Crazy times, são os tempos que temos vivido, e cada vez mais tenho a certeza de que temos de ser ativos na luta contra o racismo.

A doença Covid-19 mata, mas, como bem sabemos, o racismo também.

Milhares de pessoas caminharam, juntas, nas ruas de Lisboa, naquele que para mim foi um dos dias mais bonitos nesta luta… e eu, infelizmente, não estive lá. As pessoas foram conscientes e tomaram todas as precauções devidas em tempos de pandemia (do que pude assistir). A vontade de gritar e querer dizer que estamos fartos foi muito superior ao medo de apanhar um vírus. Afinal, a defesa pelos direitos humanos e pela igualdade é de valor muito superior à suposta proteção contra um vírus que, provavelmente, todos iremos apanhar (ou já apanhámos). Big Up para as várias personalidades do nosso panorama que estiveram a gritar na manifestação, não contra algo ou alguém em particular, mas sim a exigir direitos iguais. No fundo, o que queremos é apenas que entendam que as nossas vidas importam, nem mais nem menos.

O pós-manifestação tem sido algo muito feio de se ver. Chega ao ponto em que vejo muitas pessoas chateadas com quem luta contra o racismo. As cenas vergonhosas de pessoas a saquear lojas nos E.U.A., que, de repente, muitos começaram a partilhar nas redes sociais, em nada representam esta luta. Assim como, cartazes com frases infelizes de um adolescente, em nada representam esta luta. Mas têm sido estas situações e acontecimentos infelizes que muita gente partilha. Assisti a vários “amigos” nas redes sociais que não partilharam um único post sobre o assunto “contra o racismo”, nem em tom de solidariedade, nem em tom de apoio, mas que foram os primeiros a partilhar tudo o que de mal se passou e que, no fundo, não passou de algo sem qualquer expressão.

Portugal necessita de mais manifestações e o mais importante, mais organização, organização igual à que vimos na manifestação de 6 de junho. Não estamos contra ninguém, só contra o racismo. Precisamos da ajuda de todos.

E porque é imprescindível ter a ajuda de todos, ter a consciência de todos, devemos também nós, individualmente, perceber algumas opiniões e pontos de vista de quem vê o assunto do outro lado. Já o fizemos por inúmeras vezes, mas atendendo aos acontecimentos dos últimos dias, tomei a liberdade de trocar algumas ideias com a minha companheira de há 15 anos e pedi-lhe a sua opinião para este mesmo artigo. Aqui a deixo:

“Este é um tema que nos toca muito, mesmo no interior da nossa família. Se, por um lado, nunca olhámos uns para os outros como cores, infelizmente já tivemos tristes realidades, no dia a dia, que nos fizeram ter de reparar o quanto somos diferentes… mas apenas na pigmentação, ou na melanina, o que for.

Já passámos de tudo, desde virar costas à família, a adotarmos certos comportamentos para ‘fintar’ o racismo (ainda me lembro de querermos apanhar um táxi no final do cinema e teres de te esconder para o taxista pensar que era só eu a apanhar o táxi, se não não parava), o ouvir ‘afinal os teus filhos até são clarinhos’, ou levar o nosso filho ao médico e perguntarem-me ‘E a senhora, quem é?’… Bom, só um ignorante é que pode achar que o racismo sistémico não existe, só uma pessoa muito mal formada, um ignóbil que se recusa a olhar para o mundo, com receio de descobrir que o mundo não é o seu próprio umbigo. Ouvir coisas como: ‘Ah, eu nunca senti o racismo’, ou, ‘Agora é tudo racismo, parece que está na moda’… como dizer isto de uma forma educada? É preciso ser completamente vazio, oco por dentro, para proferir afirmações deste tipo. O racismo é um mal sistémico, é um cancro que corrói, que mata, que destrói. Enquanto ‘branca’ numa sociedade maioritariamente branca, tenho completa consciência do meu privilégio branco, um privilégio que não pedi, que detesto, mas que sei que me acompanha. Ter profundo conhecimento e aceitação deste privilégio é o que me faz ter cada vez mais raiva do racismo, é o que me faz tornar, finalmente, uma pessoa anti-racista. Não basta ouvir o politicamente correto, temos de passar a assumir a nossa posição, e a minha sempre será a do anti-racismo, pelos meus, por todos no Mundo inteiro que, de uma forma ou de outra, são vítimas deste e de outros preconceitos, de discriminações diárias, de desigualdade enquanto seres humanos.”

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas.Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
Fotografia de Lucas Coelho
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