Hoje é dia de São João a lembrar a mui nobre cidade do Porto, sua devota por excelência. Por coincidência relembro uma viagem de há alguns anos atrás, de Lisboa para o Porto, onde foi a “Invicta” que salvou a ilustre companhia.

Vamos aos detalhes.

Cheirar a "Mar"

Com as constipações de Inverno e as alergias da Primavera vai-se o olfato. Na maioria dos casos é aborrecido. Noutros, pelo contrário, ainda bem.

Vem este início de conversa para falar da importância que o cheiro tem na cozinha, de como o nosso prazer em comer fica ressentido se para além da vista e do palato não estiver também em jogo o já referido "olfato".

As manhãs de domingo em casa de meus pais, quando se fazia o “cozido à portuguesa”, estavam cheias desse odor bom da comida a apurar nas panelas, um cheiro a conforto e ao bem estar das coisas boas e simples que, ainda hoje, me faz voltar sem falhas a esses momentos do passado.

Também é verdade que -  noutras alturas -  alguma predisposição que tenho para o "tamponamento nasal" se transformou em uma autêntica dádiva do céu.

Ora um dos episódios sobre esta temática que melhor recordo, com saudade, foi a visita a Portugal de um grupo de Agentes Internacionais uns 30 anos lá para trás, com acompanhantes de todo o mundo, para uma das nossas reuniões anuais.

Nessa altura a reunião era na zona centro, o que deu azo a leitoadas (imaginarão que já aqui alguns narizes nórdicos franziram ao ver o “infante porcino”) nas Caves de Espumantes da Bairrada, sessões de Fado de Coimbra na Lusa Atenas, visitas guiadas ao Buçaco e à Serra da Boa Viagem, na Figueira da Foz, e terminando com Aveiro e Ílhavo e com a visita ao Museu da Vista Alegre (tudo bem) mas também às salgas e secas de bacalhau (tudo mal do ponto de vista olfativo europeu do norte)...

A autoestrada Lisboa-Porto tinha-se inaugurado e por isso mesmo a maioria dos Agentes até estranhou quando tomámos uma estrada interior perto de Cacia, dirigidos a Ílhavo.

À medida que nos aproximávamos um "odor" forte e caraterístico invadiu o autocarro.
Eu, já naquela altura um otimista de gema (e de nariz tapado pela alergia), dizia feito parvo:

"É o cheiro a maresia! Estamos cada vez mais perto do mar!"

Mas o que insultava as narinas dos outros nada tinha a ver com o mar, coitado! Eram os eflúvios que vinham das fábricas de celulose da Portucel, ali tão perto! Cheiro “esquisito” que fedia tanto mais quanto mais nos aproximávamos...

Depois dessa desventura ainda nos esperava outra pior: se um português pode perdoar ao "fiel-amigo" algum cheiro a "bedum" - para não falar de outras coisas piores - imaginem uma inglesa ou um holandês, da "high society", a passearem-se por entre filas de bacalhau a secar ao ar... Bacalhau ainda húmido está visto...

Já não tive coragem de servir bacalhau naquele almoço. Nem caldeirada de enguias (pudera)!

Tomei a decisão patriótica de ir tudo a correr direito ao Porto, onde houve que improvisar um almoço numas caves de vinho do Porto. Eles, os estrangeiros, do almoço nem quiseram bem saber.... Em olhando para a decoração do local, para as pipas a enfeitar as paredes, ficaram logo mais animados.

Foi só a partir da primeira garrafita de Porto seco que aqueles olhos nórdicos voltaram outra vez a brilhar... E daí até ao fim foi sempre a debitar combustível.

De tal maneira que - lá para as quatro e meia da tarde e já com vários cálices de Vintage a aconchegar o bucho - uma colega de Viena de Áustria me dizia:

"We forgive you!"

Vivó Porto carago!

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses.  Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho
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