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Opinião de Sofia Dinis

Criança interior

Nas Gargantas Soltas de hoje, Sofia Dinis diz-nos que todos precisamos de dar a mão à nossa criança interior.
“É fulcral criar um lar para a nossa criança interior, dar-lhe abrigo e confiança para ser quem é. ao acolhermo-nos enquanto crianças, estamos a aceitar-nos na nossa verdadeira essência, sem máscaras.”

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o silêncio solar das manhãs
e a magia cantada da nossa felicidade,
recordas mãe o riso aberto
das crianças na paz do nosso quintal?

josé luis peixoto, in a criança em ruínas

dentro de cada adulto, por detrás da pele curtida pelo sol e das mãos enrugadas pelo tempo, vive uma criança que nunca chegou a crescer. ela esconde-se num canto refundido da memória, onde habitam recordações distantes de pessoas vivas e mortas, tão longe que se misturam entre sonhos e realidade num cenário variável entre as cores e o preto e branco. sentada, espreita a vida através dos nossos olhos com a ansiedade de quem espera que algo maravilhoso aconteça. tem fé no futuro, ele é um horizonte que o seu olhar não consegue abarcar.

as crianças representam os nossos melhores aspetos: elas são curiosas, sinceras, espontâneas, divertidas. como não olham apenas para si, são solidárias, altruístas e humildes, fortes em valores e preocupadas com o que as rodeia. vivem para ser e tornar os outros felizes e fazem da vida uma brincadeira, uma gargalhada constante. veem o mundo como ele é: uma tela colorida.

a criança não se compara com outras crianças, pois seu olhar não está voltado para dentro, mas para o mundo lá fora.

stefanie stahl, in acolhendo sua criança interior: uma abordagem inovadora para curar as feridas da infância

desde cedo, incutem-nos a matar a criança que vive dentro de nós. quando nos criticam por sermos imaturos, sonhadores ou ingénuos, levam-nos a acreditar que para sermos encarados com seriedade devemos perder características que nos tornariam melhores pessoas. a criança é uma versão melhorada do ser humano que com o passar do tempo se vai deteriorando, vítima dos comportamentos dos adultos.

freud detetou que as neuroses e distúrbios de caráter resultavam de conflitos que não tinham sido resolvidos na infância, repetindo-se durante toda a vida. criando um ambiente seguro para que essas questões emergissem, conseguia fazer com que as pessoas se abrissem e recriava ele próprio o papel de pai da criança ferida.

é precisamente no resgate da criança interior que reside a nossa cura; somos o resultado do que experienciámos no passado, mesmo que não o partilhemos e o tentemos encobrir. contudo, quando os desenhos de infância não refletem um arco-íris por baixo de um sol radiante e uma família de mãos dadas e sorrisos rasgados, esta recessão pode trazer no pincel uma tinta de dor. em vez de passarmos uma borracha por cima, vamos escrever ao passado.

escrever à causa da nossa mágoa não é fácil, implica lidar com sentimentos nefastos que deixámos na mesa como uma conta por pagar. é pegar numa pá e desenterrar os ossos da criança que fomos e reconstruir memórias que não chegámos a ultrapassar. interrogamos mesmo sabendo que as respostas se perderão no eco de um buraco negro, que o efeito que têm é o de um boomerang regressando ao ponto de origem, incólume. mas não é pela obtenção de respostas que fazemos as perguntas, é pela cura que advém quando se ganha coragem para tocar num assunto morto. falar do passado permite-nos realizar uma visão holística e força-nos a lidar com questões dolorosas, aceitando que aconteceram sem a procura de uma justificação.

é nessa altura que a criança que fomos deixa o seu canto e regressa à nossa pele. os sentimentos recalcados atropelam-se no meio de soluços e, no final, uma sensação de leveza atravessa-nos o espírito, como um soldado cansado que regressa vivo a casa e se perde no abraço de quem o espera. para trás, a raiva e a mágoa reprimidas da criança que impediam o adulto de ter uma existência próspera, boicotando a sua felicidade com episódios do passado.

recuperar a criança perdida é dar um abraço à nossa versão infantil, oferecer-lhe um porto de abrigo e apaziguar a dor. a ideia não é vitimizar-nos, antes compreender a razão para certos comportamentos que nos deixam confusos e até desiludidos connosco. muitos advêm da nossa infância, de ações e atitudes que observámos ou experienciámos, grande parte através dos nossos pais.

para sermos a nossa melhor versão, basta estendermos a mão à criança e puxá-la para fora. é preciso parar o tempo, calar o adulto ansioso em que nos tornámos de agenda lotada de compromissos inadiáveis e objetivos inatingíveis, atolados de trabalho que se multiplica impedindo-nos de brincar. dizem que tempo é dinheiro, porém de nada vale fazer dinheiro se não houver tempo para o gozar. não se compra nem se ganha tempo, tornando-o mais valioso que o dinheiro, impossível de controlar.

que conselho darias ao adulto que és se tivesses oito anos? o que pensarias da forma como tens agido? que tipo de mãe ou pai serias? o que farias com o teu tempo? o que te faria rir? onde gastarias o teu dinheiro?

as crianças, naturalmente repletas de maravilha, são espontâneas e vivem o agora.

john bradshaw in volta ao lar - como resgatar e defender a sua criança interior

não é nas metas a alcançar que reside a tua felicidade, ela existe no aqui e no agora, não nos planos que traçaste para o futuro. deixa a criança que foste silenciar o adulto em que te tornaste, pergunta-lhe o que faria nessas circunstâncias e verás que consegues ser melhor não apenas para ti, mas para quem te rodeia.

todas as crianças precisam de uma casa. um lar é onde podemos ser nós mesmos, onde encontramos familiaridade, refúgio, segurança e onde adquirimos o sentimento de pertença. é fulcral criar um lar para a nossa criança interior, dar-lhe abrigo e confiança para ser quem é. ao acolhermo-nos enquanto crianças, estamos a aceitar-nos na nossa verdadeira essência, sem máscaras. dizemos ao espelho: eu gosto de ti como tu és. és suficiente. és o melhor que podias ser e não preciso que sejas de outra maneira.

claro que isto não implica que não possamos trabalhar as nossas características mais frágeis e melhorar aspetos que sentimos que devem ser polidos. contudo, não devemos fazê-lo para agradar terceiros ou encarar este objetivo de forma obsessiva em busca da perfeição e consequente validação. a busca pela validação é um atributo da criança que fomos e que não se sentiu aceite, transportando para o presente a mesma necessidade.

sempre que o homem sonha o mundo pula e avança.

é a curiosidade e o sentimento de deslumbramento típicos de uma criança que servem de fio condutor na direção de horizontes em expansão contínua. é essa faísca de vida que serve de rastilho para que sejam feitas grandes descobertas, para que se escrevam livros icónicos e se façam pinturas extraordinárias. o homem é incapaz de grandes conquistas sem dar a mão à sua criança interior.

somos meninos e meninas a correr descalços na manhã de natal, mal dormidos à espera do pai natal que não encontrámos, sedentos por desvendar a origem de cada embrulho, ignorando que a magia reside em não saber.

quero ser criança e ter lápis de todas as cores, acreditar em super-heróis, num mundo onde o bem vence o mal e que, no final, todos vivem felizes para sempre. acreditar num para sempre, eternizar os meus sonhos, sabê-los cor-de-rosa que é a cor do algodão doce, doce como a vida. ser feliz é ser pequenino, desenhar arco-íris, fazer bonecos de neve, acreditar que os beijinhos curam tudo e adormecer no colo da mãe.

com amor,
Sofia Dinis

-Sobre Sofia Dinis-

Sofia Dinis é tatuadora, fotógrafa, designer, ilustradora, criadora de conteúdos e muito mais. Sofia Dinis é artista.
Nasceu e cresceu em Albufeira, mas foi em Lisboa que floresceu. Mudou-se para a capital para tirar a licenciatura em design de comunicação, no IADE, e foi nesta cidade que construiu todos os seus projetos. Teve um espaço de estética e deu formação na área, trabalhou como fotógrafa e designer e abraçou a tatuagem como hobby.
Em 2017, viu-se obrigada a repensar o seu percurso profissional quando fechou o seu espaço de estética e design e regressou a Albufeira. No meio do caos, decidiu que queria ser tatuadora a tempo inteiro e a 15 de fevereiro de 2018 regressou a Lisboa. Dava assim o primeiro passo para se tornar a tatuadora que toda a gente conhece.
O projeto SHE IS ART nasceu em pleno coração de Lisboa, numa casa de Air BnB de uma amiga. Durante duas semanas, Sofia tatuou 2 amigos e fotografou os trabalhos de forma a parecer que tinha um extenso portfólio. Desenhou o seu Instagram, desenvolveu a marca e, duas semanas depois, começou a receber vários pedidos para tatuar, não tendo parado desde então. Em menos de um ano, tinha mais de 50 mil seguidores no Instagram e uma lista de espera de 8 meses.
A marca SHE IS ART não parou de crescer ao longo destes 3 anos. Neste momento, é muito mais do que um projeto de tatuagens, é um projeto artístico. O ano passado, Sofia lançou o seu primeiro produto, o Diário 2021. Este ano, tem já planeados novos projetos para apresentar ao público. Afinal, criar faz parte da sua essência.

Texto de Sofia Dinis
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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