Cada vez mais ouvimos que precisamos de níveis mais elevados de educação para conseguir melhores empregos. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho pauta-se de cada vez mais precariedade e o sistema de ensino que nos deveria preparar para o enfrentar mantém-se rígido e não responde às nossas necessidades. Se, por um lado, acreditámos veementemente que a pandemia viria a modificar tanto o sistema de ensino como o mercado de trabalho, rapidamente se fez de tudo para voltar à suposta normalidade pré-pandemia. 

Como Silvia Federici refere "there is no normality to go back to” e, na minha opinião, existe, sim, uma necessidade de lutar por mudanças significativas que tornem o sistema de educação mais inclusivo e acessível para todas as pessoas. Gostaria de partilhar a minha experiência pessoal, que é também a experiência de várias pessoas que entraram em mestrados durante um ano marcado pela Covid-19 e consequentes mudanças no sistema de ensino. Essas mesmas mudanças fizeram-nos sonhar com a possibilidade de adaptar o curso que escolhemos ao nosso percurso pessoal e profissional. 

No meu caso, escolhi um Mestrado que só existia em Lisboa em horário nocturno, mas sabia que não queria ficar nesta cidade, pois já tinha iniciado o meu percurso profissional a um nível internacional e, assim que a pandemia o permitisse, queria voltar a sair de Portugal. O ensino online trouxe-me assim a possibilidade de iniciar o meu projecto de empreendedorismo social fora de Lisboa - a Associação Youth Cluster -, frequentar todas as aulas sem perder horas em transportes públicos e até estudar um semestre no estrangeiro enquanto continuava a frequentar aulas do meu interesse em Portugal. 

Nesse primeiro ano de aulas aprendi através da diversidade de realidades e experiências das pessoas que frequentavam o mesmo curso, algumas delas residiam e trabalhavam em várias zonas do país e outras em diferentes continentes. Em geral, o mestrado era um complemento real ao nosso percurso profissional e que não exigia que condicionássemos a nossa vida para ir à universidade três vezes por semana para ter três horas de aulas.

Por um lado, acredito veementemente que o contacto pessoal com as colegas e docentes é bastante importante e tem um impacto essencial no nosso percurso. Diria até que se o ensino à distância fosse uma possibilidade durante a minha licenciatura jamais iria optar por essa opção, no entanto, no mestrado a realidade é diferente e o benefício do ensino presencial não deverá ser superior aos desafios que este mesmo traz consigo, ou seja, deveria haver um modelo que satisfaz as nossas necessidades. No caso deste mestrado, todos o frequentamos porque gostamos, todos temos espaço para falar, as aulas à distância foram bastante dinâmicas e conseguimos criar laços e projectos com as outras pessoas.

Neste novo ano lectivo, voltámos à dita normalidade e, a poucas semanas de começarmos as aulas, fomos informados que a pandemia já é uma realidade do passado e, por isso, as aulas deixaram de ser à distância. Por um lado, esta não era a informação que alguns de nós esperavam. No meu caso, no início do ano lectivo, estava a participar num programa de voluntariado na Grécia e, no regresso a Portugal no final de Outubro, tinha pensado mudar de casa para o interior de Portugal.

O sistema de ensino público à distância não foi uma novidade em Portugal, pois a Universidade Aberta tem estado na linha da frente na promoção de um sistema de ensino mais acessível e que permite investir numa formação contínua em qualquer fase da nossa vida. Desta forma, esta é uma possibilidade real e, num contexto de transformação digital, parece que não estamos a dar o passo em frente, mas sim um passo atrás e as consequências não se reflectem apenas na necessidade de adaptarmos a nossa vida ao curso que frequentamos e, por vezes, ter custos mais elevados. As consequências são também visíveis na desertificação do interior ao criar a impossibilidade de nos estabelecermos em zonas mais rurais e beneficiar a economia local, assim como na possibilidade de contratar professores de diferentes zonas do país.

Se o sistema de ensino não dá resposta às nossas necessidades e interesses é necessário que sejamos nós a procurar e criar alternativas. Para mim fugir ao standard dos cursos é uma opção interessante que nos permite colmatar alguns dos desafios deste regresso à normalidade no ensino superior. Para experienciar um ambiente mais intercultural e escolher disciplinas que façam mais sentido no nosso percurso académico em detrimento de um curso onde existem apenas duas disciplinas opcionais por semestre, o programa Erasmus+ dá-nos a oportunidade de estudar e estagiar fora de Portugal durante um período máximo de 12 meses. Existe ainda o programa Almeida Garrett, uma espécie de Erasmus em Portugal, que nos permite ficar um ou dois semestres noutra universidade pública nacional e assim podemos escolher mudar-nos de zonas urbanas para zonas rurais e vice-versa ou até mesmo escolher a única universidade pública de ensino à distância em Portugal para não limitar o nosso percurso pessoal e profissional seja ele nacional ou internacional.

A título de exemplo e, espero eu, de inspiração, no meu caso, a minha resposta ao meu mestrado que deixou de oferecer a oportunidade do ensino à distância inclui a participação nestes dois programas com o intuito de alcançar os meus objectivos pessoais, académicos e profissionais.

-Sobre a Margarida Freitas-

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais, queria mudar o mundo pela diplomacia, mas depressa percebeu que o seu caminho era junto das pessoas a fazer voluntariado nos mais variados contextos, logo adoptou o lema do ano sabático para a sua vida e já andou um bocadinho pelo mundo. Com um desejo de trabalhar em intervenção humanitária, mas com um grande cepticismo sobre as práticas das grandes organizações no Sul Global está a concluir o Mestrado em Estudos de Desenvolvimento no ISCTE. 
Em 2020, juntou 9 amigos e fundou a Associação Youth Cluster com o objetivo de dar as mesmas oportunidades que já teve a outras pessoas jovens residentes em Portugal. Através do seu trabalho na Youth Cluster e, em cooperação com outras organizações, tem reivindicado por igualdade de oportunidades e melhores políticas para a juventude. 
Nos tempos livres adora googlar sobre coisas improváveis.

Texto de Margarida Freitas
Fotografia de Rita Almeida
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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