Desde 2020 que notícias sobre a covid-19 assolam os nossos ecrãs e jornais, consumindo toda a atenção mediática e de um grande número de pessoas. Em segundo plano ficaram uma série de crises humanitárias que assolam o nosso planeta. No despontar de um conflito, parecemos ficar sensibilizados e alerta. As redes sociais são inundadas de partilhas, chegam-nos inúmeras reações de estupefação ou de revolta perante as notícias que evidenciam mais uma crise humanitária. Mas o que acontece duas/três semanas depois? As imagens, que tão acerrimamente inundavam stories de Instagram, deixam de aparecer. Voltamos a falar sobre os temas do dia a dia, ou, quem sabe, sobre uma outra notícia que surja. Significa isso que a(s) crise(s) humanitária(s) ficou(ficaram) resolvida(s)? Não. 

Falar em crises humanitárias é falar de situações de emergência generalizada que afetam uma região ou grupo de pessoas, resultando em altos índices de mortalidade, desnutrição, epidemias e/ou emergências sanitárias. Na sua origem podem estar causas de variadas ordens: motivos políticos, conflitos armados, causas ambientais (como desastres climáticos) ou razões sanitárias. É importante frisar que, nestes casos, não se trata, muitas vezes, de ter vidas confortáveis ou boas condições de vida. Muitas destas pessoas enfrentam perigos de tal ordem que se resumem a uma questão de vida ou de morte. Por isso, sempre que ouço argumentos como — não temos condições para receber refugiados — fico revoltada. Não consigo ver crises humanitárias como uma questão de condições, mas sim como o direito a viver. É a diferença entre uma pessoa perder a vida ou ter a oportunidade de continuar o seu caminho, mesmo que noutro território e com menos condições do que seriam desejáveis. Estar em segurança deveria ser a prioridade.

Há cerca de duas semanas, os nossos telemóveis, televisões e jornais foram invadidos por notícias sobre o Afeganistão quando os talibãs regressaram ao poder e invadiram a capital, Cabul. Este grupo é conhecido por ser fundamentalista religioso e já tinha dominado o Afeganistão entre 1996 e 2001. Embora ainda não sejam conhecidas ou claras as novas regras que os talibãs irão aplicar, olhando para o período de domínio que exerceram anteriormente, percebemos que muitas das regras aplicadas na altura são crimes de guerra e contra a humanidade. Um dos grupos que mais tem sido falado é o das mulheres, uma vez que, no regime anterior dos talibãs, viram a sua liberdade reduzida a praticamente zero — têm de estar cobertas da cabeça aos pés obrigatoriamente e não como escolha/convicção própria, não podem trabalhar exceto em alguns cargos específicos como os de saúde, não podem frequentar escolas, não podem sair de casa sem serem acompanhadas por um parente do sexo masculino, o regime foi ainda responsável por violações, sequestro e casamento forçado, entre outras medidas. O incumprimento das regras era punido com espancamento e morte por apedrejamento. Nesta retoma do poder, os talibãs disseram que teriam novas regras e que “não querem que as mulheres sejam vítimas”. Porém, das fugas de informação que tem havido, uma vez que o regime tem controlo sobre os media, vemos que não é isso que está a acontecer. Já foram partilhados inúmeros vídeos de mulheres afegãs que dizem, sem rodeios, que no dia seguinte podem bater-lhes à porta e serem mortas. Importa ainda referir o perigo que a comunidade LGBTQI+ poderá enfrentar com a chegada dos talibãs, mas também todas as pessoas que visam refugiar-se noutros territórios, quando a situação no aeroporto de Cabul é de alto risco e insegurança. 

Muitas pessoas se têm perguntado sobre o que podem fazer à distância, por vezes acreditando que estão de mãos atadas. Uma pessoa pode não conseguir terminar com uma crise humanitária, mas pode contribuir para salvar vidas. Acompanhando o trabalho de algumas ativistas, podemos perceber de que formas a nossa ajuda pode fazer a diferença:

- Pesquisar, informarmo-nos. Culturas marcadas por uma lógica de domínio fazem uso do medo para garantirem obediência. Nelas, somos levadas a acreditar, socialmente, que existem pessoas superiores e inferiores, fortes e fracas, muitas vezes tirando direitos às segundas. Como exemplos de sistemas de dominação podemos enumerar o patriarcado ou racismo, entre tantos outros. O conhecimento é uma arma poderosa porque diminui a probabilidade de manipulação social e dá ferramentas às pessoas para que possam lutar pela sua liberdade. Também nós podemos ajudar por nos interessarmos e importarmos em saber o que se está a passar noutros territórios e entender o quadro político, económico, cultural e social que levou ao surgimento de determinada crise. Tratemos de ser pessoas bem informadas.

- Podemos partilhar, ao longo do tempo e não apenas na semana em que toda a gente fala do assunto, notícias fidedignas, assim como lembretes de que as crises humanitárias não estão resolvidas. Desta forma, contribuímos para que estas pessoas não sejam esquecidas e, quem sabe, haja uma pressão social para que os órgãos de poder pensem em formas de ajudar estes países.

- Podemos seguir ativistas portugueses e dos países com crises humanitárias, assim como outras fontes locais fidedignas. Isto, mais uma vez, exige pesquisa para que saibamos em quem podemos, ou não, confiar em relação às informações transmitidas.

- Para quem tem a possibilidade, é possível fazer doações a organizações que estão no terreno. Mais uma vez, é preciso cuidado porque existem angariações de fundos falsas, pelo que pesquisar pela legitimidade dos projetos é sempre importante. Em relação à situação do Afeganistão, a ativista Carolina Salgueiro Pereira partilhou uma lista de organizações fidedignas que podem encontrar, aqui.

- Procurar organizações ou estruturas que te permitam ajudar de outras formas, como a doação de bens essenciais, ser família de acolhimento ou até dar apoio psicológico. Por vezes, se mais não nos for possível, só o facto de ouvir quem está do outro lado já faz a diferença e dá algum conforto a quem pouca esperança mantém. Para ajudares pessoas refugiadas do Afeganistão, podes consultar e preencher este formulário, por exemplo.

- Se te fizer sentido, podes juntar-te a manifestações que lutem pelos direitos e apoio a pessoas que estejam a passar por crises humanitárias. Por muito que se tenda a desacreditar, juntos podemos fazer a força. Lá está, é preciso começar por não esquecer, não fecharmos os olhos ao que está à vista de qualquer pessoa que se preocupe.

- Podemos usar os nossos meios e visibilidade, cada qual à sua escala, para não deixar estas pessoas caírem no esquecimento. Se tens um elevado número de seguidores nas redes sociais, podes partilhar informações fidedignas. Podes falar sobre estes temas com os teus amigos. Se és jornalista ou cronista, podes escrever sobre o assunto, por exemplo. Da mesma forma, em Portugal, vários media têm espaço para que os leitores escrevam e enviem emails, pelo que qualquer pessoa pode escrever para os media amplificando estas situações em que vidas estão em risco.

Apesar da situação do Afeganistão ser uma das mais faladas recentemente, olhemos para tantas outras crises humanitárias que não deveriam ser obliteradas das agendas mediáticas. O Haiti sofreu um sismo de magnitude 7,2 a 14 de agosto, deixando mais de 650.000 pessoas a precisarem de ajuda humanitária, segundo a ONU. Cabo Delgado, em Moçambique, tem sido alvo de grupos armados desde 2017, gerando falta de acesso a necessidades básicas de sobrevivência. O Iémen vive uma guerra civil desde 2014, que juntando problemas como a fome aguda, chuvas torrenciais, inundações, a crise de combustível, a praga de gafanhotos, a cólera e a covid, tornam o país no alvo da maior crise humanitária do mundo. A Síria gerou uma das maiores crises de refugiados com a guerra civil iniciada em 2011. A República Centro-Africana enfrenta contínuos genocídios e violações dos direitos humanos desde 2013, devido a rivalidades religiosas, étnicas e lutas de poder. Em Tigray, na Etiópia, a ONU recolheu relatórios de execuções de civis, prisões e detenções arbitrárias, violência sexual contra crianças e elevados deslocamentos forçados nos últimos meses. Estes são apenas alguns exemplos. António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, alertou, em julho de 2021, para o “furacão de crises humanitárias” que estão a ultrapassar a capacidade de resposta das Nações Unidas e de organizações de ajuda humanitária, que se encontram “sobrecarregadas pela pandemia da covid-19”.

É certo que todas as pessoas, por todo o mundo, atravessam os seus próprios problemas e dificuldades de subsistência e nunca podemos garantir que sabemos em que estado se encontra a vida das pessoas que conhecemos. Há muitas pessoas a passar por sérias dificuldades com o impacto que a pandemia teve nas nossas vidas, por exemplo, seja a nível económico, social ou de saúde. Nem todos podemos ajudar na mesma dimensão ou em todas as áreas, mas todos podemos exercer a empatia e procurar saber o que, à escala das possibilidades de cada pessoa, pode ser feito para ajudar. Como escrevi anteriormente, no caso de crises humanitárias não se trata de ajudar para que as pessoas tenham uma vida confortável. É necessário ajudar, a nível internacional, porque isso pode ditar a diferença entre uma pessoa viver ou morrer e todas têm direito a viver. No entanto, é ainda importante começar por refletir sobre as formas de ajudar e de falar sobre estes temas. Falar em defesa das mulheres, por exemplo, caindo em discursos islamofóbicos ou xenófobos, não é defender ninguém. Empoderar, ajudar, contribuir não é sinónimo de impor uma cultura, nem as noções pessoais de progresso, do que é certo ou errado. “Empoderar é liberdade de escolha”, tão acertadamente escreveu Carolina Salgueiro Pereira. Ninguém é verdadeiramente livre enquanto todas as pessoas não o forem. Quem vive num território onde tem mais liberdades, é importante que faça uso delas em todos os dias da sua vida e num olhar atento sobre os outros. Não nos finjamos de cegos ou esquecidos, não sejamos coniventes, não silenciemos, não banalizemos nem sigamos em frente quando quem corre perigo o continua a enfrentar todos os dias. No que toca a crises humanitárias, todos podemos ajudar, começando por não esquecer.

-Sobre Andreia Monteiro-

Cresceu na terra que um dia alguém caracterizou como o “sítio onde são feitos os sonhos” e lá permanece, quer em residência, quer na constante busca por essa utopia. É licenciada em Comunicação Social e Cultural, na vertente de Jornalismo, pela Universidade Católica Portuguesa, e mestre em Ciências da Comunicação, na vertente de Jornalismo, pela mesma entidade. É, desde maio de 2019, a diretora editorial do Gerador, Associação Cultural a que se juntou no final da sua licenciatura. Apaixonada pelo mundo artístico, é uma leitora insaciável, a companheira constante de um lápis e papel, uma curiosa de pincel na mão, uma amante de teatro e cinema e está completamente comprometida com a beleza da música que tem vindo a descobrir. É, desde 2019, aluna na escola de jazz do Hot Clube de Portugal. Acima de tudo, é uma criatura com pouco mais de metro e meio cujo desassossego não deixa muito espaço para tempos mortos.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de Joana Ferreira
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