“Podia ter sido eu.” Foi o que Joana von Bonhorst pensou depois de ver a notícia de uma mãe que se esqueceu da filha no carro, num dia de trabalho, que acabou por ser encontrada sem vida. Depois de dias a pensar sobre o assunto, a ler comentários de outras mães a mostrar solidariedade com a mãe da notícia, mas também algum julgamento por parte de outras pessoas, achou que estava na altura de materializar um projeto que tinha há algum tempo na gaveta. Surgiu assim o Cordão, num impulso, como resposta a uma promessa de Joana a si mesma — “não passa de hoje”. 

O primeiro texto que escreveu foi a partir da sua experiência, deixando claro que considerava “dificílimo explicar de forma clara o que era a maternidade”. A plataforma que escolheu para o partilhar, o Medium, também deixava clara a sua intenção com o Cordão: criar um diário comunitário, no qual várias mães pudessem dar o seu contributo para pensar o que significa, afinal, a maternidade, mas, acima de tudo, que pudessem, juntas, mostrar o que vai ficando por detrás do véu. Os temas de que não se falam, os que são sistematicamente romantizados, os acontecimentos para o qual ninguém nos prepara. Uma comunidade que não quer deixar ninguém, nem nenhuma história, para trás. Todas são válidas. 

Houve uma altura em que se tornou comum oferecer um Álbum do Bebé às recém-mães, ou aos recém-pais, para que registassem todos os acontecimentos importantes do crescimento do seu filho. Em que dia nasceu, com que peso, quando nasceu o primeiro dente, em que dia disse a primeira palavra e qual foi. Quase nenhum desses álbuns contempla a experiência da pessoa que passa pelo processo de maternidade, como se sente, quais foram os seus desafios. É também no sentido de deixar registado esse outro lado que o Cordão foi criado. A melhor parte é que não fica fechado num álbum, guardado numa prateleira de casa, sem que ninguém lhe preste atenção; uma vez publicado um texto no Cordão, há a possibilidade de interação e de troca. A ideia é que nenhuma pessoa se sinta sozinha. “Criei o Cordão para que houvesse mais partilha e sobretudo diversidade de experiências, porque eu própria senti coisas de que ninguém me tinha falado.”

“Fui mãe há três anos e foi um processo de ajuste e transição que foi muito difícil para mim, porque não tinha referências próximas. Fui a primeira das amigas, não tinha ninguém à minha volta, no meu círculo próximo, com quem eu me identificasse e que fosse mãe. Com o ser mãe, vieram uma data de mudanças e foi difícil encaixar a Joana que eu era antes na Joana que agora tinha de ser mãe, que tinha de ter uma data de responsabilidades e rotinas muito diferentes, e sentia-me sempre muito isolada”, conta Joana von Bonhorst ao Gerador. No pós-parto, o Instagram tornou-se um lugar virtual onde encontrou outras mulheres que se identificavam com o que ia vivendo, e que começou a partilhar na sua conta. Procurava outras referências e não encontrava, sentia que existia uma lacuna demasiado evidente “nesta troca honesta de experiências”.

No começo, sentiu que fazia sentido assumir que era uma plataforma para mulheres, porque “apesar de haver esta onda de novos pais que se envolvem muito, a carga mental é das mulheres, e esta pressão toda está muito mais em cima das mulheres do que dos homens”. Quando Ágata Xavier — o braço-direito de Joana neste projeto — escreveu o texto “o PAI da criança”, no qual falava do pai que faz (diferente do pai que ajuda), ficou ainda mais claro que o Cordão estava aberto a todas as experiências. É por isso, mais do que um diário sobre maternidade, um diário sobre o processo de ter filhos. Nesta denominação ampla, entram gravidezes, perdas estacionais, inseminações, adoções. Todos os momentos do processo que quem se juntar à comunidade achar que faz sentido partilhar. “Não queria excluir ninguém, e, portanto, esta pareceu-me a definição mais lógica e inclusiva. Vem desta necessidade muito grande de vivermos isolados uns dos outros e não termos muito esta vida com sentido de comunidade, como antigamente se tinha”, explica.

É também no Instagram que partilha os textos do Medium, aos quais junta algumas referências de livros sobre o tema, ou contas de mães que gosta de seguir porque “são pessoas que demonstram naturalidade a lidar com as questões da maternidade” e podem servir de inspiração a alguém. Entre os livros estão Quanto tempo tem um dia, de Susana Moreira Marques, Adopção tardia, de Maria Sequeira Mendes, e uns quantos títulos internacionais. “Os livros foram a descoberta do meu pós-parto, a maior parte são em inglês, porque não temos muitos livros traduzidos sobre este tema, e eu acho que mereciam esse investimento das editoras precisamente pela mesma razão, porque acho que em Inglaterra, nos Estados Unidos, na Austrália se fala muito mais de perspetivas e desta política toda por trás da maternidade e cá ainda estamos um bocadinho perdidos neste posicionamento”, partilha Joana.

Uma comunidade aberta a mais perspetivas 

Para Joana, há um antes e depois de iniciar este processo. Sente que começou a “olhar para as pessoas e a ver o mundo de outra forma”, sobretudo depois de um parto não muito fácil. Nos últimos anos, a violência obstétrica tem sido um assunto posto em cima da mesa — e existe já um projeto de lei, apresentado pela deputada Cristina Rodrigues, que propõe a criminalização desta prática — , mas Joana von Bonhorst lembra que tudo isto vai ter a uma questão transversal: “Um problema muito grande na maternidade é o respeito pelas escolhas da mulher, sobretudo porque vivemos numa sociedade machista.” “Existe uma visão infantilizada das mulheres e parece que não somos capazes de decidir o melhor para nós e para os nossos filhos”, acrescenta.

“Acho que muitas vezes, mesmo esses movimentos que querem defender os direitos das mulheres, se esquecem de que a base de todos esses direitos é o direito à escolha. Digo isso porque se houve um desromantizar do parto e se fala honestamente de muitas coisas que acontecem nos hospitais portugueses, que são muito contrárias às recomendações e ao resto dos países da Europa, também se entra aqui numa zona da construção de um ideal de parto, e isso é um tema recorrente no Cordão, por exemplo, porque se construiu esta ideia de que uma mulher que vai informada vai protegida da realidade que existe nos hospitais portugueses. Mas isso não chega”, diz Joana. 

Muitas destas questões vão dar, também, à saúde mental. A criadora do Cordão partilha que durante o seu processo de gravidez, mas também no pós-parto, nunca lhe foi feita uma pergunta sobre a sua saúde mental por parte de profissionais de saúde. Segundo dados disponibilizados pela CUF, 20 a 35 % das mulheres sofre de depressão pós-parto, e cerca de 80 % sofre de baby blues

“A partir do momento em que tens um filho nos braços tens uma fonte inesgotável de amor e portanto, sim, vai ser sempre bom, e vai haver sempre aqueles relatos de quando o tens nos braços esqueces-te de tudo, inclusive da dor, e é um amor que nasce e só vai crescer, mas ao mesmo tempo, mais do que romantismo, acho que ainda há um grande vazio de experiências partilhadas num espaço público”, partilha Joana. 

Nestas experiências por partilhar e por documentar na primeira pessoa, encontra-se uma geração que “tem filhos cada vez mais tarde” e que enfrenta a precariedade — que é a geração de grande parte das colaboradoras do Cordão. “Eu acho que a nossa geração está no meio de duas realidades: somos muito diferentes das nossas avós e mães que ainda foram criadas naquela lógica da mulher ter de ser mãe, cuidar da casa; nós já quebrámos totalmente isso — tiramos cursos, pós-graduações, trabalhamos, e não vemos a nossa vida tão centrada nessa necessidade de ser mãe —, mas ao mesmo tempo a sociedade exige-nos isso.” E enquanto se exige, ou se pergunta inofensivamente “para quando um bebé?”, não se considera a diversidade de experiências e a possibilidade de escolha. 

Porque o Cordão é um diário sobre o processo, os assuntos não se esgotam no período de gestação, no parto e no pós-parto. Joana sabia, desde logo, que esta não seria uma conta sobre métodos de educação, mas é inevitável que se partilhem os desafios de educar. Nesse sentido, organizou um pequeno questionário sobre o tema “creche”. “Não fazia a mínima ideia de que o tema creche era um tema muito polémico porque, apesar de tudo, a maior parte de nós trabalha e temos todos consciência de que, sobretudo com as políticas de trabalho que temos neste país, a certa altura temos de pôr os miúdos numa creche. Se precisas de trabalhar, e acho que neste país muito poucas serão as pessoas que se podem dar ao luxo de não trabalhar, tens de o fazer. A partir do momento em que os pões numa creche, estás a abri-los um bocadinho ao mundo, e acho que essa escolha é uma escolha muito difícil, sobretudo para nós, que acho que somos a primeira geração que está a tentar mudar um bocadinho a forma como educa e como vê os filhos”, sugere.

Os temas não se esgotam, nem tão-pouco a diversidade dos testemunhos para de crescer. “Há sempre pessoas a ter filhos e perspetivas novas, há temas que ainda não foram abordados e que eu queria que fossem abordados”, partilha Joana. Para já, nestes primeiros meses de Cordão, a comunidade foi crescendo em torno da sua rede pessoal, mas o objetivo é que a rede se vá contagiando e alargando. Entre as perspetivas que gostava de ver neste diário comunitário, dá como exemplo a experiência de “casais do mesmo sexo”, de pais, homens, e de pessoas que tenham passado por um processo de adoção. “Eu tenho esta eterna questão que é: o que é uma mãe ou um pai? E quando é que te tornas mãe ou pai de alguém? Eu não tenho resposta para isso. Mas é óbvio que para mim existem muitas formas de o ser.”

“Gostava muito que o Cordão se mantivesse como este sítio de respeito e de entendimento de que cada caso é um caso, cada experiência é uma experiência, e estamos todos em pé de igualdade, não há nada superior ou inferior nas experiências no processo de ter filhos”, resume Joana. No futuro, gostava de reunir estes textos numa publicação, com uma periodicidade ainda por definir. No fundo, que o Cordão pudesse tornar-se mais uma referência em papel, num panorama editorial ainda muito vazio nesta temática.

Podes acompanhar o Cordão no Instagram, aqui, e juntar-te a esta comunidade com o teu testemunho no Medium, aqui

Texto de Carolina Franco
Fotografias de Joana von Bonhorst / Cordão