Antes do auge das lavadeiras no princípio do século xx, já muita história havia no que diz respeito à saboaria nacional. Na vila de Belver, em Portalegre, a Real Fábrica do Sabão assumiu relevância económica e social desde a segunda metade do século XVI. Começou por funcionar em regime de monopólio régio até o despontar da Revolta dos Saboeiros em 1858.

Fundado em 2013, o Museu do Sabão tem contribuído para reafirmar a história da saboaria nacional: as suas técnicas, o seu impacto social e a sua recuperação no presente. O vice-presidente do museu, António Severino, sabe como é difícil dissociar o sabonete da nossa génese cultural. É também por esse motivo que, ainda hoje, batalha para que história dos saboeiros portugueses não caia em esquecimento.

(G.) – O Museu do Sabão presta especial homenagem à história dos saboeiros de Belver. Qual a memória que gostaria de transmitir ao público que visita este espaço?

(A.S.) – O marco mais importante para esta comunidade foi a Revolta dos Saboeiros em 1858. Um momento que mostrou a união e a força que os belverenses tiveram para lutar contra a injusta lei do Monopólio Régio e assim acabar com ela. Aos saboeiros era cobrado um imposto pela produção do sabão. Além de comprarem os ingredientes, de terem o trabalho de o fazer, ainda tinham de partilhar o lucro da venda com a coroa. Por ser um imposto injusto, começou a surgir o contrabando e alguns saboeiros foram punidos severamente por não pagarem. E, foi toda esta situação que fez despontar a Revolta.

(G.) – Atualmente, a produção saboeira ainda assume um papel económico e social relevante na vila de Belver?

(A.S.) – Infelizmente com a evolução dos tempos, outros produtos foram surgindo no mercado e, embora os sabonetes artesanais estejam agora a regressar ao mercado, houve um período que deixaram de se vender. E, com a desertificação do interior acabou por não existir ninguém em Belver que desse continuidade a esta atividade. Por isso a produção de sabão terminou ainda na primeira metade do séc. passado com o desaparecimento dos últimos saboeiros. Contudo, continua a ter um forte papel social com a existência do Museu do Sabão, que homenageia e retrata a história de uma comunidade que viveu a repressão do Monopólio Régio e a Revolta dos Saboeiros.

(G.) – Relativamente às principais matérias-primas portuguesas utilizadas na produção do sabão, qual é o nosso principal recurso natural?

(A.S.) – Atualmente o azeite continua a ser a principal gordura utilizada na produção de sabão. E para que ocorra o processo de saponificação, são depois adicionados sódio ou potássio. A seleção dos restantes ingredientes é em função das matérias-primas disponíveis em cada região. Por exemplo, na zona de Fundão existe a produção de cereja e, por isso por lá já se fazem sabonetes de cereja.

(G.) – Desde o século XVI até ao momento, verifica-se alguma alteração significativa das matérias-primas utilizadas?

(A.S.) – A principal matéria-prima manteve-se. O Sabão Mole de Belver era feito com azeite, cinza rica em potássio e cal. Hoje em dia na produção artesanal continua a ser utilizado o azeite, mas neste caso misturado com sódio com o intuito de tornar o sabão mais duro.

(G.) –  Em Portugal, o monopólio régio do sabão estendeu-se desde o século XV ao século XVIII. Nesse tempo, a lei punia a produção doméstica de sabonetes. Curiosamente, passados séculos, há novamente várias pessoas interessadas em aprender a produzir estes sabões. Também verifica este crescente fenómeno?

(A.S.) – É verdade que no passado existia a lei do Monopólio Régio, a qual reprimia a produção de sabão. Com a Revolta dos Saboeiros que aconteceu em Belver, essa lei deixou de existir. Na atualidade não existe essa lei, mas existe um decreto que regulamenta os produtos de cosmética e, embora surjam cada vez mais pessoas interessadas em aprender a fazer sabão, não é fácil legalizar a atividade. Geralmente uma vez por ano, convidamos representantes de saboarias que dinamizem oficinas para a aprender a fazer sabão no Museu, e quando falo com os participantes a reação é bastante positiva. Pois acabam por manter contacto connosco e partilhar as suas experiências saboeiras em casa.

(G.) – Embora a cultura do sabão esteja intimamente associada ao tempo passado, há cada vez mais pessoas a recuperar o sabonete, nomeadamente através da produção do seu próprio sabonete artesanal. Qual é que pensa que é a principal motivação para este interesse?

(A.S.) – Penso que a questão que preocupa o mundo de hoje, a poluição, tem sido talvez a principal razão deste negócio emergente. Cada vez mais as pessoas procuram fazer os seus próprios sabonetes ou comprar produtos artesanais, que embora sejam mais caros, não contém produtos químicos prejudiciais quer para a saúde, quer para a própria água. Acredito que sendo a produção de sabonetes artesanais uma atividade sustentável, na medida em que são utilizados recursos naturais, preservando o meio ambiente, pode representar um motivo de reaproximação das pessoas ao sabão.

(G.) – Na perspetiva do consumidor, quais são as principais diferenças entre a produção artesanal e industrial do sabão?

(A.S.) – Na perspetiva do consumidor, a produção industrial de sabão consegue ter preços mais apelativos que a produção artesanal. Todavia, já se começam a notar mudanças de mentalidades, e cada vez mais as pessoas se preocupam com a composição saudável dos produtos e em evitar as próprias embalagens de plástico, do que pagar menos por um produto que contem químicos prejudiciais para a pele.

(G.) –  Como descreveria a relação entre a cultura portuguesa e a saboaria?

(A.S.) –  Na minha opinião, por toda a história que temos relacionada com a temática, desde o sabão de Belver, ao Sabão azul e branco, ao Feno de Portugal, entre outros produtos marcantes na história do sabão português, a ligação à cultura portuguesa é inevitável.

No que diz respeito à relação cultural com os portugueses, podemos dizer que talvez o sabão azul tenha sido o produto mais marcante que começou a fazer parte da vida doméstica e veio para ficar. Desde então os sabões e os sabonetes, nunca mais deixaram de fazer parte da cultura portuguesa e julgo que estaremos prestes a reescrever a história do Sabão Português.

(G.) – Na sua opinião, em que domínios ainda se pode expandir a cultura do sabão português?

(A.S.) – Penso que o mais importante para expandir a cultura do sabão português, é continuar a apostar em ingredientes naturais e saudáveis, específicos das várias regiões do país, em produtos que se apresentem em embalagens que não prejudiquem o ambiente.

(G.) – Qual o balanço de cerca de seis anos de funcionamento do Museu do Sabão?

(A.S.) – O balanço destes seis anos é bastante positivo, na medida em que temos recebido cada vez mais visitantes, curiosos para saber um pouco mais sobre a temática. No ano de 2019 superámos os 6000 visitantes.

As opiniões mais frequentes são sobre a atividade prática. Nem sempre nos é possível fazer sabão, por isso criamos eventos pontuais com esse objetivo. Os visitantes ficam bastante surpreendidos com a história, que desconheciam por completo e, acabam por voltar com amigos. O passar a palavra, continua a ser a publicidade mais produtiva para o nosso Museu.

Durante os próximos dias, o Gerador destaca a produção artesanal de sabonetes em Portugal. O mote desta semana temática é precisamente a reportagem “Saboaria Artesanal: A reinvenção ecológica da cultura do sabonete português, publicada na Revista Gerador. 

Texto de Mafalda Lalanda
Fotografia de José Lucas, 1960. Imagem via Lavadeiras do Meco.

Se queres ler mais notícias sobre a cultura em Portugal, clica aqui.