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Como sobreviver à IA?

Nas Gargantas Soltas de hoje, Leonel Moura fala da nova Inteligência Artificial, conhecida por GPT, e dos desafios que ela coloca no mundo do trabalho, mas também para a civilização humana.

Opinião de Leonel Moura

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A nova Inteligência Artificial (IA), conhecida por GPT (Transformador Generativo Pré-treinado), é um modelo que assenta na extraordinária capacidade combinatória dos computadores, numa aprendizagem profunda e na interação homem/máquina através da linguagem corrente. Para além do conhecido Chat (conversa), têm sido desenvolvidas outras aplicações, nomeadamente as que geram imagens a partir de textos.  O comando, em texto corrente, que desencadeia o processo chama-se prompt, sendo simultaneamente uma forma de programação e um estímulo para a máquina.

Porque é que esta nova tecnologia está a motivar tanto debate e preocupação?

Porque vai mudar radicalmente a nossa sociedade, como nenhuma tecnologia antes o fez. Nem sequer a Internet ou a robótica.

Para se entender esta afirmação é preciso recordar que não devemos olhar para as novas tecnologias tal como elas são, mas como podem vir a ser. Ninguém consegue com rigor prever o futuro, mas podemos antever tendências. E aí, a nova IA aponta para realidades altamente disruptivas. 

A breve trecho, será impossível distinguir o que é produto de uma máquina daquilo que é produto de um ser humano. Já hoje os textos gerados pelo ChatGPT ou as imagens criadas por aplicações similares, são indistintas daquilo que uma pessoa, mesmo bem informada ou criativa, consegue realizar. 

Por outro lado, estes sistemas estão a ganhar crescente autonomia, tomam decisões e evoluem fora do controlo humano. Não é possível antecipar que direção esta evolução vai tomar ou que objetivos possa vir a ter no futuro.

Motivo de preocupação é igualmente a substituição de muitos profissionais por máquinas. Coisa que já sucedeu com a Internet e a robótica, mas que agora atinge setores que se pensava serem exclusivos das capacidades humanas mais desenvolvidas. Ou seja, mais do que substituir mão de obra desqualificada ou repetitiva, a nova IA está a substituir trabalhadores muito qualificados, gestores, criativos, programadores e muitos cargos de decisão técnica ou política. 

A nova IA vai também gerar uma realidade paralela tão sofisticada que não a conseguiremos distinguir da realidade tal como até aqui a conhecemos. O que vai provocar uma espécie de loucura, similar à experimentada com drogas alucinógenas ou na esquizofrenia. Tal como hoje temos multidões que acreditam em tudo o que é colocado nas redes sociais e nos media, não conseguindo, nem querendo, distinguir o que é falso ou manipulado dos factos reais, com o ChatGPT e outras aplicações, a maioria vai deixar de refletir assumindo como verdadeiro o que é fabricado, virtual e, mesmo, absolutamente falso. Já hoje é possível fabricar situações, conversas, atos, que nunca existiram. Imagine-se a sua utilização no confronto político, empresarial ou nas relações pessoais?

Perante isto, muitas pessoas, entidades políticas e outras, cientistas, académicos e técnicos, apelam à regulação e até à censura para evitar o desastre. Não vai ser possível. Ou pelo menos, nada de significativo se conseguirá. A capacidade de adaptação desta tecnologia está na base da sua própria “natureza”.

Mas, se coletivamente estamos a caminhar para um pesadelo, do ponto de vista individual algo pode ser feito. A inteligência artificial não funciona como a inteligência humana. Assenta na lógica, enquanto a nossa assenta no emocional. No futuro, a IA pode vir a simular emoções, mas não será a mesma coisa. A inteligência biológica não é digital, mas analógica. O que significa que para além de produzir uma infinidade de variações para um mesmo problema, não se limitando, portanto, ao booleano, no qual uma coisa ou é verdadeira ou é falsa, também dá imensos erros. A nossa inteligência e a nossa cultura assentam na tentativa e erro de múltiplas variantes e não no 0 ou 1.

Feita esta distinção, a IA é muito melhor do que nós nalguns domínios e pior noutros. Não é uma novidade. Muitos seres vivos têm capacidades bastante superiores aos humanos. O olfato de um cão é até 100.000 vezes superior ao nosso; a visão de uma águia consegue distinguir pequenos movimentos a enormes distâncias; a audição dos morcegos é 10 vezes acima da nossa; a regeneração celular de uma salamandra é espetacular conseguindo substituir membros e órgãos quando amputados. 

Sucede que a IA tem capacidades que entram diretamente em competição com as nossas. Uma águia tem uma excelente visão, mas nós inventámos binóculos, assim como muitos aparelhos que ampliam as nossas pobres capacidades sensoriais. Mas, para a extraordinária capacidade de reconhecimento de padrões a partir de milhares de milhões de dados, só temos uma maneira de superar as máquinas, ou seja, com máquinas ainda mais sofisticadas. Num paradoxo: para vencer a IA só com mais IA.

O que fazer então?

Para já temos, nós mesmos, de evoluir. Passar de fazedores das coisas para desencadeadores daquilo que faz. Por isso, se fala de “engenheiro prompt”, “artista prompt” ou “gestor prompt”. Pessoas que conseguem tirar o melhor partido da IA. São, aliás, profissões do futuro imediato.

Num plano mais geral, a situação ideal seria conseguirmos manter a atual relação simbiótica. A máquina precisa de nós, nós precisamos dela. Poderá ser difícil garantir a longo prazo, já que a evolução autónoma da IA poderá levar a que esta deixe de estar interessada nesse tipo de interação. Esse desafio, terá de ser respondido mais tarde. Se formos capazes.

-Sobre Leonel Moura-

Leonel Moura é pioneiro na aplicação da Robótica e da Inteligência Artificial à arte. Desde o princípio do século criou vários robôs pintores. As primeiras pinturas realizadas em 2002 com um braço robótico foram capa da revista do MIT dedicada à Vida Artificial. RAP, Robotic Action Painter, foi criado em 2006 para o Museu de História Natural de Nova Iorque onde se encontra na exposição permanente. Outras obras incluem instalações interativas, pinturas e esculturas de “enxame”, a peça RUR de Karel Capek, estreada em São Paulo em 2010, esculturas em impressão 3D e Realidade Aumentada. É autor de vários textos e livros de reflexão, artística e filosófica, sobre a relação Arte e Ciência e as implicações, culturais e sociais, da Inteligência Artificial. Recentemente, esteve presente nas exposições “Artistes & Robots”, Astana, Cazaquistão, 2017, no Grand Palais, Paris, 2018, na exposição “Cérebro” na Gulbenkian, 2019 e no Museu UCCA de Pequim, 2020. Em 2009 foi nomeado Embaixador Europeu da Criatividade e Inovação pela Comissão Europeia.

Texto de Leonel Moura
As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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