Vitorino Nemésio*, sobre o Verão, dizia que a temperatura condiciona o pensamento, que cria uma certa euforia, e que essa euforia desencadeia acidentes. Esses acidentes, prossegue, não são mais que manifestações da incomunicabilidade com o meio, da desatenção ao entorno. É este o conceito de comunicação que, por tão único e abrangente, rege as linhas que vos trago.

A fraca atenção que prestamos ao meio onde vivemos - devido à velocidade, às preocupações, às necessidades, ao ritmo de cada um - está na base da irresponsabilidade de muitas das nossas escolhas do dia-a-dia, e é neste ponto que um discurso sobre um tema tão diverso pode ter tanto significado em matéria de consumo. Se questionarmos o porquê de cada compra, veremos que muitas das aquisições são desprovidas de um sentido realmente válido. Ao invés, se procurarmos comunicar com aquilo que nos rodeia, se, ao adquirirmos, assumirmos um compromisso com o objeto, um compromisso de cuidar, de usar e reusar (porque é esse o seu propósito), de manter - em suma, se prestarmos atenção! - cada coisa encontrará o seu lugar e fará sentido. Se escolhermos as maçãs de forma criteriosa, quando as comermos essa consciência retornará; se comprarmos uma camisola com atenção à sua origem, material, versatilidade, durabilidade e fim de vida, ela fará sentido durante muito mais tempo; se chegarmos ao ponto de produzir um alimento ou um objeto, ele refletirá o diálogo interior que aconteceu. Comunicar, criar um compromisso é efetivamente uma atitude altruísta - altruísta connosco, com o outro, com quem produz, com a matéria-prima, com o Planeta - e assim, de uma forma tão simples, podemos dar sentido a muitas das nossas ações.

“O Verão vai longo e a comunicação difícil”, dizia o professor e poeta Vitorino Nemésio em agosto de 1971.


* Série “Se bem me lembro” de 1971, sobre o tema “Verão”, da autoria de Vitorino Nemésio, em: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/a-mentalidade-de-verao/

-Sobre Joana Guerreiro da Silva-

Arquiteta de formação pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, fez Estudos Avançados em Reabilitação do Património Edificado pela Faculdade de Engenheira da Universidade do Porto. Interessada pela fotografia, trabalhou em audiovisuais em Viena, Áustria, documentando os dois últimos dois anos da obra do Campus Wirtschaftsuniversität Wien, de onde resultaram várias publicações em diversos suportes. Colaborou em vários ateliers de Arquitetura e atualmente trabalha como Arquiteta da Divisão de Licenciamento e Gestão Territorial da Câmara Municipal de Odemira e frequenta o segundo ano da Licenciatura em Agronomia do Instituto Politécnico de Beja.

Texto de Joana Guerreiro da Silva | ZERO
Fotografia da cortesia de Joana Guerreiro da Silva
gerador-gargantas-soltas-joana-guerreiro-silva