Olá. Como está a vida aí em casa? Como está a vossa situação financeira? Ainda têm emprego? Estão em tele-trabalho? Sei que um de vocês está desempregado e a ajuda social terminou? Como conseguem pagar as contas? E a renda que é pornográfica na maior parte dos casos? Poupanças? E como vão os miúdos? Aguentam-se à bronca? Espero que tudo fique melhor.

Olá. Como está tudo? Ainda à espera? A segurança social não vos garante a sobrevivência? Amanhã? Amanhã, não sei, mas temos de resolver o hoje, não é? O miúdo não estuda? Ah, o computador estragou-se. Vou ver o que consigo encontrar, tenho amigos que estão ligados a essas áreas e não deve ser muito difícil encontrar um mono.

Olá, como estão a aguentar? Têm tido apoio profissional? Quantas vezes por mês? E a medicação, conseguem comprá-la? Sim, aconteceu o pior, mas têm de conseguir fazer o luto, de encontrar uma forma para ultrapassar este momento e seguir em frente. Sim, sei que é fácil para os outros, mas acreditem que os outros têm os seus problemas e os seus lutos. Vocês têm amigos e todos estão à distância de um telefonema ou mesmo de uma visita. Sim, com máscara e luvas, não se preocupem, todo o cuidado é pouco.

Estes são alguns dos telefonemas que os amigos fazem a outros. Todos conhecemos alguém cuja situação profissional, doméstica e/ou social se deteriorou bruscamente num curto espaço de tempo. E ninguém estava preparado para isto, principalmente quando recuperávamos de uma situação com a imensa crise e a intervenção da troika. E sim, vamos ter de voltar a apertar o cinto e fazer grandes mudanças para o que aí vem.

Mas como conseguiremos? Alguns profissionais que trabalham em Psicologia apontam um estrangeirismo como parte da solução: “Coping”, do verbo britânico “to Cope”, tem sido estudado como uma resposta ao stress independente do seu tipo ou forma.

O Coping ajuda a lidar com problemas externos (um incêndio, um grande acidente, por exemplo) e internos (os que nos alteram a vida, ou parte dela, repentinamente). Estas últimas situações podem até ser, por vezes, positivas, como ganhar a lotaria, ser indicado para um lugar melhor, o nosso filho ter a melhor nota da turma. São factos que, por si só, mudam uma pequena parte do nosso elaborado calendário e provocam stress.

O stress implica um coping, por assim dizer, que pode ser dividido em duas vertentes: gastar energia em encontrar uma solução para resolver o problema ou foco total e concentração na regulação de uma emoção.

Neste momento, com o cansaço pandémico que todos vivemos, com problemas mais ou menos graves, sabemos que estamos todos “no mesmo barco” e que todos teremos de ser mais empáticos e esclarecidos para fazê-lo continuar a boiar com esperança de chegar a bom porto.

Todos temos o nosso próprio desenvolvimento para aguentar esse barco e, logicamente, somos reactivos de forma individual. Mas juntos trabalhamos para uma mesma solução.

Obviamente, é mais complicado se estivermos a viver uma situação de forma mais solitária, fechados sobre nós, e em que na qual podemos adoptar uma atitude passiva ou activa na resolução do problema.

Não é por acaso que o aumento considerável de consumo de álcool e outras substâncias seja uma realidade neste período pandémico, como outro tipo de “soluções” que nos afastem de encarar a realidade dos factos para tentar superá-la: comer de mais, deixar de socializar com os amigos, afastarmo-nos de tudo e, num repente, estar a braços com uma depressão. Esta é a atitude passiva que deveremos tentar evitar a todo o custo. Mas falar é fácil.

O Coping activo é, quase “simplesmente”, fazer parte da resolução do problema, compreendê-lo, nem que seja chefiar uma sessão terapêutica para levantar a moral de quem está em baixo.

Nem todas as acções são milagrosas, mas não fazer nada é tudo o que deveremos evitar. Porque o nada leva ao vazio e esse desencantamento é o problema mais difícil de ultrapassar.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
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