Os livros são sempre difíceis de expor. Por serem frágeis, são normalmente mostrados fechados, impossibilitando-nos de os folhear”, dizem-nos os curadores da Feira Gráfica, em Lisboa. De facto, em grande parte das exposições, os livros encontram-se por detrás de vitrines, numa posição quase simbólica. Este ano, entre 3 e 11 de outubro, a Feira Gráfica dedica uma exposição em torno do ato de editar, e faz-se ouvir dizendo que vale a pena “Continuar a Publicar!”.

Nesta que é a 3ª edição, o Pavilhão Branco das Galerias Municipais - no jardim do Museu de Lisboa recebem “Continuar a Publicar!”, em exposição, e o site da Feira Gráfica abre-se a um programa online com conversas, lançamentos e apresentações de edições que foram lançadas durante a pandemia. Numa curadoria a quatro - dividida entre Emanuel Cameira (Barco Bêbado), Filipa Valladares (STET – livros & fotografias), Gonçalo Duarte (Oficina Loba) e Xavier Almeida (Estrela Decadente) -, as escolhas para o momento expositivo fizeram-se “à semelhança do que sucedeu nas edições anteriores”: “cada um dos quatro curadores escolhe artistas, editores e livreiros para mostrarem uma parte do que se publica por cá”. 

“Partilhamos uns com os outros as escolhas, adaptamos as opções, cruzamos olhares e leituras sobre a variedade de trabalhos existentes. São olhares naturalmente subjectivos e diversos que se vão ajustando para contemplar os múltiplos matizes deste segmento da produção cultural”, explicam numa voz una ao Gerador. 

De Abysmo a Ghost, do Atelier Ser às Não Edições, da Oficina Arara a’O Homem do Saco, há muito para ver, e nomes representativos de diversos géneros e gerações. Nesta mostra no Pavilhão Branco, os curadores reunem “algumas obras presentes, ou associadas, às publicações apresentadas, expondo assim, além das edições propriamente ditas, outros formatos que lhes estão associados”. 

“Continuar a publicar! é uma posição simultaneamente cultural e política e, nessa medida, um dever e uma missão. Além de darmos a ver o que, entre novembro de 2019 e setembro deste ano se publicou, é nossa intenção valorizar a criatividade que vem ganhando existência impressa, mesmo nas actuais circunstâncias de pandemia, criatividade que inclusive vem fazendo dos obstáculos oportunidades, que se vem assumindo como resistência, seja no sentido de 'endurance', seja, até, no de 'oposição' – ao que quer que nos limite, assuste ou diminua”, explicam.

Os cartazes da Feira Gráfica espalhados pela cidade de Lisboa já traziam a boa nova há mais de uma semana

Repensar formatos e fortalecer relações

Com os constrangimentos da pandemia, e “a obrigatoriedade do distanciamento social”, o formato da Feira Gráfica, como era conhecida há dois anos, teve que ser repensado. Como contam os curadores, isto “resulta na  impossibilidade de pôr o público em contacto directo com os editores/autores” e no facto de “apesar de estar prevista a possibilidade de visitar a exposição (com limitações em termos do número de pessoas presentes em simultâneo), essa visita implicará o uso de luvas e máscaras – um ‘novo normal’ ainda vivido com desconforto”.

“Numa perspectiva optimista, estamos convencidos de que a redução do número de visitas presenciais levará ao aumento das visitas virtuais, de vendas online, que é outra forma de estarmos em contacto e de enfrentarmos juntos os desafios que se nos colocam enquanto colectivo”, contam. Destacam ainda o desafio que foi “manter a vertente de venda através do site, ligando cada livro exposto ao site/página de Facebook do seu editor/autor, tornando assim possível que o público compre os livros diretamente a quem os faz”. “Desta forma mantém-se uma das intenções base do apoio da Câmara Municipal de Lisboa a este projeto que é o de apoiar o sector, ainda mais num momento em que os seus constrangimentos se adensaram.”

Também no sentido de fortalecer relações, o programa online terá “intervenientes de vários pontos do país”. Há conversas com pano para mangas, que tocam temas amplos dentro da reflexão principal da Feira Gráfica, como: Activismo Gráfico — território da edição como espaço de afirmação de identidade(s), com Cecil Silveira (Sapata Press), André Teodósio / João Pedro Vale / Nuno Alexandre Ferreira (Mercado das Migalhas), Rodrigo Saturnino e Sílvia Prudêncio; A criação como afronta, com António Cabrita, Gisela Casimiro e Regina Guimarães; Publicar em tempo de pandemia — constrangimentos e oportunidades, com Bruno Borges, Joana T. Silva (it’s a book), João Concha (não (edições)) e João Paulo Cotrim (Abysmo); e ainda Independência e apoios à edição — uma relação (in)compatível?, com Alex Vieira (Prego), Catarina Domingues (Chama | Ficção / Sr Teste), Celina Brás (Contemporânea) e Nuno da Luz (ATLAS Projectos). 

Este ano, as coisas não podem ser como antes, mas a Feira reiventou-se

É um plano extenso e plural, mas que se quer assente na união. “Há sempre um certo sentido de identidade que se forja nestes contextos, a ideia de se fazer parte de algo comum. Ainda assim, estamos a falar de projectos com matrizes muito diferentes, nem todos funcionando nas mesmas zonas de intervenção cultural”, contam os curadores.

Calendário do Nunca de Ostraliana (Sapata Press), Singular Form de Ana Margarida Matos, Revista Decadente 74, Diários do Corona de Bruno Borges (Fojo / O Gorila), Apesar de Não Estar, Estou Muito de Diogo Jesus, os livros em exposição de Filipe Felizardo, João José Maria Calhau de Rui Dias Monteiro e Not Human/ Not Fly de Mao são alguns dos intervenientes das apresentações que decorrem paralelamente às conversas, também no online. 

O programa completo já está disponível também no site da Feira Gráfica, que começou no fim de semana passado, e pode ser consultado aqui

Texto de Carolina Franco
Fotografias de ©Filipa Pinto Machado cedidas por Feira Gráfica

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