Um museu alienado do presente e do futuro renuncia a sua relevância social

Os museus são instituições centenárias que gradualmente se foram adaptando às circunstâncias económicas, sociais e políticas da época contemporânea. Embora a sua capacidade de resposta seja lenta, porventura inconsistente com a velocidade da sociedade atual, é preciso notar que recentemente muitos empreenderam mudanças significativas nas formas de comunicar e mediar o conhecimento, ajustando a sua ação para fazer face a situações excecionais como aquelas que estamos a viver no decurso da crise pandémica. A relevância do serviço público que prestam obriga-os a reagir às crises e a intervir com informação útil, ajudando os visitantes a interpretar e a relacionar-se positivamente com a ambiguidade e a complexidade que caracteriza o mundo global.

Enquanto “instituições permanentes, abertas ao público” estão naturalmente sujeitas aos impactos da aceleração e aleatoriedade que caracterizam as exigências do presente. É a vontade de acompanhar estas dinâmicas e a capacidade de agir perante as necessidades diagnosticadas no meio, que determina a sua ambição de relevância social e o posicionamento face ao futuro que querem ajudar a construir. Esta construção convoca todos os intervenientes na ação: diretores, profissionais, amigos e públicos de museus, decisores políticos, agentes culturais e das diferentes esferas da sociedade.

Sendo certo que a temporalidade dos museus é dilatada, e que a programação que empreendem procura refletir, compreender e mediar as relações do passado com o presente, é cada vez mais urgente olhar para orgânica e as práticas de cada instituição à luz de questões emergentes da ética e da convivência social, verificar a conformidade com os valores que proclamam e  reconhecer as tendências do futuro, para que, com base neste olhar crítico, interno e externo, estas instituições possam antecipar e preparar as formas de agir e reagir às transformações estruturais da sociedade e às incógnitas do futuro.

Recentemente, o Museu Guggenheim de Nova Iorque, depois de ser acusado de “racismo sistémico”, apresentou um programa a dois anos com objetivo de criar mecanismos para denunciar atos de discriminação e desenvolver políticas de promoção da diversidade nos mais diferentes níveis de atividade do museu, tanto nos bastidores como na oferta cultural[1], os seus autores afirmaram: O momento atual exige que reconsideremos o papel fundamental que os museus de arte têm na sociedade: para quem são estas instituições, que responsabilidades devem assumir, e a quem devem prestar contas?, a publicação The Art Newspaper[2] acrescenta que o novo programa implica, assim, reajustes nas práticas de recrutamento e contratação do museu, órgãos de decisão mais inclusivos, uma política de aquisições mais atenta às minorias e um trabalho específico com públicos que costumam ficar à porta.

Esta notícia, como outras, marca a atualidade expondo transformações profundas nos museus que envolvem a própria definição e vocação da instituição, e em muitos casos até a alteração da sua missão. Não se trata apenas de rever o que fazem, mas porque o fazem, com que propósito e valores, como, quando e com quem. A este respeito, o Conselho Internacional de Museus (ICOM) defende que o debate sobre a definição de museu para o século XXI deve contemplar a urgência das crises naturais e o imperativo de implementar soluções sustentáveis e responsáveis para o planeta, no âmbito político, social e cultural. Um objetivo que é ambicioso porque reconhece o poder que os museus detêm e sabe que o seu contributo é precioso ao nível do trabalho internacional, nacional, regional e local. Estes quatro níveis de ação impulsionam as redes de colaboração destas instituições com outras organizações e permitem o desenvolvimento sistémico do seu contributo coletivo para o bem comum.


[1] Canelas, Lucinda – “O Museu Guggenheim tem agora um plano para combater o racismo de que é acusado”, Jornal Publico, 18 agosto 2020, acedido em https://www.publico.pt/2020/08/18/culturaipsilon/noticia/museu-guggenheim-plano-combater-racismo-acusado-1928499

[2] https://www.theartnewspaper.com/news/guggenheim-adopts-a-plan-to-become-more-inclusive-and-racially-diverse

– Sobre Sara Barriga Brighenti –

Museóloga, formadora e programadora nas áreas da educação e mediação cultural. É subcomissária do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação. Coordenou o Museu do Dinheiro do Banco de Portugal e geriu o programa de instalação deste museu. Colaborou na elaboração de planos de ação educativa para instituições culturais. É autora de publicações nas áreas da educação e mediação cultural.

Texto de Sara Barriga Brighenti
Fotografia de Ana Carvalho
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