Cristina Branco lança hoje, dia 20 de Março, o seu novo álbum, Eva. Como no princípio, a recusa das regras do jardim. A liberdade, como no princípio. E a nudez acordada no branco da página. A nudez de uma mulher quando chega a casa, em prova de esforço. Que chega a casa, depois de descer ao interior de uma mina de sal, iluminando as coisas abandonadas, com o passar do tempo. A mina expande-se, e a mineira desloca-se para novos espaços. Uma mulher que trabalha as zonas sombrias, subterrâneas, que as recolhe, que as acolhe, pede à liberdade as asas e ascende aos palcos e às casas dos que a ouvem a cantar.

Gerador (G.) – Eva é o seu alter ego, como tem vindo a apresentar. Eva leva-nos à origem. Algo se inicia ou foi descoberto, reconhecido e religado?

Cristina Branco (C. B.) – Eu acho que é a aceitação de que todos, neste caso, que eu tenho necessidade de escrever e expor determinadas coisas da minha vida e da minha personalidade, de forma a eventualmente mudar e sobretudo melhorar. A Eva é uma construção de uma série premissas necessárias a que isso aconteça. Foi assim que ela nasceu. A diferença, se calhar, é que neste momento eu não tenho qualquer problema em assumi-la, em trazê-la à rua. Todos temos momentos assim e parece-me importante, no meu caso, que eles venham a lume também no meu trabalho. O meu trabalho acaba por ser uma catarse dessa personalidade e uma necessidade quase de expor a minha personalidade, de forma a progredir.

G. – Eva aconteceu num exercício de escrita, que, para a Cristina, é um hábito diário, como já referiu em algumas entrevistas. O que procura neste tipo específico de criação?

C. B. – Acho que, para mim, escrever, e escrever todos os dias, é como tomar duche, como, recentemente, ter descoberto que, para mim, é importante correr, fazer jogging todos os dias. No fundo, é criar um quotidiano. Foi assim que cheguei a esta Eva, também para me encontrar. Havia coisas que não conseguia dizer, verbalizar, e comecei a utilizar a escrita como forma de me encontrar e, no fundo, olhar de frente o que estava mal, qualquer coisa que pudesse estar errado na minha forma de pensar.

G. – A liberdade é a premissa de Eva. Eva, enquanto figura genesíaca, recusou uma lei. É interessante porque a lei tornou-se algo escrito, e a Cristina recorre à escrita para se libertar de um mundo preconcebido, carregado de modelos, que não vão ao seu encontro. Também, neste sentido, Cristina assume-se como mulher, sob o ângulo da imposição e expectativa social que sobre esta recai, desde os primórdios. Este aspecto é reforçado quando, no podcast Feminina, volta a remeter para a literatura bíblica, substituindo Deus por Eva, ao dizer “construí-a à minha imagem”. Qual é o Deus aqui, enquanto entidade hegemónica exterior, e quais as suas leis?

C. B. – Acho que não há Deus nenhum. Sou completamente ateia. Não tenho nenhum Deus. Quanto muito, tenho uma fé, que vem de dentro de mim em relação aos outros e às coisas. Não acredito em divinizar seja o que for ou quem for. Tem que ver com o crescimento do indivíduo. A necessidade de escrita vem daí, de me confrontar com a minha realidade, a minha verdade, à medida que fui crescendo. A Eva nasce há cerca de 13/14 anos. É obvio que tinha as suas premissas, que continuam a ser válidas. Algumas foram atingidas, outras ainda vão a caminho, espero que venham a existir, ou, se não existirem, acho que estou bem com isso. A partir do momento em que fiz este disco, acho que isso se resolveu esse processo. Há sempre um momento em que eu preciso de reflectir sobre determinadas coisas que possam estar mal. E isso passa na música. Isso põe-me de bem comigo, com os meus objectivos.

G. – Quando falei em Deus ou estas leis, pensei como algo que lhe ditou qualquer coisa para seguir e esta Eva vem como resposta, emergindo na desobediência.

C. B. – Ela tem a certeza sobre si própria e sente-se. Ela sabe que é um ser social. E todas as relações humanas estão profundamente enraizadas. Ela tem consciência de si própria, dos outros, do seu lugar no mundo, sem ter de divinizar seja o que for. Ela não tem medo de expor essa intimidade. Ela é quase transparente, na verdade. Ela, quando escreve, quando está perante o papel, é quase transparente. Não há qualquer pejo em se confrontar consigo e com os outros e com esse seu ser social. Ela está em evolução, como a sociedade em que vive. A pessoa que foi construída há 14 anos foi evoluindo até aos dias de hoje. Tanto que o que os autores recebem, além do diário da Eva, excertos de um segundo diário de entre Janeiro de 2018 e Janeiro de 2019.

A Eva já não precisa de aprovação de ninguém. Ou melhor, eu já não preciso da aprovação de ninguém. É tão simples quanto isso. Na verdade, o tema que abre o disco, “Delicadeza”, na verdade passa a mensagem inteira do que quero dizer às pessoas. É um bocadinho dizer “que se lixem as ideologias bacocas”. Acho que isso é uma coisa completamente retardada. O corpo e a mente de qualquer mulher são um lugar de resistência. Ponto final. E é esse confronto, essa necessidade de dizer que eu já não preciso ser aprovada por ninguém, eu sou o que sou em qualquer idade. Mas, nesta idade, eu consigo reconhecê-lo e dizer “acabou-se”. Não preciso dessa aprovação, mas pergunto-me, enquanto mulher, o que eu e todas as mulheres conseguimos suportar nesta vida, porque o nosso corpo é efectivamente um lugar de resistência e continua a sê-lo. É um confronto com todas essas coisas.

G. – Eva surgiu numa residência artística. Qual a importância destes lugares de isolamento e de silêncio? O que acontece?

C. B. – A Eva, que nasceu há 13/14 anos, não foi propriamente numa residência artística. O local é, de facto, uma residência artística. Pedi para ficar lá uns dias sozinha, portanto não estava com mais ninguém. Na verdade, não estava com mais ninguém. Foi naqueles dias de silêncio, no confronto com aquela quase austeridade que criei a Eva. Tenho uma grande necessidade de silêncio, de me isolar para conseguir perceber para onde tenho de ir a seguir, sobretudo em momentos que são determinantes na minha vida, e esse era um deles. No fundo, é como fazer um reset de tudo e dizer: “Bom, agora vou ter de repensar uma data de coisas, vou ficar aqui sozinha a lamber as minhas feridas.” E, nesse acto de isolamento e de silêncio, foi assim que nasceu. Tinha de decidir se ficava naquele medo de existir, naquela voragem de trabalho que estava a ter, na exposição que estava a ter, mas, ao mesmo tempo, era qualquer coisa que me magoava porque não tinha que ver com a minha personalidade. Tinha que evoluir dali, ver o que podia retirar daquilo e passar para outra etapa da minha vida.

G. – Porque pediu a amigos para escrever as letras e não foi a Eva que se escreveu a si mesma?

C. B. – Para já, porque é um hábito criativo que tenho. Desde sempre, não acho que consiga explicar tão bem aquilo que quero dizer. Preciso da ajuda dos outros. Sempre tive dificuldade em conseguir encalhar o meu nome entre Fernando Pessoa e Maria Teresa Horta. Isto são só exemplos. De repente, tu olhas para pessoas e para nomes que já recorri e pedi para escrever para mim e, de repente, não me faz sentido aparecer no meio deles. Neste caso, especificamente, o exercício não tinha de ser meu. Já tinha feito esse exercício. Não sei escrever de forma poética. Tenho dificuldade em fazê-lo. Neste disco, há um tema que é meu, mas tive dificuldade em chegar até ele. Eu escrevi-o e rescrevi-o várias vezes e, na altura, até acabei por fazer o exercício com o André Henriques, para os dois olharmos para aquilo e tentar organizar para que tudo tomasse a forma. É o “Contas de multiplicar”. Eu escrevo em prosa. Precisava da ajuda destas pessoas para colocar numa forma poética, de maneira a ser cantado. É o meu exercício. É assim desde sempre.

G. – Em “Prova de Esforço”, canta que a vida é um esforço. Que esforço é este?

C. B. – São tantos. Acho que eles existem na vida de toda a gente. É difícil. É maravilhoso estar vivo, mas ao mesmo tempo é uma prova de esforço. Todos os dias, há imensas vicissitudes na vida de todos nós. Só te apercebes que cresces ou cresceste quando te confrontas com essas dificuldades, com determinadas tristezas. Há um passo que deste em prol do teu crescimento, em cada vez que entristeces, em cada vez que te contemplas em determinados aspectos da tua vida. Isso é uma prova de esforço.

G. – Neste tema, dirige-se a um “tu”, cantando “quero ir correr contigo”. Este esforço deve ser acompanhado, partilhado?

C. B. – Eu corro sozinha. Corro todos os dias e corro sempre sozinha. Não conseguia correr com ninguém, mas já corri com muitas pessoas. [risos] Acho que, durante a vida, temos de fazer determinadas limpezas e pôr algumas pessoas a correr da nossa vida.

G. – Então, foi o letrista que a imaginou aí?

C. B. – Foi, o Pedro da Silva Martins que criou esta ideia. Enviei-lhe os dados todos, não só o diário da Eva, mas o do último ano, em que tinha começado a fazer jogging, e sei exactamente o dia que comecei a correr, porque, para mim, foi determinante. Foi no dia 4 de Julho de 2018. Ele achou piada ao facto de eu fazer jogging todos os dias. Sobre a situação que estava a viver nesse momento, o meu processo de divórcio, falámos muito, até porque o Pedro é amigo de ambos. É quase uma forma irónica de falar de um momento duro.

Este esforço deve ser partilhado, mas há um esforço que é individual. Acho que esse exercício que o Pedro faz aí, com o qual me põe a correr, é mesmo só meu. Era preciso eu ter feito esse exercício sozinha para ter chegado até aqui.

G. – O videoclipe passa por vários lugares. O que representam?

C. B. – O videoclipe passa-se em Loulé e em Louisiana, na Dinamarca, que são os sítios onde fizemos residências artísticas. A Eva nasceu em Louisiana, que é o Museu de Arte Moderna, na Dinamarca. Apesar de não ter sido em residência artística, na verdade, os arranjos de todo o material que recolhemos para o Eva foi trabalhado, por nós os quatro, por mim, o Luís Figueiredo, o Bernardo Loureiro e o Bernardo Couto, em residência artística, ou seja, lá preparámos tudo. Falei com os autores em Janeiro de 2019, pedi para entregarem os temas até Maio do mesmo ano. Comecei a ouvir os temas e a fazer uma selecção até ao final de Junho e, em Agosto, começámos os ensaios. Depois de recolhido esse material, os temas que eu queria mesmo que contassem a história da Eva foram connosco para residência artística, que aconteceu entre o final de Outubro e o princípio de Dezembro. Terminámos a última residência em Louisiana, no dia 2 de Dezembro, e entrámos em estúdio no dia 3. O trabalho criativo da Eva, ou seja, a evolução da Eva, fez-se em residência artística em Loulé e em Louisiana, Copenhaga, se quiseres, que é ali ao lado. Foi naquele ambiente, só nós os quatro e a Joana Linda, que esteve sempre connosco a filmar e a fotografar, que as coisas aconteceram. A Eva esteve sempre presente. Esteve sempre lá a contar-nos a história, contar-lhes a história, porque para mim era uma evidência.

G. – O videoclipe termina com Cristina a despir-se e a tomar duche. Recorre à água, enquanto elemento purificador, limpando o excesso, o que se vai instalando na pele. A capa do disco também está ancorada neste sentido. Qual o motivo que a fez partilhar esta intimidade, esta nudez, com o mundo?

C. B. – É uma necessidade de fazer aquilo que eu faço todos os dias, ser cantora, confrontar-me com a música, o canto, as pessoas que ouvem e que têm uma opinião sobre aquilo que faço, tem que ver com isso, com essa transparência. Só consigo fazer aquilo que eu faço sendo aquilo que aparece naquela capa, tendo essa limpeza, ou seja, não me consigo ver de outra maneira. Não é uma coisa nova, uma coisa que apareça apenas no Eva. Talvez desta vez seja mais acentuado essa exposição da transparência e da verdade. Então neste momento que estou a contar algo tão íntimo, como o meu diário e o diário dela, que no fundo é o meu alter ego, não podia ser de outra maneira. Preciso que as pessoas vejam a verdade, preciso que sintam. Inclusivamente, o estúdio foi absolutamente real e cru. Uns dias antes de irmos para estúdio, perguntei se era possível gravarmos todos juntos, estarmos em conjunto, mas gravarmos os quatro juntos. Disseram-nos que era difícil, mas que não era impossível. Isso podia condicionar muito o nosso trabalho. Mas eu queria que as pessoas ouvissem aquilo que somos em concerto, a energia que passa entre nós os quatro, quando estamos em cima do palco. Tudo aquilo que ouviste, ou vais ouvir, são os primeiros takes dos vários temas. São tudo takes inteiros de cada uma das músicas, sem mexidas, sem conflitos, sem ruído no meio. Somos nós. É a minha verdade.

"Eva é fotógrafa, ela captura a alma e a beleza do corpo humano."

G. – O videoclipe de “Delicadeza” foi filmado numa mina de sal. O sal é um mineral que conserva, que impede a degradação. Qual é o sal que habita a sua mina?

C. B. – É a música, a par dos meus filhos. Sem dúvida nenhuma, os meus filhos. Como dizer isto? Há uma energia e uma passagem da música para eles. É óbvio que os meus filhos são, de facto, o mais importante e é por eles tudo. Por eles, tudo. Ponto final. Mas sem a música, não existiria da mesma maneira na vida dos meus filhos. O Martim, sobretudo, o mais velho, surge na minha vida como uma grande necessidade de manter os pés na terra quando, de repente, a minha vida toma uma dimensão que eu não estava minimamente à espera. Estou a falar de há 17 anos, quase. Ele foi muito importante por me devolver esse contacto com a realidade. Podes ver, por aí, a importância que têm estas pessoas na minha vida. Mas a música também. A música salva-me de mim própria. Este disco é uma prova disso. É o meu maior exercício de psicanálise, sempre. Qualquer disco que faça. Se as pessoas quiserem conhecer-me melhor, é ouvirem os discos que fiz. Todos contam a minha história, o que sou. Este, se calhar, é o que conta mais autenticamente, porque, como dizíamos, no princípio, quando chegas a uma certa idade, deixas de ter medo de te confrontar com a realidade e que os outros te vejam como és.

G. – Neste apresenta-se como uma mineira, com uma lanterna na cabeça. Que lanterna é esta, que permite iluminar as zonas mais sombrias que trazemos dentro?

C. B. – É mesmo a música. Não sei como é com as outras pessoas. Nunca tive uma experiência diferente da minha, como é óbvio. Desde que comecei a cantar, a música sempre teve esse papel, sempre foi o meu guia em tudo, mesmo fora dos palcos. Os meus discos são pautados por essa realidade a que ela me obriga. A música e o palco obrigam a confrontar-me com os meus demónios e com os meus anjos, também. Seria uma pessoa muito mais complicada, se não tivesse a música. Talvez encontraria outras soluções. Sou de encontrar soluções e não de pôr a cabeça debaixo da areia, seja porque tenho pessoas que dependem de mim, como os meus filhos, seja porque isso não está na minha natureza, na minha personalidade, e porque sai mais barato que consultas de psicanálise. [risos]

Isto também é um assumir, e acho que é importante para toda a gente assumir que todos temos as nossas pequenas loucuras, momentos de introspecção e de dificuldade de lidar connosco e com os outros e em nos posicionarmos socialmente. Somos seres sociais, como te dizia há bocadinho. Não há nada a fazer quanto a isso. Daí a importância dessa luz. Essa luz é a música, tal como o sal. Isto confronta-me de repente com uma questão: como será quando deixar de fazer musica? Não sei. Nessa altura, verei. Preciso disso para me orientar. É uma forma de arte e agradeço todos os dias por haver gente que gosta da minha forma de olhar para ela e de me confrontar com a minha verdade e não ter medo de dizer, dizer que tenho os momentos mais down, depressivos. Isso sou eu a viver.

G. – Também estão objectos abandonados na mina. Que abandonos foram estes?

C. B. – Isso é um pouco uma leitura da Joana Linda. Há um momento que eu adoro no videoclipe, que parece que, de repente, estou dentro do esqueleto do Mobi Dick, parece uma baleia. Todo esse exercício da Joana é absolutamente genial. Foi muito bonito o dia em que fizemos as gravações, porque acabei por conhecer todas aquelas pessoas que vivem debaixo da terra, aquela espécie de toupeiras que estão ali. E um deles ia reformar-se dali a meia dúzia de dias e dizia que ainda não conseguia perceber como ia viver à tona, depois de ter vivido 35 anos debaixo da terra. Aquilo era qualquer coisa que estava a mexer muito com ele, claramente. Aquilo para eles não é um ambiente morto. Pelo contrário, a vida daqueles homens é ali debaixo. Vivem de forma alegre e espontânea. Não há mal nenhum em viver ali. Aqueles esqueletos que vão abandonando por ali, aqueles objectos perdidos é porque a mina vai crescendo, evoluindo. A mina, neste momento, já cobre uma grande parte do distrito de Loulé e, de repente, há recantos que vão sendo deixados para trás. Há maquinaria que está obsoleta e que vai ficando para trás. Eles não a tiram dali. É a historia daquela mina, daqueles homens. Tem muito que ver com “Delicadeza”, com esse tal exercício do corpo, da necessidade que temos de resistir e, ao mesmo tempo, de crescer e mostrar que estamos a evoluir para outros lugares, outras situações.

G. – Também pensei nisso quase como um regresso, este exercício de reconhecer e revisitar as partes de nós que ficaram perdidas, para as reconhecermos. Senti esse fundo. Achei interessante porque termina com o elevador. Essa descida trouxe à tona. Eva veio à superfície…

C. B. – É mesmo. Sabes, gosto de pensar nessa música toda, não só no exercício estético da Joana, como na própria música, como qualquer coisa que, quando estás a ouvir, fazes a tua leitura individual. Já ouvi tantas opiniões diferentes sobre esta música, tantas formas de a ler e de a ver, que acho superestimulante, quando estás a fazer um trabalho. Tens uma orientação, sabes que é aquilo que queres, há palavras tuas que estão dentro daquele texto. A Joana fez a sua própria leitura sobre aquele texto e tomou aquilo naquelas imagens. Quando há pessoas a ver vêem outras coisas e vêem coisas, que muitas vezes não me tinha apercebido. Mas tens toda a razão. A imagem do elevador é isso, é a ascensão, saíres de um lugar de escuridão e vires à procura da luz. Acho que é uma coisa gira para se fazer no futuro, confrontar as pessoas para fazer esse exercício.

G. – Levará Eva a vários palcos do mundo. Como cantar em português para quem não entende a língua?

C. B. – Isso é uma história antiga na minha vida, uma história com 20 anos. Para mim, isso nunca foi uma questão. É curioso. Começo por cantar muito mais lá fora do que em Portugal e sempre tive necessidade de explicar às pessoas, porque há sempre uma história que envolve o concerto. Um concerto não é só apresentar o disco, mas também um bocadinho de outros discos, ou outras coisas que tenham a ver com a Eva, esta mulher, esta verdade. Nós, neste momento, estamos a montar o concerto, e é obvio que tenho essa necessidade de contar às pessoas o que estou a cantar, contar a história da Eva através de outras músicas e histórias, para que as pessoas percebam numa linha de continuidade o que está a ser dito ali. Não quero que olhem apenas para este disco de forma estanque. Quero que sintam o concerto, a música. Sempre fiz isso nos discos anteriores e durante este tempo todo. É importante, para mim, que as pessoas percebam, não as filigranas das coisas, mas o porquê de estar ali, o porquê da minha música.

G. – Conta-lhes a história envolvida na música. As palavras também são música…

C. B. – As palavras são sempre música. As palavras estão cheias de música. Por isso é que eu digo que não sei escrever textos para música, porque as minhas palavras, a maneira como escrevo, não tem essa musica, sou muito dura. Quando tens estes autores, como a Francisca Cortesão, o Pedro da Silva Martins, o André Henriques, o Kalaf ou a Márcia, essa gente escreve com música. Quando olhas para aquele texto e ainda não ouviste a música, mas aquilo já está cheio de musica, as palavras têm um ritmo, uma musicalidade...

G. – Em algumas entrevistas, diz que o fado está sempre presente e que as novas explorações não são um afastamento. O fado é um estado?

C. B. – O fado é um estado de alma, sem dúvida. Para mim, é. Não dissocio o fado da minha pessoa ou da minha forma de cantar ou do que faço todos os dias. É qualquer coisa que, a partir do momento em que me apropriei dele, não me imagino a largá-lo. Jamais. Está sempre presente. Neste disco, tens a sonoridade da guitarra portuguesa assumidamente fora das linhas melódicas do fado habitual, ou seja, há um exercício que o Bernardo faz, que eu acho, muito honestamente, e cheia de orgulho o digo, que é muito nos antípodas do que se faz, ou que alguém alguma vez fez na guitarra portuguesa. Isto nunca foi feito. A forma como está a tocar, como aborda o instrumento, explora novas sonoridades é absolutamente genial e é muito dentro da linguagem do que estamos a fazer os quatro, hoje em dia, mas, ao mesmo tempo, não deixa de conter uma portugalidade, que agora se convencionou dizer-se assim, que está no fado, que é uma coisa tão própria, tão inerente ao fado, sobretudo, na voz, que tem ver com a minha interpretação. Cada vez recorro menos ao requebres do fado, aquelas linhas gerais determinantes para se ser um fadista. Na verdade, nenhum dos meus trabalhos foi por aí exaustivamente. Sempre tentei fazer uma interpretação muito pessoal. Mas há qualquer coisa do fado de que eu me apropriei, que tem que ver com a poética do fado, uma forma de olhar para as palavras, com um determinada intensidade, uma determinada verdade.

G. – Também, numa entrevista ao Diário de Notícias, a propósito do disco anterior, Branco, diz: “Acho que cheguei à minha juventude. E o fado, por muito difícil que seja admitir, é uma música algo envelhecida, hermética.” Que juventude é essa? Completa-se em Eva ou em Cristina?

C. B. – É a Cristina, definitivamente. A expressão não é minha, é do jornalista. Foi o Gonçalo Frota, do Público. Eu percebo e, para mim, é importante e gratificante ouvir isso. De repente, percebe-se que há uma jovialidade que se apropriou do que faço. Isso não veio exactamente da Cristina ou da Eva, ou seja de quem for, a não ser dos autores. É, de repente, essa necessidade de recorrer a pessoas de outra geração que permite que a minha música vá para outros sítios, ganhe outras roupagens e fique mais arejada.

[A entrevista foi realizada quando, na Internet, apenas estavam disponíveis as músicas, e respectivos videoclipes, “Delicadeza” e “Prova de Esforço”.]

*Este artigo segue as normas do Acordo Ortográfico de 1945

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Fotografias de Joana Linda