Desde que me conheço por gente que faço voluntariado em associações da minha região e, à medida que crescia, cresceu também o alcance desta atividade, tendo feito voluntariado por todo o país. Além disso, as causas Humanitárias sempre me cativaram e acabei por descobrir a minha vocação no voluntariado.

Quando iniciei o Ensino Secundário, descobri que vivemos numa Europa cheia de oportunidades e que podia juntar as duas coisas que mais gostava no mundo: fazer voluntariado e viajar sem pagar a “mini fortuna” que pediam em todas as associações que conhecia até então. Acabei então por mergulhar em inúmeras páginas web de associações que trabalham com bolsas Erasmus+, e tentei fazer o máximo de coisas possíveis.

Terminado o Secundário, a ideia de fazer um Gap Year foi automática. A verdade é que foi a melhor decisão da minha vida, e o facto de o ter feito encaminhou tanto os meus sonhos profissionais como as perspetivas para o futuro. Porém, também significou deixar de ter tempo para mim. A vontade de me sentir útil e o desejo de compensar o investimento feito em mim, seja pela bolsa mensal dada a voluntários em projetos como o Corpo Europeu de Voluntariado, o facto de me estarem a pagar voos e alojamento, como nos trainings financiados pela União Europeia, ou até, simplesmente, por me darem estadia ou alimentação, fez com que recusasse folgas e fosse fazendo horas extra regularmente e com que tivesse dificuldade de dizer “não” a tudo o que me era proposto. Com o tempo acabei por chegar a um pequeno burnout, que desencadeou uma forte crise existencial em que pus em causa se realmente gostava e me revia nos projetos em que estava e nas associações com que trabalhava.

Em conversa com colegas e amigos, acabei por perceber que este sentimento é muito comum em quem faz voluntariado há algum tempo. Há também por parte das associações uma diferenciação entre quem trabalha de forma remunerada e voluntários, em que acabamos por criar a ideia de que o voluntário é “mão de obra barata ou gratuita” e que está disposto a fazer todo o tipo de trabalho. A verdade é que quem corre por gosto também cansa e a visão do voluntário como um “super-herói” tem levado os mesmos ao esgotamento. O voluntário, tal como um assalariado, precisa de férias, folgas e horários de trabalho justos. Então, tenho vindo a perceber a falta de preservação da saúde mental, que tanto parte da pessoa que, num primeiro momento, está tão entusiasmada para trabalhar que tem dificuldade de dizer “não” ou impor limites, como da associação para a qual trabalha, que acaba por tirar proveito de uma mão de obra de baixo custo e com extra motivação.

É assim óbvio que voluntário tem de ser visto como o ser humano normal que é, sendo que, como tal, tem direitos e deveres de que ambas as partes têm de ter conhecimento e fazer cumprir. Este tópico tem vindo a ser destacado pelo Corpo de Solidariedade Europeu e, neste sentido, dá formação a voluntários que fazem projetos de longa duração. Nestas formações o tema não só é abordado como é dado enfoque à necessidade de fazer cumprir os direitos do voluntário. Infelizmente, com no terreno e na prática, estas diretrizes vão-se perdendo no tempo, levando muitas vezes os envolvidos a perder a noção dos seus direitos, o que rapidamente os pode levar a uma situação de desgaste extremo e, em alguns casos, até mesmo à alineação e perda de gosto e de interesse pela organização e valores das associações às quais se dedicam.

Mark Gorkin clarifica as diferentes fases do burnout do voluntário, no original «four stages of the volunteer burnout»: 1) há uma exaustão física, mental e emocional; 2) vergonha e dúvida 3) cinismo e cansaço; 4) falhas, dificuldade em ajudar e crise. Podemos, então, facilmente concluir que o cuidado com a saúde mental do voluntário é fundamental para que haja bons resultados a longo prazo. Logo, é importante prevenir a situação e isso é um trabalho que cabe às duas partes, porque é, naturalmente, do interesse de todos.

Recentemente trabalhei com uma associação que funcionava com base em estagiários e voluntários do Corpo Europeu de Solidariedade; a sua presidente confessou-me que, com a pandemia, acabou por perder alguns dos funcionários que tinha na associação e acabou por colocar demasiada responsabilidade e trabalho nas mãos dos voluntários. Referiu ainda que, num primeiro momento, não se apercebeu da situação e que os mesmos nunca reclamaram, mas começou a aperceber-se de quebras de produtividade e da degradação do habitual bom humor no escritório. Quando fez uma reunião de equipa percebeu que os voluntários estavam cansados e decidiu fazer um planeamento semanal mais exato para os mesmos, tal como faziam com os trabalhadores remunerados. Foi então que percebeu que os voluntários estavam a fazer imensas horas extra e encarregados de demasiadas tarefas e responsabilidades. Estavam assoberbados. Quando diminuiu a carga de trabalho dos voluntários, naturalmente, a produtividade e satisfação dos mesmos voltou a subir.

Para ajudarmos alguém ou alguma causa, seja de que forma for, temos de estar bem física e mentalmente. O voluntariado tem inúmeros e conhecidos benefícios, como o desenvolvimento da empatia, a criação de espaço para novas aprendizagens e a possível descoberta de novas vocações, assim como a melhoria das que já temos. Porém, tudo isso só é possível se cuidarmos de nós e percebermos que tempo livre, férias e horários estáveis não são um luxo, mas uma necessidade. Saber dizer “não”, conhecer os nossos limites e as nossas necessidades é fundamental para o nosso bem-estar e, consequentemente, para fazermos realmente um bom trabalho. Só assim é que o voluntariado pode continuar sempre a ser algo divertido, satisfatório e dinâmico que, simultaneamente, nos faz crescer e desenvolver enquanto pessoas. Conseguindo o equilíbrio entre a vontade de ajudar e um trabalho saudável, o voluntariado é, sem dúvida, das atividades mais enriquecedoras que pode haver para a saúde mental.

-Sobre a Mariana Souza-

Apesar da sua localização nunca ser exata, cresceu em Constância, uma vila pequena, mas encantadora no Ribatejo. Sempre foi “uma rapariga das causas” o que fez com que o voluntariado e as causas humanitárias fizessem parte da sua personalidade desde a adolescência. 
Licenciou-se em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa e, durante toda a licenciatura e mesmo agora, no ano seguinte à mesma, esteve sempre envolvida em projetos de voluntariado internacional e nacional. 
É uma das co-fundadoras da Youth Cluster e tem como objetivo tornar não só o voluntariado internacional como diversas oportunidades como estágios remunerados e formações acessíveis a todas as pessoas.

Texto de Mariana Souza
Fotografia de Luís Lopes
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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