COZINHAR É UM SUPERPODER pode ler-se em rosa-flúor num avental que fiz a propósito d’O DA JOANA no 24 Kitchen. Escrevi isto com a maior das convicções no livro que deu origem ao programa, porque acredito mesmo que os superpoderes do quotidiano são aqueles que nos conferem as capacidades necessárias para superar as agruras e os reveses que se nos atravessam no caminho. 

Cozinhar é uma daquelas disciplinas que naturalizei ainda em tenra idade e que, por força de como a vida decidiu desenrolar-se, eu que passei os anos todos a tentar fugir das cozinhas, acabei por regressar a uma bem visível, em busca de conforto. A história de como se tornou conhecido que cozinhar é importante para mim já a contei mil vezes e não me interessa nada repeti-la aqui. A mim interessa-me saber que, por razões de natureza pandémica - ou quaisquer outras, começámos colectivamente a cozinhar. Em última análise, a valorizar essa acção, o trabalho que dá e o que ela produz. A ocupar as cozinhas com outros olhos, de outra forma, com outras intenções.

Num mundo cada vez mais voltado para uma ideia de imagem, a tendência é a de olhar para a alimentação com intenções binárias e altamente utilitaristas, o que acaba no fundo, por retirar à comida, ao alimento, à alimentação, grande parte do seu valor simbólico representado de tantas formas em todas as culturas. 

Aquilo que proponho, sempre que cozinho por aí, é precisamente recuperar essa lógica da importância da alimentação para lá daquilo que são as necessidades primárias a ela associadas. Desejo muito que olhemos colectivamente para a possibilidade de cozinhar não como uma obrigação que se esgota na função seguinte, a de comer para não ter fome, mas sim como a possibilidade de praticar variadíssimas formas de activismo que, no final da cadeia de eventos, compensem o colectivo de alguma forma. 

Tornou-se evidente durante os dois confinamentos que já vivemos, que comemos muito mais do que precisamos, que passamos o dia a comer, e que isso tem um forte impacto na forma como aguentamos os dias. Que uma dieta equilibrada é a base de uma boa nutrição. Que fazemos muito lixo com muita embalagem. Que apalpar a fruta é importante para escolher a melhor para cada um de nós, e que desenvolver uma boa relação com as figuras do talhante ou da peixeira é meio caminho andado para adquirir produtos de qualidade e confiança. Todas estas pequenas coisas, na tal lógica superior das cadeias e dos ciclos, são gestos que podem operar a tão necessária mudança na nossa vida e, consequentemente, na vida do planeta. Na viabilidade da manutenção deste modelo de vida que afinal não é nada mau. 

O superpoder entra em toda esta cadeia de acontecimentos, porque o superpoder é a possibilidade de transformar os alimentos em refeições, de aproveitar o que sobra, de poder transformar e conservar o que sobra. O superpoder é a possibilidade de fintar todos os ingredientes desnecessários que aditiva e que nos fazem mal. O superpoder é a possibilidade de nos tornarmos comensais cada vez mais informados e hábeis, capazes de levantar questões e criar momentos de desequilíbrio nas cadeias de produção e fornecimento. 

Em última análise, o superpoder é a possibilidade de ocupar a cozinha de uma nova forma: como um espaço onde se pode preparar a revolução, que não será feita com um ajuntamento, mas sim desde as nossas casas, cantinas, restaurantes, cozinhas comunitárias ou acampamentos. 

Prenhes de cultura alimentar e agrícola, seremos capazes de fazer face ao futuro com novos recursos.

Por isso, o superpoder que cozinhar constitui é a derradeira ferramenta.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Joana Barrios-

Joana Barrios divide-se entre o teatro, a televisão, a internet, e cozinhas. É atriz formada pela ESTC, fez uma pós-graduação em Crítica de Cinema e Música Pop e passou uma temporada com a coreógrafa Anna Sánchez, em Barcelona. Começou a trabalhar com a sua companhia fetiche, o Teatro Praga, em 2008, muito por causa de uma T-shirt de Sonic Youth. Não parou e o romance dura até hoje. Foi a porteira de discoteca mais simpática de sempre, no Lux/Frágil. Escreve. Imenso. Partilha as suas opiniões sobre Moda em TRASHÉDIA.com há já uma década. É co-autora e apresentadora de ARMÁRIO, a série de documentários sobre Moda emitida na RTP2, produzida por Maria João Mayer e vencedora do prémio de Melhor Programa de Entretenimento da Sociedade Portuguesa de Autores. Colabora com o Canal Q em programas como Super Swing ou Princesas e Doentes, sempre ao lado de André e. Teodósio. Em paralelo à sua carreira como autora e actriz, em 2017 publicou NHOM NHOM, um livro de receitas para crianças, porque crescer dentro da cozinha de um restaurante deixa óptimas mazelas para a vida, e em 2019 assumiu a liderança da cozinha da casa mais arejada do país, a da Cristina [Ferreira]. Em 2020 chegou O DA JOANA, um livro de receitas para um público mais abrangente. Com a pandemia de Covid-19 actividade performativa passou toda a ser bastante digital, mas haveremos de voltar aos palcos e assim!

Texto de Joana Barrios
Fotografia da cortesia de Joana Barrios
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