Quem está em Campo de Ourique está numa aldeia dentro de uma cidade. Não fossem os carros e a falta de estacionamento, sentir-nos-íamos muito perto de casa, da sensação de pertença a um lugar familiar. E foi neste registo de família que Cristina Drios recebeu o Gerador, no seu bairro lisboeta que, fechando os olhos, quase poderia tornar-se na aldeia de Mateus Mateus. Mas já lá vamos.

Drios é a palavra em grego moderno para carvalho. Também é o nome de uma localidade na ilha de Paros, a sua preferida na Grécia. Cristina Carvalho não é só uma ilha, não é só uma aldeia, não é só uma árvore, não é só uma escritora; ela é, em si, um romance histórico que percorre os séculos xx e xxi com esperas, palavras, a vida com os outros, a consciência da responsabilidade na passagem de um livro a quem o lê.

A leitura de O Estrangeiro, de Albert Camus, aos 12 anos, continua a ser um marco impactante na sua pegada literária. Não se recorda por que mão lhe chegou, mas recorda-se de ter guardado o impacto para si: “Na altura, não era muito de partilhar coisas com as pessoas.” Traço que levou a conversa para a personagem Benjamin Button, um homem que nasce idoso e que rejuvenesce à medida que o tempo passa, e para a escritora Agustina Bessa-Luís, pela sua máxima “nasci adulta e morrerei criança”. Na sua infância, marcada pela diferença geracional em relação aos seus pais e à sua irmã mais velha, Cristina Drios não se sentia criança, não se sentia da sua idade: “Acho que nasci velha e vou para nova.” Uma realidade que admite gargalhando, enquanto um dos seus gatos tenta fazer de enfeite na árvore de Natal.

Mas a sua sensibilidade precoce não a impediu de viver intensamente o Liceu Francês Charles Lepierre de Lisboa. E foi lá que nasceu o bichinho para a escrita. “No Liceu Francês, eles incutiam-nos muito uma vontade e um gosto pela leitura e pela escrita, e desde pequeninos que éramos incentivados a escrever redações e a ler livros.” Cristina teve, por isso, desde muito cedo, uma proximidade com a literatura francesa que não teve com a literatura portuguesa, que vem a descobrir com maior profundidade quando frequenta a universidade, a estudar Direito. Poderia ter escolhido História ou Filosofia, mas escolheu Direito. E, para além da escrita, é como advogada na área da Propriedade Intelectual que ainda trabalha atualmente.

Esperou 20 anos para fazer a sua primeira publicação, com o livro de contos Histórias Indianas (Editora Objetiva, 2012), em que reúne histórias diferentes sobre a Índia que Cristina Drios conhece, ou não fosse Cristina uma amante de viagens e uma fotógrafa amadora nas viagens em que se aventura. Este primeiro livro, encorajado pelo escritor João Tordo e reconhecido pela editora Maria do Rosário Pedreira, valeu-lhe o Prémio Literário Cadernos do Campo Alegre Novo Autor, Primeiro Livro, da Fundação Ciência e Desenvolvimento/Câmara Municipal do Porto. O segundo livro, Os Olhos de Tirésias (Teorema, 2013), foi finalista do Prémio Leya em 2012. E essa relação com o reconhecimento público logo no início da sua carreira como escritora não a desviou do que considera essencial. “O reconhecimento público é importante, mas mais importante do que isso é sermos lidos e o reconhecimento dos leitores.”

Da janela, vê-se o bairro anoitecer e não se sente o tempo passar. Mas a espera de duas décadas de Cristina Drios para lançar o primeiro livro foi tão sentida quanto valiosa. Tem publicados três livros - além de Histórias Indianas e de Os Olhos de Tirésias, tem também o mais recente A Adoração (Teorema, 2016) – e muitos contos dispersos – como A Mãe, da antologia de contos O País Invisível (Centro Mário Cláudio, 2015), ou Gabriel, o Carapau de Corrida, da coletânea infanto-juvenil Quem alinha? Desporto com Valores (Edições Afrontamento, 2019). E, enquanto conversávamos sobre os percalços para aqui chegar, Cristina recorda que a proximidade com o célebre professor norte-americano de escrita criativa Robert McKee, em dois cursos intensivos em Portugal, foi determinante para o seu arranque literário. “Esses cursos são absolutamente fabulosos. Eu senti uma espécie de epifania: ‘tenho de fazer alguma coisa com isto que aprendi agora, que descobri’.” Deste deslumbramento, veio o contacto com João Tordo num novo curso de escrita de romance, o que abriu o caminho que se manterá duradouro. Com novidades esperadas para o próximo ano.

E Mateus Mateus, quem é? Pode ser o Sr. Manuel Nunes, natural de uma aldeia do interior de Portugal, que foi para a I Guerra Mundial, que emigrou para os Estados Unidos da América, que aprendeu esperanto e que regressou à aldeia já idoso. Mas não é só. Mateus Mateus, personsagem de Os Olhos de Tirésias, é o símbolo das passagens históricas e reais que Cristina Drios traz aos seus livros, não como muleta, mas como sustento da narrativa ficcionada. E esse é já um registo muito particular e identitário da escritora, pois tem localizado as suas obras num espaço entre os romances históricos clássicos e os romances, sem ser exatamente coincidente com nenhum dos dois géneros. “Na História, eu encaixo a ficção ou vice-versa. Mas a História está ali um bocado para servir de sustento ao resto, para dar mais corpo, mais profundidade. A História, para mim, é um pano de fundo, é um cenário, que interessa para depois desenvolver a ficção.”

O Gerador prepara-se para ir embora, a noite já caiu, e deixa Cristina Drios a preparar-se para a residência literária que fará em janeiro de 2020, na Suécia, durante três semanas. No meio de mais escritores e escritoras de outras nacionalidades, Cristina busca no isolamento a maior proximidade com o enredo e com as personagens, com quem convive frequentemente e de quem não se desapega mesmo quando o livro está terminado. Vimos felizes porque a conversa foi uma viagem, na palavra de uma autora que coloca a cultura portuguesa contemporânea em movimento.

Texto de Rita Dias
Fotografia de João Alexandre Pereira