comprar na Beira Alta diretamente aos pastores, guardo para ralar algum queijo da serra que não me esteja a saber tão bem. 

Precisamos ainda de molho de tomate e de um outro molho com base de azeitonas, ambos de marca conceituada.

Para cozer os Rigatoni basta deixar ferver a água com sal e um fio de azeite, e só depois deitar o conteúdo da embalagem. Esperamos 9 ou 10 minutos, 

 Ao lado passamos por um triturador 1cebola e 3 dentes de alho, mais as salsichas. E misturamos com a carne que se pediu para picar (2 vezes) no talho.

Leva-se ao lume a mistura em azeite e deixamos apurar, temperando com sal e um pouco de malagueta. Quase no fim deitamos um copito de bom vinho branco (ou moscatel de Setúbal) e o conteúdo de dois frascos de molho de tomate de boa qualidade para bolonhesa e de molho com azeitonas.

Pomos os Rigatoni num pyrex, deitamos por cima a mistura de carnes e molhos. Misturamos bem com uma colher. Salpica-se abundantemente de queijo ralado e vai assim ao forno uma meia hora.

O que se gastou ao almoço (com o pargo) poupa-se ao jantar. Não se chega a gastar mais de 15 euros com os Rigattoni.  Comem três ou quatro, e faz-se em 60 minutos…

Acompanhem com um tinto, Dão Quinta de Pinhanços Reserva de 2011 , ainda disponível nas melhores garrafeiras por cerca de 25 euros.

Depois de arrumar a cozinha é tempo de aconchegar os corpos num sofá. Fica para outro dia o prazer solitário que um grande livro nos proporciona, trocado desta vez por um bom filme ou uma boa série em melhor companhia.

Deixemos a magnífica e sóbria “Chernobyl” para outros dias melhores, dias de sol e de luz sem vírus nem contaminações.

Se já viram a 3ª temporada da “The Crown” (Netflix) recomendo que se aventurem pela Amazon (Prime Video) e que vejam “The Man in the High Castle”.

Antes de nos deitarmos reconforta pensar que amanhã é Domingo e que o cabrito já ficou temperado…

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses.  Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho
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