Cristina Clara nasceu em Vila Nova de Famalicão e, durante vários anos, dividiu o seu tempo entre duas atividades que se alimentam e inspiram mutuamente. A viver em Lisboa, depois de concluir o curso de Enfermagem no Porto, muitas vezes adormeceu cantadeira em Alfama e acordou enfermeira no maior hospital do país.

Cresceu entre as canções tradicionais que a mãe lhe cantava e as longas matinés a equilibrar uma moeda de dois e quinhentos no gira-discos da família. Cedo se revelou amante de poesia e das artes performativas. A sua versatilidade na vida e uma forma de estar permanentemente curiosa e atenta ao mundo que a rodeia sentem-se agora na chegada do seu primeiro disco Lua Adversa.

Um olhar fresco e criativo sobre as canções populares portuguesa e brasileira, inspirado na afinidade musical e poética que as une. Um álbum composto por 12 canções, nascido entre luas favoráveis e adversas tornadas fados e chorinhos.

Embalados num trabalho contemporâneo, o Gerador esteve à conversa com Cristina Clara acerca deste novo projeto. Ao longo desta, a artista procurou refletir sobre o seu percurso no campo da música, e da enfermagem, sobre as suas inspirações, e sobre os diferentes encontros musicais presentes no álbum.

©Daryan Dornelles

Gerador (G.) – Cristina, a tua história de vida divide-se entre a enfermagem e a música. Queres-nos começar por contar como é que nasceu o fascínio por estes dois mundos? 

Cristina Clara (C. C.) – Eu nasci no Norte, estudei enfermagem no Porto, portanto a minha vida até à idade adulta foi sempre pelo Norte. A música sempre fez parte do meu ambiente familiar. A minha mãe também cantava, sempre fui tendo muita afinidade com atividades ligadas às artes performativas, ao teatro, à poesia, à música, mas sempre de uma forma bastante informal. Fui estudar Enfermagem, portanto nunca pensei propriamente fazer da música uma carreira profissional. Entretanto, vim para Lisboa trabalhar enquanto enfermeira, mas já um bocadinho com esse american dream. Era um sonho lisboeta de contactar um bocadinho mais com este epicentro. As coisas acabam por estar aqui muito mais centralizadas e procurei desenvolver mais um pouco essas áreas artísticas, pelas quais sempre me tinha interessado. Então, acabei por me inscrever, na altura, num curso de canto e voz, mas vocacionado para teatro. Entretanto, surgiu um convite para participar numa peça em que interpretava uma fadista estreante, que foi quando aprendi os primeiros fados, além dos que a minha mãe cantava em casa. Aprendi um reportório novo para esta peça de teatro e comecei a descobrir através das pesquisas que fazia – fui na altura até visitar o Museu do Fado – sobre a história do fado, as personagens e a história no YouTube. Sempre me fascinou imenso a poesia do fado, muito particularmente. Assim começou a minha aventura neste género musical. Na altura, quando a peça estreou, o Marco Rodrigues, o fadista, foi assistir e convidou-me para cantar numa casa de fados. A partir daí, comecei a expandir o meu reportório e a conhecer músicos e fadistas mesmo estrangeiros. Até porque em Lisboa é impossível viver-se em contacto só com portugueses, principalmente, em ambiente ligados a campos artísticos. E ainda bem que está assim povoada por diferentes nacionalidades e muito particularmente por lusófonos, brasileiros e cabo-verdianos. Estas duas linguagens seduziram-me muito também, na altura, principalmente a música de Cabo Verde e do Brasil. Foi muito natural começar a trabalhar com músicos destes países, que vivem, neste momento, em Lisboa, e acabamos por construir uma identidade partilhada. Comecei a desenvolver um bocado a minha identidade artística nesta relação com outras canções populares de outras partes do mundo, mas sempre com muito foco na língua portuguesa. 

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G. – Atualmente, de que forma tens procurado unir ambos o campo da música com o da enfermagem, principalmente, desde a chegada da pandemia?

C. C. – Pois, esse foi um grande desafio… Aliás, é sempre um desafio unir ambos os universos porque a profissão de enfermagem é muito exigente e mesmo fisicamente é muito cansativa. Em termos de alma, também ocupa bastante espaço. Não é uma profissão que dá para desligar o interruptor quando saímos do hospital. Eu trabalhei 15 anos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e muitas vezes nem é só o tempo… É termos até uma folga, mas estarmos tão cansados que não conseguimos ter a disponibilidade que gostaríamos para escrever ou compor. Foi sempre muito desafiante. Por outro lado, acho que desenvolvi uma certa capacidade de descobrir o que numa área inspirava a outra, em que é que a minha arte na música me podia tornar melhor enfermeira. E cheguei a levar isso para o trabalho. Por exemplo, quando recebemos doentes que vêm de outras zonas do mundo, isso acabava por ser uma mais-valia. Às vezes era difícil fazer com que eles se sentissem bem recebidos, completamente retirados do seu território, sem família muitas vezes, e através de uma música em comum conseguia criar uma ponte de comunicação. Então, acho que de certa forma ampliou as minhas competências enquanto enfermeira. Tornou-me uma enfermeira mais humanizada, digamos assim. 

O contrário também. Uma enfermeira é útil em qualquer contexto e então nos contextos da música acabou por me dar uma segurança financeira. Mas sim, foi muito exigente. E durante a pandemia acabamos por ter uma exigência de horário maior, as restrições de circulação, o sentido de responsabilidade que não me permitia frequentar tanto os sítios que ainda estavam acessíveis por ser enfermeira e por estar em contacto com possíveis contágios.

G. – Face a este panorama, encaraste a música como um refúgio?

C. C. – Não diria que fosse um refúgio… Às vezes até me acontecia mais que a enfermagem tivesse esse efeito terapêutico por nos pôr em contacto com coisas tão prioritárias. Faz-nos relativizar outras coisas que nos podem causar muita angústia no meio artístico. 

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G. – Precisamente, no campo da música chega agora o teu primeiro disco de estreia intitulado de Lua Adversa. Título este inspirado por um poema de Cecília Meireles. Podes-nos descodificar um pouco o seu conceito? Acima de tudo, que sensações procuraste trazer para o ouvinte com este teu novo projeto?

C. C. – A Cecília Meireles é uma poetisa, pela qual tenho uma enorme admiração. Ela era brasileira e tinha uma relação muito próxima com Portugal. Por exemplo, foi ela que apresentou o Brasil a Fernando Pessoa; pessoalmente, porque também tem uma avó açoriana. Eu consigo sentir essa ligação dela a muitas das coisas que escrevia. Sou fascinada pela poesia dela como também pelo seu percurso. Foi uma pessoa com um papel muito importante na sociedade brasileira no que respeita à educação, nomeadamente, na educação das crianças. Decidi escrever uma letra que nos inspirasse emocionalmente com a letra inicial do poema e manter o título do álbum em jeito de homenagem, como também como certa ironia. No fundo, esta adversidade acabou por ser uma inspiração que nos levou a criar uma nova letra. 

LUA | Cristina Clara

G. – Ao longo deste, somos levados por um olhar fresco e criativo sobre as canções populares portuguesa e brasileira. De que forma procuraste trazer estas duas culturas para o álbum? 

C. C. – Foi uma coisa muito orgânica porque isso era o trabalho que eu vinha a desenvolver nos últimos anos em Lisboa. É quase uma fotografia do trabalho que tem vindo a ser feito até agora. Alguns temas originais foram compostos para o disco, mas havia outros que já costumávamos efetivamente tocar nas nossas tertúlias, nos nossos concertos, então acabou por ser imediato essa escolha. E com as pessoas envolvidas no trabalho fazia todo o sentido trazer estas duas canções tradicionais. Portugal, principalmente, o fado que foi o ponto de partida, que me levou a viajar. O fado é quase um cicerone. Tem dois viras em referência às minhas origens nortenhas. Aliás, um deles é gravado até com a minha irmã. É uma espécie de memória infantil. Depois, tenho as canções populares do Brasil, nomeadamente, o “Flor Amorosa”, que me apresentou o Edu Miranda, que é um grande representante do choro cá em Portugal. Então, acabamos por juntar estes dois universos do fado e do choro que nasceram em ambientes semelhantes, junto ao mar, no século XIX, em que muitas culturas se encontravam. Têm esta história em comum de falar do quotidiano, das emoções, do dia a dia das pessoas. 

G. – Uma das canções deste teu novo álbum, nomeadamente, o “Novo Fado da Melancia” é dedicado à fadista Hermínia Silva. O que é que significa para ti esta personalidade? 

C. C. – A Hermínia Silva, quando comecei as minhas pesquisas pelas personagens do fado, foi assim uma pessoa que me chamou a atenção pela sua identidade e pelo seu carácter, que é uma coisa que puxo muito no meu percurso. Preocupo-me em seguir o meu caminho artístico. A Hermínia Silva é uma figura muito carismática, inovadora, à sua época. Já tinha letras muito arrojadas, era inconfundível. Ela desenvolveu-se em duas áreas que eu admiro muito, tanto a música como o teatro, e por isso é que é uma figura que eu segui, tendo visto muitas coisas com atenção. O “Novo Fado da Melancia” foi basicamente pegar no fado da melancia da Hermínia com música de Raul Ferrão e acabou por ser uma espécie de tributo. 

Novo Fado da Melancia_Cristina Clara

G. – Lua Adversa é composto por doze canções. Há alguma que de momento te faça palpitar mais o coração?

C. C. – Todas são especiais por razões diferentes, cada uma tem uma história. Eu destacaria “Lua, pelo que já disse porque foi o ponto de partida para o disco. Foi o tema que me desafiou a escrever uma letra original, a primeira letra que escrevi para este trabalho. No fundo, acabou por ser a identidade do disco. O feedback das pessoas diz-nos precisamente que o objetivo foi alcançado, ou seja, os brasileiros dizem que é um chorinho, um samba, dentro do seu léxico. Os portugueses já me disseram que gostavam muito desse fado e obviamente “Lua” não é um fado, mas de alguma forma com a minha portugalidade, com a forma de interpretar, acabo por levar as pessoas para esse imaginário. Eu acho muito interessante cada pessoa com o seu olhar fazer uma leitura à sua maneira. 

G. – Já agora sentes que esta arte do fado é valorizada em Portugal?

C. C. – O fado, em si, acho que é muito valorizado. Acho que as pessoas têm um carinho especial por esta canção. Acho que desde que é património imaterial tem ainda mais atenção a nível internacional e mais investimento interno. É possível investir-se mais nesta arte e nos seus artistas. Eu acho que a população, em geral, dedica bastante atenção a este género musical. Talvez muito mais em Lisboa, que é o berço do fado, do que noutras regiões. Por exemplo, no Norte, se calhar, o folclore tem mais enfoque. 

©Daryan Dornelles

G. – Apesar de não haver um conceito concreto para definir o fado, o que significa para ti esta arte?

C. C. – Para mim, neste momento, e tendo em conta este trabalho, o fado significou estes encontros com outras canções populares. O fado foi, no fundo, esta janela privilegiada para outros encontros. 

G. – Particularizando agora um pouco na parte logística… Caso as pessoas queiram encontrar este teu trabalho onde o podem descobrir? 

C. C. – Quase em todo o lado! Está em todas as plataformas digitais, entre elas, Spotify, Deezer, Apple Music, etc. E, nas lojas físicas habituais. No dia 11 de novembro, vou estar no Auditório Carlos Paredes, em Lisboa, pelas 21h00, mas é uma questão de estarem atento(a)s às minhas redes sociais.

Lua Adversa_Cristina Clara
Texto de Isabel Marques
Fotografias de ©Daryan Dornelles