O pianista Júlio Resende dá concerto de homenagem a Amália Rodrigues, no dia 8 de outubro, no Teatro da Trindade, em Lisboa. O concerto surge a propósito dos 20 anos do desaparecimento da fadista, símbolo incontornável da música nacional.

Este espetáculo faz-se acompanhar da carta aberta que Júlio Resende escreveu para Amália Rodrigues, muito terna e íntima, que desperta aquela nostalgia do fado e, enfim, do espírito português.

A carta é esta:

“Querida Amália,

Espero e desejo que estejas bem. Ninguém sabe o que acontece quando
morremos, mas é certo que tu vives ainda. Porquê, perguntas? Ora essa,
é simples a resposta. Porque ainda ninguém te esqueceu, querida
Amália. Já viste quantas vezes gostamos de dizer o teu nome ou escutar
a tua voz, quer seja nas ruas do Chiado a vender discos como se vende o
peixe que com grande esforço se foi apanhar ao mar, quer seja em casa,
fechados, e a sonhar cantar assim? Ai meu Deus, algumas mulheres se
pudessem cantar assim matavam. Ai meu Deus, e os homens, esses, ainda
lutam para mostrar que o Fado não é só feminino como tu eras.

Mas Amália, eu não quero ser ‘amaliano’. Perdoa-me!

Acho que o melhor modo de te respeitar é perturbar a paz pública.
Porque tu nunca quiseste seguir ordens musicais, nem manter tudo na
mesma. E é assim para mim também, minha querida. Por isso Amália, eu
estou aqui para assaltar as tuas músicas, pegar nelas como em pedras na
praia e atirá-las ao mar, e espantar-me, espantar-me muito ao contar o
número de ricochetes que a pedra faz até se afundar lá ao fundooo,
finalmente. E há lá coisa mais bonita? Perguntem a quem já atirou
pedras ao mar. Tenho sido um perturbador da ordem e, acredita, muito
inspirado por ti, pela tua capacidade em dizer “Não, eu não quero
fazer o mesmo que já se fez ou se faz. Eu quero bordar a minha música
e a minha vida ao modo que sou.” E eu sou isso, um improvisador,
Amália. Sou diferente todos os dias, quer componha uma canção, quer
faça um solo ao piano. Nunca nada está terminado para mim e, mais
importante que a construção do meu castelo de areia, é a diversão em
destruí-lo no final, mesmo que seja pela força do mar ou das minhas
mãos, nada melhor que ver a torre cair e o pátio desabar, e pensar,
perante o amontoado de areia, vamos lá fazer um castelo diferente desta
vez.

Assim te digo: Muito Obrigado Amália, por me inspirares a fazer
castelos de areia e a manter-me criança.  Que bom! Porque aqui as
crianças ainda sabem o teu nome.

Aqui as crianças ainda sabem o teu nome. Aqui, na tua terra, as
crianças, ainda sabem o teu nome!

Ninguém te esqueceu, Amália! Espero que continues bem.

Um beijo deste teu amigo, que nunca conheceste,

Júlio Resende.”

 

O custo do bilhete varia entre 12€ e 18€, dependendo do lugar escolhido.

 

Texto de Maria Costa

Se queres ler mais notícias sobre a cultura em Portugal, clica aqui.