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Crónica de despedida

A baixa lisboeta cheira a castanhas assadas e sacos de papel. O chão das lojas ainda fumega com toda a borracha que nele foi gasta como parte de uma demanda bélica por pechinchas e megapixels. O Natal está à porta. Literalmente à porta de todas as lojas, em forma de tapetes, luzes, grinaldas, e música, muita música, tão indispensável para os ouvidos como o álcool-gel para as mãos.

Tal como se desinfetam as mãos à porta dos estabelecimentos, também se desinfetam conversas à porta de casa, para garantir o mínimo de exposição a temas de risco. Mentes quadradas, só na televisão. É àqueles seres bidimensionais que se deve apontar a faca de trinchar enquanto se monta o banquete. A não ser que esteja a dar aquele filme muito giro com o miúdo loiro que depois se meteu nas drogas e cujo irmão é que agora faz imenso sucesso. Aquele… Enfim, quem estiver alerta finge que está a leste e tudo são canções e rabanadas.

Na mesa também há perú, bacalhau e, como não podia deixar de ser, barbaridades sociopolíticas. Há quem as tempere com vinho ou cerveja, há quem lhes deite açúcar para cortar a acidez, mas o que interessa é estar em família. Foi mais um ano atípico, por isso faz-se um esforço para manter a conversa o mais típica possível: saudosismo colonial, desconfiança na indústria farmacêutica, ciência versus religião, tinto ou branco, Big Brother ou The Voice, o costume.

Eventualmente, trocam-se presentes, envelopes coloridos e talões de troca, entre sorrisos e olhares de quem se conhece cada vez menos, mas ama-se cada vez mais. No Natal, todo o amor é surdo e cego.

Dezembro é um mês de reencontros felizes, mas também de despedidas difíceis. Há um ano fui convidado pela Gerador a escrever uma crónica para cada mês de 2021. Chegado o décimo segundo mês, está na hora de contar os últimos caracteres e pôr-me a andar. É uma despedida difícil, mas o reencontro estará sempre à vista. E será sempre feliz, como estes doze meses de partilhas frágeis e incompletas. Foram muitas palavras escritas e, principalmente, muitas palavras apagadas depois de escritas. Porque escrever também é duvidar do que se escreve.

Saber que todos os meses, a uma certa data, tinha de ter um texto pronto a entregar, teve tanto de aterrorizador como de catártico e transformador. De trinta em trinta dias, confrontei-me com a pergunta “o que é que me apetece dizer agora?” quando, muitas vezes, não me apetecia dizer nada. Absolutamente nada, a respeito de nada. Para nada. Mas tinha mesmo de ser. E ainda bem.

Agradeço à Gerador por me ter oferecido este espaço de liberdade, e por me ter desafiado a duvidar com confiança. E agradeço também aos leitores e leitoras que gastaram alguns minutos de 2021 a ler o que escrevi.

Paz, saúde e amor para todes. Boas festas!

-Sobre Marco Mendonça-

Marco Mendonça nasceu em Moçambique, em 1995. É licenciado em Teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Estreou-se nos The Lisbon Players. Em 2014, começou a trabalhar com a companhia Os Possessos. Estagiou, entre 2015 e 2016, no Teatro Nacional D. Maria II, onde participou em espectáculos de Tiago Rodrigues, João Pedro Vaz, Miguel Fragata e Inês Barahona, entre outros. Em 2017, trabalhou numa criação de Tonan Quito e fez o seu primeiro espectáculo com a companhia Mala Voadora. Em 2019, estreou-se como autor e co-criador em “Parlamento Elefante”, projeto vencedor da primeira edição da Bolsa Amélia Rey Colaço. Atualmente, integra o elenco de “Sopro” e “Catarina e a beleza de matar fascistas”, de Tiago Rodrigues.

Texto de Marco Mendonça
Fotografia de Joana Correia
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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