*Aconselha-se uma pequena viagem no tempo e a consulta do filme Shortbus (e quem sabe da bela banda sonora a acompanhar a leitura desta crónica)

Quando em 2006 estreou o Shortbus, não foi livre de crítica, nem escapou ao olhar daqueles que o acusavam como um elegia à americanidade que ocultava e ignorava muitas das problemáticas, não só geopolíticas, mas até de visibilidade do próprio filme. E tinha vários problemas, incoerências como a persistência na ligação entre permeabilidade e penetrabilidade e a insistência no orgasmo como a única possibilidade de epifania (para uma personagem, numa história). Mas para alguém que desabrochava tardiamente como eu (pois a norma também determina uma idade para descobrirmos identidades e orientações e eu decidi rebentar um armário aos 28 anos, muitas leituras, filmes e conversas) foi um filme revelador de possibilidades.

Há quem tenha o Eyes Wide Shut como referência do imaginário de uma sex party. A mim, colarinhos brancos e sapatos de berloque matam-me a tesão. O meu referencial erótico é, orgulhosamente, muito mais punk e proletário. Mas divago. Voltando ao ShortBus.

Este filme leva-nos a um espaço lugar na Nova Yorque pós 11 de Setembro (podem ler mais sobre o filme e o que escrevi em 2012, aqui), um “salão para xs habilidoses e desfavorecides” onde se cruza arte, conversas, afetos, solidões e sexo no seu amplo sentido. Vemos corpos e corpas de várias formas e identidades e o filme representa práticas de sexo grupal, BDSM, sexo gay e várias expressões de prazer e construções de espaços mais ou menos seguros. O salão em si é como as pessoas - meio estruturado, meio a cair aos bocados, perfeito nessa imperfeição, com um ar confuso e aprazível de estar.

Agora trago-vos para esse tempo, em que passei este filme, desde em contextos coletivos jovens até um momento que recordo com muita meiguice, a convite da UMAR, que organizou uma sessão no clube literário do Porto, para ver e falar sobre o filme, com uma plateia cuja média de idades era 60 anos. Falou-se de muito. Agora haveria mais para ver e falar.

E trago-vos também aonde eu estava, inícios da década de 2010, a conhecer o movimento de não-monogamias em Portugal, a descobrir-me enquanto, achava eu, pessoa poliamorosa, kinky, sentada numa mesa num restaurante ilegal da mouraria com o pequeno grupo que se cosia desde meados de 2000, onde se via uma divisão clara entre quem estava mais apegado à política e quem era mais new age. Criei fortes laços com pessoas de ambas as barricadas. Partilhávamos a noção de que os nossos amares não eram normativos, e é incrível como a noção de exclusão cria comunidade.

Não me considero nenhum pioneiro das não-monogamias portugueses, longe disso quero estar e estou. Mas lembro-me de quando, mesmo para determinadas facções da luta LGBT, a entrada de um coletivo poli político na marcha, era motivo para veto, por ameaçar a luta presente nesse momento para o casamento Lésbico e Gay. Isto dos direitos e da normatividade é um pau de dois bicos.

E a normatividade chegou às não-monogamias, relacionais e sexuais. Bem… já tinha chegado a muitos clubes de sexo na sua origem. Para quem não sabe, podemos localizar as origens do swing nas comunidades militares e suburbanas dos anos 40 aos 70 nos Estados Unidos. Tudo muito branco, classe média e conservador. À moda vitoriana: vícios privados, virtudes públicas.

Diferentes tipos de relações afetivas e sexuais que incluem mais que duas pessoas de forma consensual estiveram presentes em diferentes épocas e culturas e fizeram parte de diferentes movimentos de contracultura, de esquerda intelectual dos 60 a anarquistas radicais de início de século. Também na contracultura, estiveram diferentes práticas sexuais e o BDSM, quer através da comunidade Leather, Bear ou Panda LGBT, quer nas expressões performáticas do movimento da década de 2010 de Pornoterrorismo em Espanha.

Em ambas as comunidades, assim como na queer, sentia um lugar, um direito aos feios, aos que não se encaixam nas normas de desejo do corpo e que são monarcas e donos da sua sexualidade e corpos por isso.

Ao longo desta década, vi muita coisa acontecer, mais gente vir falar sobre tudo o possível em relações não-monogâmicas, desde estudos que comprovam o benefício de criar crianças em famílias poliparentais, ajudando a salvaguardar os direitos de quem é progenitor e tem estes modelos relacionais, até coletivos que falam em poliabuso, que está presente em seja qual for o modelo relacional. Vi clubes de sexo deixarem de ser falados sem ser em sussurro e pessoas não-monogâmicas a insistirem que não é sobre sexo. O que é verdade, nada disto é só sobre sexo. É, como disse acima, sobre resistência. E parceires, já fomos capitalizados.

A não-monogamia é principalmente branca, principalmente magra, e principalmente normativamente bonita. Quando se diz que não é sobre sexo, é sinal que também foi higienizada. Quanto ao BDSM, já toda a gente tem umas algemas na cama, quer queira quer não, porque as taras agora também são mercado compulsório. E estou farto que tudo seja instagramável.

Este fim de semana, a Netflix deu-me a prova. Um filme espanhol (Donde Caben Dos), a proclamar a revolução sexual que, visto lado a lado com o Shortbus, é um plágio pobre e descarado. Mas é apenas mais um no catálogo que nos mostra as não-monogamias como panaceia para qualquer relação aborrecida, os clubes de sexo como a hipótese de mostrar o melhor look e uma sexualidade que poderia ser dissidente apenas como moderna e descolada.

Eu… desconsolada.

-Sobre Carmo G. Pereira-

Carmo Gê Pereira é/tem um projeto português ligado à sexualidade com workshops, formações e tertúlias, sessões de cinema, ciclos de eventos e aconselhamento sexual. Atua de forma ativista paralelamente. Assumidamente LGBTQIA+, sex-positive de forma crítica tem-se destacado como: formadora de educação não formal, educadora sexual para adultos, na área do aconselhamento sexual não patologizante, expert em segurança, recomendação e utilização de tecnologias para a sexualidade. Formada em sexologia e doutoranda do Programa Doutoral de Sexualidade Humana da FCEUP, FMUP e ICBAS. Mais informação em www.carmogepereira.pt

Texto de Carmo G. Pereira
Fotografia de Ricardo Faria
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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