Estávamos em março de 2020. Na altura, fechados em casa, em pleno confinamento, face à chegada da covid-19, a Portugal. Pela Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea, PIN, desencadeava um novo desafio às mãos dos seus membros. O desenvolver de joias e objetos de proteção do século XXI. Assim sendo, durante dois meses, entre 30 de março e 30 de maio, cerca de 30 autores criaram peças de proteção, apenas com os materiais e os recursos que cada um tinha à sua disposição, em casa. O objetivo era refletir sobre como a joalharia poderia ser útil enquanto objeto relacionado com o corpo. Concluído o desafio, resultaram 34 peças das quais algumas reinterpretaram máscaras sanitárias, luvas descartáveis e outros materiais de proteção que desempenham agora uma prioridade nas nossas vidas.

Ainda assim, este desafio e a pandemia não haveriam de cair no esquecimento, mas sim como motores de arranque para o avançar da primeira Bienal de Joalharia Contemporânea de Lisboa. Bienal essa que se instala agora na cidade capital de 16 de setembro a 20 de novembro.

Suor Frio é o título proposto pela artista Kadri Maelk para o primeiro encontro de joalharia contemporânea. Ao longo deste, somos desafiados a refletir acerca do corpo, do medo e da proteção, por intermédio de projetos expositivos, colóquios, encontros e masterclasses. A programação, na sua maioria, de cariz gratuito e presencial encontra-se dispersa entre a Sociedade Nacional de Belas Artes, a escola Ar.Co, a Brotéria, o Museu e Igreja de São Roque, o Museu da Farmácia, a Cinemateca, o Instituto Cultural Romeno, a Escola Artística António Arroio e entre as galerias Sá Costa, Reverso ou Tereza Seabra.

O Gerador foi procurar saber mais com Cristina Filipe, cofundadora da PIN, sobre a origem da bienal e sobre a sua preparação. Em conversa, Cristina procurou ainda refletir acerca da emergência deste tipo de eventos para a joalharia contemporânea, sobre o panorama português, refletindo ainda sobre a sua programação.

Gerador (G.) – Suor Frio é o título proposto pela artista Kadri Maelk para a 1.ª Bienal de Joalharia Contemporânea de Lisboa. Queres-nos começar por explicar como é que nasceu a ideia de criar este projeto? Já agora porquê a área da joalharia contemporânea?

Cristina Filipe (C. F.) – É uma ideia que surgiu há algum tempo. A escolha da joalharia recai por ser a área do meu trabalho. Já há muitos anos que estou nesta área e, de facto, uma das minhas grandes missões é programar e estimular a disciplina, num sentido amplo, tanto da parte dos artistas como didático, para o público.

O que eu tenho vindo a sentir, do meu percurso, é que havia uma descontinuidade na programação, e esta ideia de fazer uma bienal assenta nisso. No criar um compromisso dinâmico e de continuidade. De facto, aconteceram vários eventos, mas descontinuados o que nos dava, às vezes, a ideia de alguma dispersão na programação.

Senti, claramente, que era a altura de nos comprometermos com um projeto mais consistente, de continuidade, mas com uma programação muito definida. Fizemos vários brainstorms, com a PIN, e foi quando chegamos à conclusão, em grupo, que para a bienal o mais importante era trazer um tema pertinente, ao momento. Esse tema deveria procurar estimular os artistas a perspetivar o que já foi feito, e o que há a fazer, e a convidar artistas nacionais e internacionais a refletir sobre esse tema. Depois, pensamos ainda numa exposição ontológica de um artista português, com um percurso consistente, cuja obra é pouco conhecida. E, assim foi… Refletimos também que não tinha de ser uma escolha de artistas de um ponto de vista cronológico. Por exemplo, a escolha de José Aurélio para a exposição ontológica, no âmbito da bienal, foi também pela pertinência da sua proposta de olhar para a joalharia. Ao longo desta, o artista procura representar peças com uma carga simbólica muito grande, com um intuito protetor. Portanto, isto só para explicar que vamos tentar sempre que possível conciliar o tema com a escolha do artista. Isto é basicamente o motor da bienal.

São estas exposições sobre o tema, uma exposição coletiva, uma exposição temática, uma exposição com curador e uma exposição ontológica.

Torques IX, 2011, José Aurélio. Fotografia de Jorge Ricardo

G. – O principal objetivo da Bienal é motivar o estudo da história da joalharia e estimular a joalharia contemporânea, criando novos contextos expositivos e promovendo o encontro e o intercâmbio entre investigadores, curadores, artistas e estudantes, entre si e com o público nacional e internacional. Ao bocado falavas-me acerca da ideia de “descontinuidade” deste tipo de eventos… Sentes que a arte da joalharia deveria ser mais valorizada em Portugal?

C. F. – Eu diria que é uma disciplina que emerge histórica, de toda vida, quase das primeiras formas de expressão. Desde sempre que o homem se quis adornar, seja pelo aspeto protetor, seja pelo aspeto ornamental, mas as primeiras joias são muito simbólicas. Eram consideradas como troféus. Portanto, não podemos dizer que é uma disciplina desconhecida na história da arte.

Eu acho que foi esta nova transformação, que se convencionou nos últimos séculos, que levou a joalharia, no ponto de vista material, a estar mais associada aos materiais preciosos ou às pedras. Esta parte surge a partir das grandes transformações que a arte sofre, depois do modernismo para a arte contemporânea. A joelharia acompanha essa transformação. Eu diria que aí sim há um desconhecimento da parte do público em geral, nomeadamente, das artes para esta disciplina na contemporaneidade.

Acho que houve aqui uma transformação forte para o público desinformado, e muito centrado, que a joalharia cumpre determinados requisitos, sejam eles materiais e de forma, uma vez que é uma arte para o corpo, ou seja, há essa expetativa de tudo o que se faz é para ele. Começa a acontecer isso.

Há uma desmaterialização, uma desformatacão do que se convencionou, e isso fez com que houvesse um desconforto. Mas isso até nem foi com toda a joalharia, foi com todas as disciplinas. Como sabe, a pintura e a escultura, que seguiam também determinadas ordens, a partir de certa altura foram desmaterializadas. Portanto, deixaram de cumprir a forma que eram expectáveis, mas não deixaram de ser aquilo que são. O que mudou é que os artistas começaram a recorrer a outros formatos. Os artistas que também escolheram esta disciplina têm todo o direito a essa liberdade. É também da sua própria função não estarem presos a certos tipos de clichês. Por exemplo, especialmente, quando a joalharia integrou as escolas de arte começou a desempenhar essa influência. Ou então quando os próprios artistas plásticos quiseram também fazer joalharia…. Tomemos o exemplo do próprio José Aurélio. Isso influenciou e foi orientando a joalharia para que fosse também ela se transformando e assumindo outras caraterísticas. Isso criou estranheza para o público... E essa incompreensão ficou muito acentuada e afetou os mercados.

Foram os próprios artistas que sentiram a necessidade de começar também eles a programar, a serem os próprios curadores, e isso é um trabalho importante, mas limitativo. Muitos artistas para abrirem as galerias preteriram do seu trabalho artístico porque tiveram de se tornar galeristas, outros, como eu, pararam de criar. Não sei ao certo se é um problema, mas é uma realidade.

O que é que eu sinto falta nesta área? Os agentes culturais que se interessem por a disciplina e que a programem. Tenho falta de outras pessoas que se interessem pela temática.

«Golden Rule(r)», 2020, Nedda El-Asmar. Fotografia de Luc Daelemans

G. – Ao longo desta bienal, somos convidados a refletir sobre o corpo, o medo e a proteção através de projetos expositivos, colóquios, encontros e masterclasses. A que se deve a escolha destes três pilares-base? Prendeu-se com a questão da atualidade que me referias acima?

C. F. – Exatamente! Há sempre, de facto, como objetivo ser um tema atual, de forma a acrescentar à sociedade uma reflexão. A reflexão dos artistas sobre algo pertinente. Portanto, foi por aí a escolha. Não foi muito premeditada porque, de facto, quando tivemos a ideia de avançar com a bienal ainda não tínhamos a certeza do tema. Acontece que na altura que rebenta o primeiro confinamento, e se declara pandemia, a nível mundial, eu um pouco descentrada ainda do foco da bienal, comentei que esta vivência tinha de ser traduzida e que nós como associação tínhamos a responsabilidade de estimular os nossos membros, os artistas relacionados com a PIN, a trabalhar este tema.

Então, em casa, lançamos um desafio aos membros da PIN que consistiu em, durante dois meses, entre 30 de março e 30 de maio, de 2020, desenvolverem uma peça sobre o tema “joias e objetos de proteção do século XXI”. Na altura, pedimos para pensarem na pertinência de se fazer um objeto de proteção neste momento de pandemia. Como é que a joalharia pode ser útil enquanto objeto relacionado com o corpo? Simultaneamente, fomos consultando historiadores, membros honorários, pessoas que tínhamos na associação a nos dar testemunhos de objetos que ao longo da história da arte tiveram essa força. Foi também quando surge da parte da Madalena Brás Teixeira, investigadora e historiadora, este testemunho sobre a Nossa Senhora de Fátima que nos fala sobre a sua história e a forma como a própria foi construída. Outros exemplos foram surgindo...

Em relação ao diretor do Museu da Farmácia, encontramos um depoimento dele sobre um objeto muito interessante da coleção do próprio museu de proteção. Depois, Teresa Morna, diretora do Museu de São Roque, que também é membro PIN, falou-nos de um relicário. E as coisas foram-se construindo aos poucos e poucos durante o período de pandemia.

Depois, eu como investigadora da Católica, convidei a própria a ser parceira da bienal. Quero que seja ponto assente, da Bienal de Joalharia Contemporânea de Lisboa, o colóquio. O colóquio deve sempre abordar os temas que estamos a tratar. Quer dizer, tentando sintetizar, em grandes títulos, o que estávamos a tratar.

Assim sendo, pensamos no que estávamos a tratar, nomeadamente, no corpo, no medo, o que todo estávamos a sentir, e na proteção, que todos estávamos a precisar. Portanto, pusemos isto em perspetiva, começamos a pensar quem poderiam ser os oradores e a coisa foi-se construindo. Como já estamos cansados desta questão do streaming fizemos questão de que tudo fosse presencial.

«Throwing Knives», 2015, Gisbert Stach. Fotografia de Reinhard Burkl

G. – Já agora a quem se destinará as atividades, nomeadamente, os colóquios, encontros e masterclasses?

C. F. – A todos! Para as masterclasses, convidamos dois artistas internacionais, que conhecemos bem, e que achamos que se adequavam bem ao tema.

Penso que estejam mais destinados a estudantes, artistas, interessados no tema, mas claro se alguém de outra disciplina quiser experimentar trabalhar este tema, com este orientador, não temos qualquer restrição. Contudo, quanto tanto sei, na maioria são pessoas ligadas à joalharia que se inscreveram. No caso do colóquio, não conheço todas as pessoas, mas penso que há um misto entre investigadores e artistas.

G. – O acesso total à bienal possui algum tipo de custo? É necessário algum tipo de inscrição prévia?

C. F. – A nível de exposições, galerias, é gratuito. A nível dos museus, depende dos protocolos que os museus têm, se cobram ou não entrada, mas a maioria é gratuita. Depois, a nível do colóquio, e das masterclasses, têm um preço de inscrição. Nós abrimos as inscrições no dia 1 de maio e tivemos o chamado preço promocional para quem se inscreveu até final de junho. Depois, a partir de julho apareceu o preço normal, com três variantes. O preço de membro da PIN, o preço para os artistas participantes e depois um preço para o público em geral. No caso do colóquio, abrimos em três dias e se a pessoa quiser a totalidade dos dias ainda tem mais uma promoção. Depois, o colóquio que vamos fazer da coroa é gratuito.

A informação está toda no nosso website.

Cartaz geral do colóquio
Texto de Isabel Marques
Fotografias da cortesia da organização