A sala Luis Miguel Cintra, no São Luiz, está envolta num silêncio por vezes corrompido pelo burburinho do público. O espetáculo começa em breves instantes. Entra em palco alguém como se entrasse em sua casa: acende as luzes, arruma o cenário dando-lhe forma e fica a um canto, numa mesa cheia de bebidas e com alguns elementos, virada de costas para o público. Assim que liga os interruptores percebemos que é Paula Sá Nogueira, atriz do Cão Solteiro.

Sabemos pelo guia de leitura que a criação que vai passar naquele palco vai beber a referências do cinema musical e depois de uns minutos musicados apenas pela existência de Paula em palco, confirmamos as expectativas. João entra palco adentro a cantar a dúvida que o acompanha no caminho: ficar ou não ficar? Cecília entra e convida-o a ficar.

João e Cecília, as personagens, são João Duarte Costa e Cecilia Henriques, os atores. Mais tarde percebemos que, na verdade, todos os intérpretes em palco estão a fazer de si mesmos – isto é, com o seu nome pessoal, alguns pormenores em comum com a vida real e outros que não sabemos ao certo se serão ficção ou não.

João encontra o espaço praticamente vazio, com Paula Sá Nogueira ao canto

Sentados em roda, acompanhados pelo cenário criado pelo artista plástico Vasco Araújo, começam uma conversa conduzida por André (Godinho), que troca o papel de encenador pelo papel de moderador de um grupo de Artistas Anónimos e impulsionador de uma tentativa de bem estar. Neste grupo discutem-se as dores de criar e vê-se a não-criação como uma espécie de antídoto do que será uma vida feliz, num futuro que todos querem alcançar.

“Olá, eu sou a Cecília e sou Artista. E não pratico há 23 meses”, lança a certa altura Cecília Henriques, que se recusa a ser “a pessoa mais infeliz do mundo”. Para isso quer contrariar as propostas que vão surgindo enquanto atriz e seguir o sonho de ser engenheira agrónoma em Castelo Branco.

Através de uma partilha crescente, por vezes interrompida pelas intervenções de Patrícia (da Silva) ou pelos silêncios de Rodrigo (Vaiapraia), vão sendo levantadas questões relacionadas com o universo artístico e a angústia de criar, algumas vezes reforçados pelos momentos musicais a solo, em dueto ou em grupo. Afinal, onde fica a ideia por vezes idílica de que criar é um processo catártico se dele faz parte tanta angústia? Quais são os limites da criação? A máscara social de um artista é composta por múltiplas máscaras?

Em “Could Be Worse”, como na vida, a dor de criar estende-se a todas as áreas artísticas

Na tensão entre o indivíduo e o grupo vive o que fica por dizer, o que é dito mas nem sempre é recebido por todos da mesma maneira e a urgência de partilhar para amenizar a dor. Afinal, podia ser sempre pior.

Em entrevista ao Gerador Paula Sá Nogueira partilha que “Could Be Worse” surge de “um pensamento muito português” e que o espetáculo foi pensado num período mais complicado para o Cão Solteiro. “Digo que é algo muito português porque mesmo quando um edifício cai, podia ser pior; podia sempre ser pior.”

Numa parceria que não é de agora, André Godinho e o Cão Solteiro têm vindo a pensar os limites e as relações entre cinema e teatro. Paula explica que “os temas centrais dos espetáculos” tocam sempre em assuntos que lhes dizem respeito “enquanto indivíduos, e depois enquanto artistas também.”

E se em palco pudesse haver a sensação de que André Godinho, Cecília Henriques, Gonçalo Egito, João Duarte Costa, Mariana Magalhães, Patrícia da Silva, Paula Sá Nogueira, Rodrigo Vaiapraia e Tiago Jácome constituíam um grupo semelhante a uma comunidade artística, André pensa que “a ideia de comunidade artística é uma falsa questão, porque as pessoas são elas individualmente”. Paula acrescenta: “Há tanto como a comunidade dos médicos, dos arquitetos, dos sapateiros… Há um conjunto de pessoas que têm essa profissão, se elas comunicam imenso entre si e se identificam imenso umas com as outras, acho que não.”

Vaiapraia acrescenta à reflexão que “Um dia não são dias quase todos os dias”

Se em palco cada artista faz de si mesmo com apontamentos de realidade cruzados com outros de ficção, no processo de criação a partilha é um momento importante. “Há sempre um processo de criação em conjunto. No inicio da criação eu e a Paula fizemos uma residência, onde também esteve o Vasco Araújo, para criar as bases do que seria o espetáculo, mas depois o texto só começou a ser escrito quando nós começámos a trabalhar com os atores. Há uma coisa recorrente na maneira de trabalhar do Cão Solteiro que é pensar que todas as pessoas que trabalham no espetáculo podem ser, de certa maneira, criadores”, explica André Godinho.

Quando se desligam as luzes pela mão de Paula Sá Nogueira e começam a ouvir-se aplausos, fica a sensação de que “Could Be Worse” foi um sonho intenso que tivemos durante quase duas horas. O cansaço visivel nos atores que regressam ao palco para os agradecimentos relembra-nos que não, e que dali ficam sementes de possíveis discussões a ter fora da sala de espetáculos.

“Could Be Worse” mantém-se em cena no São Luiz até ao dia 8 de março, em horários que podes consultar aqui. A banda sonora da peça, que ficou a cargo de PZ, Rodrigo Vaiapraia, Rui Antunes e Violeta Azevedo está disponível no Bandcamp, podes consultá-la aqui

Texto de Carolina Franco
Fotografias de ©Joana Dilão
O São Luiz é parceiro do Gerador

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